19/03/12

Descobri no fb e concordo com tudinho. Frank Zappa sabia.




Muita civilização

Pois é, venho por este meio dizer que fico muito contente por saber que nem tudo está podre no reino da Dinamarca, aka Portugal, e que há coisas que se passam cá que são de uma civilização tal que não podemos deixar de nos comprazer com isso.
E refiro-me concretamente a uma instituiçãozinha da máxima importância: Lusocord. O banco público de sangue de cordão umbilical, preparado para fazer a recolha em todos os hospitais do país, gratuitamente, e que desenvolve investigação em células estaminais para, esperançosamente, salvar vidas. Comparemos esta elegante situação com a pobrezinha Inglaterra, que tem umas recolhazitas que não se alargam, nem de perto nem de longe, a todos os hospitais do país. Se nós conseguimos, não se percebe como é que eles não conseguem. Mas enfim, isso são assuntos lá deles, "para inglês ver", como muito bem se aplica aqui. Ah, ah. Não resisti à piadola.
A única coisa que me custa nisto tudo é ver, em hospitais e centros de saúde públicos, publicidade a empresas de recolha privadas, que pedem milhares de euros por uma "seguro de vida" que tem 0,03% de probabibilidades de sucesso (não sei se os números são estes, sei que são efectivamente muito baixos), enquanto que o trabalho do digníssimo Lusocord passa quase alegremente (tristemente) despercebido. É claro que toda a gente diz "ah, mas qualquer probabilidade é uma possibilidade!", e tal e tal, e com certeza   que sim, mas a verdade é que vejo nestas empresas mais ganância e vontade de fazer dinheiro do que vontade de salvar vidas. O Lusocord tem as células à disposição de quem delas precisa e consequentemente, quanto a mim, a doação ao Lusocord é a opção que faz sentido. Mas enfim, cada um é como cada qual e não se pode brincar nem minimizar as vulnerabilidades, receios e sensibilidades de cada mãe e pai. Que façam aquilo que a consciência dita.
A minha dita o Lusocord.
Era só isto.

15/03/12

Resposta pronta

Num filme de que gosto muuuuuuuuuuuuuuuuuuito, High Fidelity, com um actor de que gosto muuuuuuuuuuuito, John Cusack, há uma cena em que este último tem de se confrontar com o namorado actual da ex-namorada, isto é: neste filme, o John Cusack tem uma loja de discos e uma namorada, Laura, que acaba com ele e vai viver com um tipo todo piroso que usava anéis (papel desempenhado pelo Tim Robbins, sempre irrepreensível em tudo o que faz). Este namorado piroso, agastado pelo facto de John Cusack estar sempre a  telefonar à ex-namorada, decide ir à loja de discos do mesmo John Cusack e pedir-lhe, de uma forma toda zen e parva, que ele acabe com a perseguição. Quando John Cusack o vê, fica fora de si, e o que se segue são três diferentes formas hipotéticas de como ele poderia lidar com o caso: insulta o homem, expulsa-o da loja, ou atira-lhe com uma televisão à cabeça. É uma cena linda de ver, por acaso, e das minhas preferidas do filme. E assim ficaria John Cusack esplendorosamente vingado.
Acontece que isto é apenas hipotético. Na realidade, John Cusack ouve o que o outro lhe tem a dizer, diz "está bem" e o Tim Robbins vai-se embora tranquilamente, com as integridades física e moral intactas.
Sempre gostei deste pequeno episódio porque infelizmente se assemelha ao que nos acontece na vida real. Pelo menos, a mim, acontece. As pessoas estão sempre a dizer-me coisas parvas ou com as quais não concordo e nunca consigo responder da forma que eu acho que elas mereciam, assim do estilo "esteja mas é calada, pá". Acontece às vezes chegar a casa e pensar que devia mesmo ter respondido "esteja mas é calada/o, pá". 
Não o faço, porque por um lado a sinceridade traz chatice, e por outro lado a sociedade baseia-se na mentira bem-educada, se não estávamos bem arranjados. Mas isso não que impede que eu simpatize com a situação do John Cusack e não queira, de vez em quando, atirar televisões à cabeça de certas pessoas. Embora, com toda a probabilidade, eu não conseguisse "acartar" (lindíssimo verbo) com a televisão.


Correcção: afinal não é uma televisão, é um amplificador ou assim. De qualquer forma, penso que também não conseguiria acartá-lo.

O dedo

O meu dia começou bem, com um apontamento de humor. Fui ao supermercado e deparei-me com esta esplêndida capa:



A questão que gostaria de levantar é: quem é que teve a ideia de uma coisa assim, o olhar sensível, o meio sorriso e o dedinho meio pensativo, meio indagador? O pormenor do dedo é coisa de classe. Pergunto-me se terá sido o António José Seguro a lembrar-se desta pose, ou se terá sido aconselhado a isso. Qualquer das respostas é igualmente assustadora, julgo.
Com uma foto desta qualidade, a leitura do livro é perfeitamente dispensável. O dedinho já diz tudo.
Ai, ai. Suspiro. 
Mas quem é que teve a ideia de uma capa destas? Estão mesmo à espera que se leve o dedinho a sério? Estas questões vão atormentar-me (e provavelmente fazer-me rir) para o resto do dia.

