segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Lei do Menor Esforço


Lá fui eu ver o novo filme do Woody Allen este fim-de-semana.

Continuo a gostar tanto dele, tanto, tanto, tanto.

Mas não devido a este Vicky Cristina Barcelona, que não é horrível, mas também não é muito bom.

Eu acho que o Woody Allen tem uma cabeça que funciona a várias velocidades, como os automóveis, e ele vai controlando a velocidade a que quer que a cabeça funcione.

Por exemplo, acorda de manhã e não está para fazer nada, mas se não fizer nada aborrece-se, e por isso põe a primeira e pensa, "olha, assim como assim hoje também não tenho nada para fazer, a minha filha está ali a tratar dos nossos filhos - aaaah, nota mental: falar disto ao psiquiatra -, e se eu fizesse mas é um filme a despachar para encher tempo, pego ali no Crime e Castigo, em dois actores bem parecidos mas que queiram ser respeitáveis, invento uma coisa, filmo tudo num dia, tá a andar... é isso, vou chamar-lhe o Sonho de Cassandra, uma coisa assim a puxar aos Gregos para não desiludir o meu público, que gosta destas referências, é isso mesmo!"

Acorda noutro dia, põe a segunda e pensa, "pois é, Crime e Castigo, é isso, grande livro... e se eu inventasse uma história à Crime e Castigo mas em Londres, classe alta e tal, uma americana bimba, um oportunista do ténis, muito palacete inglês, gente a ler Strindberg, depois o tenista lá consegue casar com uma ricaça da alta, mas depois há a americana bimba a tentá-lo, e hei-de tornar o tenista horrível, mas todos os espectadores hão-de torcer por ele no fim, mas ao mesmo tempo vão criticá-lo e achar que ele é um animal, muito brechtiano... é isso mesmo, Match Point!"
Acorda noutro dia mais bem disposto e menos preguiçoso, mete a terceira ou a quarta, e quiçá talvez a quinta, e pensa, "eeeeeh... olha, eu agora era escritor, mas tinha um bloqueio...depois faço um filme sobre isso, onde personagens literárias se misturam com a realidade, e vou chamar-me Harry, no filme. Vai ser muitíssimo giro, às tantas nem se percebe quem é real, quem é personagem, como quando lemos um livro, e vou incluir uma deliciosa cena de um actor que fica desfocado..."
É quando decidir meter a quinta ou a sexta que ele faz Husbands and Wives, Hannah and Her Sisters, Alice, Purple Rose, Sweet and Lowdown, aqueles filmes muito suecos, muito Bergman (por acaso, a onda sueca do Woody Allen não é coisa que me apaixone muito; o Interiors, o Setembro, não me parecem extraordinários, por exemplo, mas acho que são bons filmes apesar de tudo, e portanto admito que, para estes, também tenha metido a quinta); para Annie Hall e Manhattan deve ter metido para aí a décima; e depois, de vez em quando, inexplicavelmente, decide afrouxar e tornar-se condutor de Domingo.

Adoro Woody Allen e sei que está fora do seu alcance fazer um filme que seja horrível. Este Vicky Cristina é giro, divertido, com diálogos engraçados e reconhecíveis e, sinceramente, pelo Javier vale muito a pena ir ver o filme e regalar o olhar. Mas não enche as medidas. Ainda não foi desta que Woody Allen decidiu meter a quinta, nem a quarta, e duvido muito que tenha sequer arriscado a terceira.

No entanto, Woody - amor, I love you.

2 comentários:

José Bandeira disse...

É tão verdade tudo o que diz. E houve aquele ‘Anything Else’ que escreveu num dia mau e que, parece que fazem de propósito, é o filme dele que mais passam nos canais TVC.
Mas para mim a culpa nunca será do WA, é como se ele tivesse escorregado numa casca de banana.

Anónimo disse...

Olá, eu cá até achei interessante. Há gente assim.