12/03/12


Infelizmente, já li hoje muita m*****, mas o que se segue deixou-me à beira do colapso:


Nada neste mundo é normal. A violência que se passa na Síria faz-me ter medo de abrir sequer os sites dos jornais online costumeiros. E, como se constata, a violência e a falta de respeito estão em todo o lado, à descarada.

11/03/12

Ninguém se chama "Baby"

Quando vi o Dirty Dancing, tinha já 17 anos. O filme já era antigo nessa altura - gostava de esclarecer este aspecto. 
Continuando. Venho por este meio dizer que este filme é uma bodega e não quero saber. A miúda tem o nariz torto e o Patrick Swayze faz o que pode, dança bem, mas enfim, já no Ghost é uma seca e aqui também. E depois a própria história é seca, é a miúda a aprender a dançar enquanto passa férias no Inatel. E que idade é que ela tem para ainda andar de férias atracada à família? Oh pá, que vá fazer o inter-rail, sei lá. 
Mas o que me faz mesmo, mesmo não gostar deste filme é o nome da rapariga. Baby. Baby. Sei que agora toda a gente caçoa disto e diz "no one puts Baby in the corner", mas não deixa de ser muito parvo. Baby.
Se a miúda tivesse outro nome qualquer, mais normal, talvez o filme se conseguisse ver. Assim, não.
Peço desculpa a quem gosta do filme, a sério que sim. Eu também gosto de milhentos filmes parvos e anódinos, para compensar o facto de não gostar deste. Olha o Príncipe em Nova Iorque do Eddie Murphy. Adoro este filme e não é grande coisa, de modo que assim me redimo. 
Boa noitinha, sim?

29/02/12

Isto é que são descrições realistas de filmes

O que tenho a dizer sobre os Oscars está aqui. Os meus filmes favoritos são:


Seguido de:


Sem esquecer este outro magnífico:


Ah, ah, ah, ah! O "Analyse Dat Ass" também vale muito a pena.
Um pequeno apontamento de humor. 

25/02/12

Oscars - alguns comentários

Eu tento ver os Oscars todos os anos. Adormeço sempre, não sem antes me irritar com as escolhas da chamada "Academia", que escolhe sempre tudo ao contrário daquilo que eu acho. E há exemplos clássicos disso - o Citizen Kane não ganhou Oscar de Melhor Filme;  o Crash ganhou ao Brokeback Mountain (! - esta foi das poucas vezes que fiquei até ao fim a ver e fiquei fora de mim); A Halle Berry e a Gwyneth Platrow também já ganharam Oscars (mais uma vez -!), e por aí fora. 
Bom. É interessante pensar quem é, afinal, esta "Academia" e porque é que tanta gente, inclusive eu, presta tanta atenção às escolhas que faz. Descobri, por exemplo, que o Lorenzo Lamas faz parte da Academia e vota. Palavras para quê, não é (a propósito, confirmar artigo interessante aqui, que explica quem são afinal estes indivíduos da Academia. Uma massa multicultural e multiétnica, como se verifica).
No que me diz respeito, penso que ainda sigo os Oscars porque não resisto ao espectáculo de encher o olho que os americanos fazem na perfeição e que, fraca que sou, me cativa por completo. A passadeira vermelha, os vestidos, aqueles actores todos, uns de que gosto verdadeiramente, outros que apenas considero esteticamente aprazíveis e isso também é respeitável, e depois a excitação de abrir o envelope, and the Oscar goes to, e aquelas músicas todas épicas, e depois as pessoas choram e agradecem ao marido ou à mulher e é tão romântico, e pronto. É bonito. Enfim, gosto. Lembro-me de que uma vez a Whoopi Goldberg apresentou os Oscars e disse, no final, qualquer coisa como "estou a a falar para o menino que está a ver a cerimónia e a pensar "qualquer dia, uma daquelas estatuetas será minha". Depois fez uma pausa, apontou para a câmara e rematou "kid, you'd better believe it". Neste tipo de épica, não há quem suplante os americanos, de facto. E portanto tudo isto é um espectáculo que eu aprecio, além de também apreciar cinema americano. Já se sabe que não é o único cinema que existe, mas é evidente que consegue produzir coisas muito boas (a par de grandes porcarias, mas isso já se sabe).
O que já não aprecio tanto são as escolhas da tal "Academia" e o "hype" (brrrr, palavra feia) que criam em torno de certos filmes. Vou ser completamente injusta e começar pelo Artista - sou injusta porque não vi este filme até ao fim e não o vi no cinema. Um filme destes tem absolutamente de ser visto no cinema. Mas ignorando estes dois factores, o que vi do Artista não me seduziu assim muito. Tem imagens bonitas? Tem, mas quer dizer, os filmes mudos originais são mais bonitos (alguns, pelo menos). A história não me pareceu grande coisa (não vi até ao fim, repito), porque o excerto que vi me parecia uma narrativazita banal, tipo comédia romântica de Domingo à tarde. O actor principal também não me cativou. Estava a pensar num actor subtil e pareceu-me apenas exagerado, e a câmara obcecada em registar-lhe todos os sorrisos, todos os olhares descaradamente. Enfim, não gostei muito, e a não ser que tenha oportunidade de o ver como deve ser, no cinema, não me parece que vá tentar ver outra vez. Peço desculpa a quem gostou do filme, porque eu de facto não vi até ao fim. São comentários com base apenas no excerto que visionei. 
Isto para dizer o quê? Que ainda a procissão vai no adro e já o Artista é dado como vencedor, e provavelmente será. É um exercício engraçado, não duvido, mas não é a salvaçao do cinema, "ai, não precisamos de filmes em 3D para apreciar cinema!". Não, realmente não. Também não sei é se precisamos do Artista, mas enfim.
E todo este post se justifica porque o filme que eu gostava de ver a arrasar completamente é este, e nem sequer foi nomeado:



Estilizado ao máximo, propositadamente estilizado, até, elegante, muito giro. Eu próprio sou vítima do tal "hype", que também não prejudicou este Drive. Não foi nomeado, mas tem já uma legião de seguidores.
No fundo, os Oscars são de facto uma celebração da festarola que um certo tipo de cinema é. Não há nada de mal nisso, especialmente quando filmes merecedores ganham Oscars. Também não há nada de necessariamente bom. 
Mas enfim. Isto é só converseta. Amanhã lá estarei eu muito irritada a ver a "cerimónia".

17/02/12

As convenções de género do filme de terror estão cá todas

Este ano, já vi pelo menos um filme de terror daqueles tradicional:
- cenas de sadismo e tortura
 - objectificação do corpo humano, mormente rostos macilentos, nódoas negras, ossos a chocalhar, olhos cadavéricos e vazios
 - consequências sangrentas e massacrantes da gravidez não planeada, nomeadamente trabalhos de parto com cesarianas a sangue frio e sangue a rodos
- pormenores macabros como uma mulher grávida a beber sangue humano e a dizer "hmmmmmm", labendo os lábios, deliciada
- noite de núpcias com claras fantasias de violação
Um filme de terror série ZZZZZZZZ, portanto.




16/02/12

Esta é a ditosa Grécia, minha amada

Pode não ser ditosa, mas ainda é a Grécia.
E pode parecer um exagero, mas para mim não é - a Grécia foi sempre o meu país de contos de fadas, era um país que eu pensava que era inventado, uma fantasia, e depois descobri que era verdadeiro, que existia mesmo um Olimpo, um Delfos, um Corinto, uma Trácida, uma Creta, e pareceu-me bom demais para ser verdade, e sempre que tive a sorte de visitar a Grécia e via aquele sol, as montanhas, o mar, os ciprestes  tudo me parecia bom demais e bonito demais para ser verdade, até Atenas eu adoro, e as pessoas estão sempre a dizer que Atenas é feia.
A Grécia é o meu país de fadas.
E por isso, e pode parecer um exagero, mas para mim não é, quando penso na Grécia para não pensar em Portugal, enredo-me num incompreensível masoquismo em que não evito a tristeza e apetece-me chorar e penso nisto:


¡Que no quiero verla!
Dile a la luna que venga,
que no quiero ver la sangre
de Ignacio sobre la arena.
¡Que no quiero verla!
La luna de par en par,
caballo de nubes quietas,
y la plaza gris del sueño
con sauces en las barreras
¡Que no quiero verla¡
Que mi recuerdo se quema.
¡Avisad a los jazmines
con su blancura pequeña!
¡Que no quiero verla!
La vaca del viejo mundo
pasaba su triste lengua
sobre un hocico de sangres
derramadas en la arena,
y los toros de Guisando,
casi muerte y casi piedra,
mugieron como dos siglos
hartos de pisar la tierra.
No.
¡Que no quiero verla!
Por las gradas sube Ignacio
con toda su muerte a cuestas.
Buscaba el amanecer,
y el amanecer no era.
Busca su perfil seguro,
y el sueño lo desorienta.
Buscaba su hermoso cuerpo
y encontró su sangre abierta.
¡No me digáis que la vea!
No quiero sentir el chorro
cada vez con menos fuerza;
ese chorro que ilumina
los tendidos y se vuelca
sobre la pana y el cuero
de muchedumbre sedienta.
¡Quién me grita que me asome!
¡No me digáis que la vea!
No se cerraron sus ojos
cuando vio los cuernos cerca,
pero las madres terribles
levantaron la cabeza.
Y a través de las ganaderías,
hubo un aire de voces secretas
que gritaban a toros celestes,
mayorales de pálida niebla.
No hubo príncipe en Sevilla
que comparársele pueda,
ni espada como su espada,
ni corazón tan de veras.
Como un rio de leones
su maravillosa fuerza,
y como un torso de mármol
su dibujada prudencia.
Aire de Roma andaluza
le doraba la cabeza
donde su risa era un nardo
de sal y de inteligencia.
¡Qué gran torero en la plaza!
¡Qué gran serrano en la sierra!
¡Qué blando con las espigas!
¡Qué duro con las espuelas!
¡Qué tierno con el rocío!
¡Qué deslumbrante en la feria!
¡Qué tremendo con las últimas
banderillas de tiniebla!
Pero ya duerme sin fin.
Ya los musgos y la hierba
abren con dedos seguros
la flor de su calavera.
Y su sangre ya viene cantando:
cantando por marismas y praderas,
resbalando por cuernos ateridos
vacilando sin alma por la niebla,
tropezando con miles de pezuñas
como una larga, oscura, triste lengua,
para formar un charco de agonía
junto al Guadalquivir de las estrellas.
¡Oh blanco muro de España!
¡Oh negro toro de pena!
¡Oh sangre dura de Ignacio!
¡Oh ruiseñor de sus venas!
No.
¡Que no quiero verla!
Que no hay cáliz que la contenga,
que no hay golondrinas que se la beban,
no hay escarcha de luz que la enfríe,
no hay canto ni diluvio de azucenas,
no hay cristal que la cubra de plata.
No.
¡¡Yo no quiero verla!!

15/02/12

"Eu vi mas não agarrei", cantavam os Ornatos. E que tal ver e agarrar?

Ora, ouvi dizer que Ethan Hawke, Julie Delpy e Richard Linklater estão em conversações para realizar a sequela de Before Sunset. Espero bem que se despachem.
Eu gostei muito, mas mesmo muito, do Before Sunrise, porque era pouco mais nova do que as personagens quando vi o filme e portanto identifiquei-me muito com o que diziam e com a história em si. Amores à distância sempre me atraíram, e nunca consegui ultrapassar o facto de, parvamente, Jesse e Celine não terem trocado moradas nem números de telefone nem...? Hã? Estavam a pensar em quê? Foi bem feita terem de esperar nove anos para se encontrarem novamente.
Também gostei muito, mas mesmo muito, de Before Sunset, porque era pouco mais nova do que as personagens quando vi o filme e portanto identifiquei-me muito com o que diziam e com a história em si. A noção de que é preciso trabalhar para tudo na vida, até para mantermos as pessoas de quem gostamos perto de nós, sempre fez muito sentido para mim, e nunca consegui ultrapassar o facto de, parvamente, Jesse e Celine terem passado o filme todo a falar e a trocar impressões sobre coisas vagas quando é tão óbvio que, ponto um, o que Jesse tem a fazer é divorciar-se e ficar com a Celine, ponto dois, o que Celine tem a fazer é dizer a Jesse que gosta dele e que quer que ele se mude para Paris. Ou vai ela para os States, já que o Jesse tem um filho pequeno, se calhar é mais fácil assim.
Às vezes perdemos muitas oportunidades na vida e ficamos a pensar, ah, que parva que eu fui em não ter aproveitado isto ou aquilo melhor, este ou aquele emprego, o curso, porque é que não fiz uma pós-graduação, porque é que não concorri a não sei onde quando ainda era nova e etc. e etc. Já não há nada que possamos fazer e ficamos carcomidos por dentro devido a estas coisas parvas, externas, que não podemos mudar. Com as pessoas é um bocadinho assim, há pessoas que passam por nós e não aproveitamos quando devíamos aproveitar. No entanto, a vantagem das pessoas é que podemos sempre telefonar-lhes, mandar-lhes um email, combinar um cafezinho, e quando estivermos a tomar esse cafezinho temos de aproveitar e de lhes dizer o que realmente queremos dizer, "olha, tu para mim és o Corto Maltese", por exemplo. 
Deixamos as pessoas passar por nós porque às vezes achamos que é tudo muito difícil e complicado e que não vale a pena. Foi o que aconteceu ao Jesse e à Celine e perderam nove anos. Tudo bem que são personagens ficcionais, mas são ilustrativas dos erros parvos que às vezes cometemos porque a "convenção" diz-nos que uma coisa não vai resultar só porque há distância e milhares de quilómetros no meio.
O que a gente não sabe nem pode saber na altura é que resulta, sim. Resulta, resulta e resulta. E se pensarmos assim, resulta mesmo (parece que li aquele livro que é o Segredo, não é? Mas não, realmente não li. Consigo escrever posts deste calibre elevadíssimo mesmo sem ler livros de igual calibre elevadíssimo.). 

...ainda a propósito do post anterior:

Case in point:
Submarine, 2010.
Confirmar data de lançamento em DVD.
Confirmar data de estreia nas salas portuguesas (e noutros países europeus também).

Há aqui, com certeza, algo a fazer.

14/02/12

Desabafo atabalhoado

Ando a ler coisas na net sobre a lei da cópia privada e essa coisa abjecta que é a Acta.
Tudo uma latrina.
A minha opinião não é muito diferente da maior parte dos textos que tenho encontrado sobre estes tristes assuntos, e o meu próprio texto também não será muito diferente, portanto não precisam de ler. 
A minha pergunta é, há alguma banda que tenha ido à falência por causa da internet e dos downloads ilegais? Pelo contrário, ouço falar é de bandas que usam a internet de forma inteligente para auto-promoção, dispensando assim as grandes editoras. Se a resposta destas últimas é propor e/ou apoiar mais impostos e legislação ao nível da Acta, em vez de repensar o seu papel, tenho muita pena. Não é assim que se travam os downloads ilegais que tanta diferença lhes fazem na carteira.
Quando os Metallica intervieram para fechar o Napster, fiquei indignada e nauseada de tal modo que ainda hoje não consigo nem vê-los. Nunca pagaria um CD deles, nunca pagaria um concerto, nunca sequer iria a um concerto destes senhores mesmo que o bilhete fosse oferecido. É que nem de graça os quero ouvir ou ver depois do que fizeram. Uns tipos que ganharam milhões e que continuam a ganhar milhões querem fechar a Napster porquê?!
 Não discuto a ilegalidade de sites dos quais o Napster foi percursor, mas estes sites também contribuem para promover bandas e material criativo, e porque não pensar em soluções legais, que façam as pessoas pagar um preço justo, para que todos possamos continuar a apreciar boa música? Faz algum sentido sequer considerar em, sei lá, eliminar o YouTube, por exemplo? 
Se calhar, o que é preciso aceitar, principalmente "no que concerne" a editoras, é que os milhões de antigamente já não são gerados de forma tão fácil. A internet permite que cada indivíduo partilhe a sua criatividade, com mais ou menos sucesso. Porque é que eu hei-de contribuir para que uma miúdeca loura vinda de uma qualquer sarjeta, com um palmo de cara e garganta à Celine Dion (às vezes nem isso), que vai para os concertos fazer playback, enriqueça de forma desproporcional ao trabalho que faz? Posso encontrar música bem mais gira e de mais qualidade na net, produzida por músicos com muito mais talento e de forma muito mais barata (nem sempre, porém - afinal, a net também contribuiu para lançar a Ana Free. Só me faltava agora ter de pagar imposto para ter de a ouvir. Preferia pagar imposto para o José Cid. Não que a Ana Free seja horrível, coitada da miúda, e além disso tem muita iniciativa, mas enfim, não sou fã).
Como dizia o Darwin, adapta-te ou morre (acho que foi o Darwin que disse, já nem sei). Há com certeza, e de certeza formas mais criativas e justas de combater a pirataria do que impostos irrazoáveis e atentados à democracia como é o caso da Acta. 
É assim tão difícil de compreender? Afinal, para que é que os países democráticos têm representantes eleitos? É para dar dinheiro aos senhores ou para velar pelos interesses da arraia-miúda, lá dizia o Fernão Lopes?
Pela arraia-miúda é que não é, como tristemente já se constatou até à exaustão.
Desculpem o desabafo atabalhoado.

Adenda: esqueci-me de dizer que, quanto a filmes, talvez descer o preço dos DVDs a 20E seja boa ideia. Era um sinal positivo para motivar as pessoas a comprar cópias legais. Investir em extras decentes em DVDs também seria bom, não extras da treta que a gente já sabe que não vai ver. Melhorar a distribuição mundial dos filmes também seria positivo - quando um filme sai em DVD nos EUA, por exemplo, e ainda não chegou às salas na Europa, e em certos casos nunca chega, está-se à espera concretamente de quê? 
Motivar as pessoas a ir às salas de cinema também seria positivo, embora quem gosta a sério de cinema vá às salas de qualquer maneira. Eu deixei de poder ir tão frequentemente como desejaria, e sinto umas saudades terríveis. Compenso ao ver filmes em casa, mas não é a mesma casa. Legal ou ilegalmente.
Também não era má ideia respeitar o facto de a cópia digital também ser paga, portanto não faz sentido andar a dificultar a vida às pessoas que compram música no itunes quando querem partilhar a música que compram privadamente (não estamos a falar de vender ilegalmente). Quando é tão mais fácil fazer download do mp3 ou filme, ver quando quiser, dar aos meus amigos e familia,ao invés de estar a gastar dinheiro numa cópia legal que me dificulta a vida, a que propósito é que se espera que as pessoas gastem dinheiro?! Ultrapassa-me.

13/02/12

A pessoa sabe que está velha quando:

...a nossa pequenina afilhada de 7 anos diz que sabe muito bem quem é o Rui Reininho - é "o velhote da Voz de Portugal".
Rui Reininho, o meu homem, não só "velhote" como também "da Voz de Portugal".
Custou ouvir.

06/02/12

A gente sabe que o dia vai correr bem...

... quando a primeira sms de parabéns, no dia do nosso aniversário, é do Benfica, a desejar-me um dia cheio de "mística". Ah, ah, ah!
Já me queixei de ter pouca mística, mas nesse dia acho que tive, graças ao Benficazito. Se eu soubesse, já me tinha tornado sócia há muito, muito mais tempo.
A propósito - ainda não recebi nenhum bilhete de graça para os jogos. Tenho direito, ou não tenho? É que, já que estou cheia de mística, já agora gostava de ir ao estádio partilhá-la com outras pessoas de mística. A minha vida é assim.

Não tenho título, é sobre a Leni Riefenstahl

Graças às maravilhosas benesses da "hiperligação" da internet, descobri este site com uma série de artigos de Clive James, à borlix (adoro esta expressão). Ando a ler uns quantos, e dos que li gostei particularmente do artigo (no fundo ensaio) sobre Leni Riefenstahl. O texto é muitíssimo eloquente, quanto a mim, e diz-se a certa altura:
Some spectators thought even at the time that her cinematic gift had served to legitimize a murderous ideology, but almost nobody belittled her artistic talent. She was thus able, when the Nazis lost, to invoke the principle that art trumps politics. (...) Steven Spielberg said he wanted to meet her. If he had made Schindler's List ten times, he could not have undone the portent of such a wish, because he was really saying that there can be art without a human framework, and that a movie can be made out of nothing but impressive images. 
O texto é bastante duro, até impiedoso, e tem necessariamente de ser assim, dado o objecto de estudo. O caso de Riefenstahl é curioso porque, como disserta Clive James, o talento que quase todos lhe atribuem foi completamente dividido, arrancado até, à ideologia que o permitiu, como se fosse uma entidade completamente à parte do nazismo. 
Eu já escrevi, talvez até demasiadas vezes, sobre como, quanto a mim, a arte tem de ser tomada em si mesma, e como o Bloom tem toda a razão em adoptar um critério puramente estético para o cânone, dissociado do dado social, político, até ético, mas casos como o de Riefenstahl fazem-me pensar e, acima de tudo, repensar tudo isto. Uma coisa é a gente achar piada ao Sean Penn no Sweet and Lowdown de Woody Allen, que é um ser humano execrável mas um músico sublime - além de ser ficcional, a personagem de Sean Penn nunca andou a matar gente. Outra coisa é ver o Triunfo da Vontade, por exemplo, e admirar e gabar o talento que o produziu, e que as imagens são tão bonitas e isto e aquilo, estando perfeitamente ciente da ideologia (assassina, como a qualifica James) que justificou o filme. Interessa verdadeiramente saber se Leni Riefenstahl sabia ou não dos campos de concentração (e tudo indica que sabia, por mais que o tivesse negado)? Alguns dirão que não, que isso é uma questão ética que não prejudica a beleza do filme. Eu acho que, para mim, prejudica. Lembro-me de ler um artigo no Público, há imenso tempo, precisamente sobre o Triunfo da Vontade, em que se descrevia o filme como "horrivelmente belo" e Riefenstahl como "do lado errado da história". Mas a questão do seu talento, e da validade do filme, permanecia intocável, dissociada da moral e da ética.
Não tenho a certeza de que as coisas possam ser assim. É evidente que não me passa pela cabeça vir agora dizer que os filmes dela deviam ser proibidos ou coisa do género, nada disso. Penso apenas que a "human framework" que James menciona não pode, de facto, estar ausente quando se vê algo como o Triunfo da Vontade (e concordo com ele quando insinua que o facto de Spielberg querer conhecer Riefenstahl seja no mínimo grotesco). Podemos ver o filme, podemos achar bonito - mas temos de saber, nuito claramente, que é um filme assassino. Se isso não nos incomodar, se acharmos que não influencia a forma como pessoalmente o visionamos ou, até, a recepção do filme em geral, então há algo de errado connosco. Acho mesmo que sim.

04/02/12

Pessoas incompletas

O Corto Maltese acaba de me perguntar: "como é que é possível que nunca tenhas visto o Rei Leão?!"
Olhou para mim de forma tão chocada que me sinto uma pessoa incompleta.
Pois é. Nunca vi o Rei Leão nem nunca vi o Bambi. Pode parecer insignificante, mas interrogo-me se isto não terá consequências mais profundas. Será que este tipo de lacunas nos torna pessoas incompletas a nível "coltural"? Será que as mesmas lacunas me impedem de participar activamente no imaginário colectivo de toda uma geração, neste caso a minha, explicando-se assim porque me sinto às vezes tão desligada da sociedade em geral? Dou um exemplo - eu podia ter escrito esta pergunta no facebook, mas não valeria a pena, porque só tenho cinco amigos no facebook, não reunindo assim amostra representativa. Sou uma pessoa de quem ninguém gosta, e se eu tivesse visto o Rei Leão em pequena, a coisa talvez se tivesse resolvido. Será que a ausência de imaginário colectivo vai provocar em mim uma psicopatia a longo prazo, enveredando eu pelo caminho de serial killer? São estas as questões que eu levanto.
Há pessoas que se calhar nunca viram o Último Tango em Paris ou o Elton John em Vilar de Mouros e isso, para a geração delas, é fundamental. Se calhar, também elas são, como eu, pessoas incompletas.
De modo que a minha pergunta para o fim-de-semana é: há alguém incompleto como eu que nunca tenha visto o Rei Leão e se sim, o que fazem para colmatar a lacuna (tarefa importante, a de colmatar lacunas)?

02/02/12

British Office vs American Office (alguns spoilers, poucochinhos)


Eu adoro, adoro, adoro, mas é que adoro, o Office. Estamos a falar do original e único Office britânico, com aquele génio do Ricky Gervais a fazer de David Brent, a personagem mais inesquecível que eu alguma vez vi em televisão por todas as más razões, o que a torna ainda mais inesquecível.
Durante muito tempo, achei que não valia a pena ver a versão americana, por razões várias. Primeiro, era impossível ser melhor do que o Office britânico. Segundo, era impossível alguém comparar-se a Ricky Gervais a fazer de David Brent. Terceiro, era impossível alguém comparar-se a Ricky Gervais a fazer de David Brent. Quarto, era impossível alguém comparar-se a Ricky Gervais a fazer de David Brent. Quinto, parecia-me também impossível recriar o humor cáustico, desconfortável, do Office, em que a pessoa sente tanta vergonha alheia que se quer enfiar num buraco. Sublime, mesmo.

Bom. Acontece que comecei a ver uns episódiozitos do Office americano aqui e ali, e comecei a gostar. O truque é a gente deixar de comparar, porque a versão americana, com o avançar das temporadas, deixou de ser de facto uma versão e ganhou autonomia e mérito próprios. É claro que o Office americano é uma sitcom americana, logo muito mais doce e mais fofinha do que o Office britânico, que era terrível no seu retrato da rotina cinzenta do escritório. Os americanos não resistem a tornar o escritório mais aprazivelzinho, e em geral todas as personagens são mais queridas, mais bonitas, mais fáceis de gostar do que na versão britânica (basta comparar o Jim e a Pam, lindos, com o Tim e a Dawn, normais). Passa-se exactamente a mesma coisa com o Shameless britânico e o americano, por exemplo, e sobre isso já escrevi, portanto não repetirei.
Há uma grande diferença entre David Brent e Michael Scott, o patrão americano, porque este último, por mais idiota que seja (e é bastante), é genuinamente afectuoso. De certa forma, gosta-se dele, ao passo que é impossível gostar de David Brent. Michael Scott também tem a vantagem de ser interpretado por Steve Carrell, que, independentemente das escolhas desastradas que por vezes faz em termos de filmes (excepção feita ao Virgem de Quarenta Anos, ao qual acho piada embora não queira achar piada, mas acho, porque tem piada), enfim, apesar de filmes menos bons, consegue ser quase perfeito. Mas não o queiramos comparar a David Brent, porque senão não resulta. David Brent foi muito mais longe do que qualquer espectador de sitcoms alguma vez poderia esperar, e Michael Scott fica, por comparação, a meio do caminho.
Mas não era propriamente sobre isto que eu queria falar, embora possa parecer que sim. Num determinado episódio do Office americano, a empresa de papel onde todos trabalham está a falir e é vendida a um monstrengo qualquer, uma nova empresa empenhadíssima no lucro e na produtividade e tal. Os empregados ficam a saber que, ao invés das 6 semanas de férias de que anteriormente gozavam, passam a ter apenas duas; é-lhes dado um termo com água para não andarem sempre a passear pelo escritório a caminho da máquina de água (aquelas que têm uns garrafões, não sei como se chamam); todos os sites "recreativos", como facebook, email pessoal, youtube, são bloqueados. 
Eu sei que algumas empresas fazem isto, de facto, e que já ninguém discute muito porque se tornou aceitável e legítimo que a empresa não pague aos trabalhadores para eles andarem no facebook. Por um lado, é legítimo. Por outro, é horroroso. Eu, por exemplo, nunca vou ao facebook no trabalho por vária ordem de razões, a saber, ponto um, a minha senha do wireless tem um problema que ninguém consegue resolver. É só por isto. Se trabalhasse num sítio em que a entidade patronal confiasse tão parcamente em mim ao ponto de me infantilizar (a menina não vai ao facebook antes de fazer o trabalho de casa), acho que me sentia, digamos que, mal. E foi isto que aconteceu às pessoas nesse episódio do Office, coitadas. Resmungaram imenso, mas ou aceitavam, ou iam para a rua.
Trabalhar para o cheque ao fim do mês custa muito, sinceramente. Não é um favor que façamos a alguém oito horas por dia. De modo que não vejo o problema de se ter acesso livre ao youtube, facebook e quejandos. Ou talvez seja apenas eu que estou mal habituada. Mas acho mesmo que não, que não estou. Pelo contrário.
Your teacher preaches class like you're some kinda jerk. Fight for your right to party. Cantam os Beastie Boys e canto eu.

Facadinhas

Pois é, ando assim numa onda mais introspectiva e ponho-me a pensar sobre o amor e casais e outras coisas assim lamechas.
O meu instrutor de condução, há muitos anos, tinha muita opinião sobre estas temáticas. Gostava de falar da importância da família, que era para ele o mais importante do mundo, e dizia "é que uma facadinha no casamento aqui e ali, pronto, é normal, mas o mais importante é a gente dar atenção à família, sair com a família aos Domingos, estar com a família". 
Nunca quis saber o que é ele entendia por "facadinhas", mas sei o que algumas pessoas entendem, gerando-se assim generalizações relativamente parvas como "se for só beijinho na boca não conta" ou "se for a viajar ou noutro país não conta". Eu designo isto por parvo, mas na verdade não o é necessariamente. Se estiver tudo bem resolvido e às claras, cada um é que sabe em que relação é que se mete. Cada um é como cada qual (não resisto, adoro esta expressão).
Quanto a mim, a questão da monogamia é algo que faz sentido, embora também só relativamente, porque sei lá se passado cinquenta anos (ou para aí dez) ainda vou pensar da mesma forma. Nem sei se é possível manter um casamento feliz durante cinquenta anos (ou para aí dez). Por um lado acho que sim, claro que sim, por outro acho absolutamente impossível, não porque as tentações extra-conjugais andam por aí a saltitar, mas sim porque cinquenta anos (ou para aí dez) sempre com a mesma pessoa parece esquisito. Só isso, esquisito. Mas depois penso no Corto Maltese e em chocolate, que para mim vão quase dar ao mesmo, e da mesma forma que não me imagino a deixar de gostar, ou sequer a entediar-me com chocolate, também não me imagino a deixar de gostar, ou sequer entediar-me com o Corto Maltese. 
Mas isto presumindo que tudo é honesto e não há cá facadinhas. As facadinhas sempre me pareceram falsamente inofensivas, ou por outra: sempre me pareceram destrutivas, mas falsamente inofensivas para quem diz que elas são inofensivas. Aquele quadro de Frida Kahlo chamado, precisamente, "Facadinhas" (acho que se chama assim), e apesar de retratar uma situação bastante diferente e muito mais terrível (um homem que matou a mulher à facada, por ciúmes, julgo, e justificou o crime como sendo "apenas umas facadinhas"), acaba no fundo por falar da mesma coisa. Uma facadinha é uma facadinha. Mesmo que não doa propriamente, pica, faz comichão, sei lá, em geral é desagradável. (A propósito, o quadro, terrível e bonito como tudo o que Frida pintou,  é este:

).

E isto para dizer o quê? Para dizer que hoje me enervei imenso no trânsito, que não atava nem desatava, que cheguei atrasadíssima, que foi muito complicado, e lembrei-me do instrutor de condução que achava que a facadinha faz parte do casamento.
Talvez faça, quem sou eu para dizer. O que tenho, sim, para dizer é que facadinhas não são fenómenos que me agradem. É que a mim doem-me mesmo. Cada um é como cada qual.
Bem haja pela atençãozinha.

26/01/12

Ou tudo, ou nada.

Gosto bastante deste blog, e apesar de nunca ter visto o filme de onde os fotogramas são retirados, imagino que o diálogo que se apresenta (uma mulher que diz a um homem qualquer coisa como "achas que depois da noite passada ainda podemos ser amigos? You underestimate me - não consigo traduzir isto muito bem). Bom.
Isto fez-me pensar (porque imagino que a cena se refira a uma mulher que se tenha divertido com um homem que agora a tenta descartar, embora possa estar completamente errada. Mas vamos assumir que não estou).
Vi uma vez, há imenso tempo, uma peça de teatro cujo nome não me lembro, mas sei que era coisa séria e de adulto, porque tinha nudez explícita e era interdito a crianças. Nessa peça, o actor principal fazia de "drag queen" (não era bem, mas não encontro um termo melhor), tem um namorado encantador, que às tantas se revela como muito pouco encantador porque quer acabar com ele, o drag queen, e tenta amenizar a coisa com "ah, mas queria muito ser teu amigo e tal". Responde-lhe o drag queen que nem pensar, que a amizade depois do amor não é amizade, é uma pobre consolação quando já não resta mais nada.
Bolas, eu não tenho a certeza de muita coisa, mas tenho a certeza disto ("a nível pessoal", como se costuma dizer, isto é, tenho a certeza de que funciona assim para mim). Lembro-me de estar a ver a peça e a pensar que o drag queen tinha toda a razão do mundo e que fez muito bem em dizer ao namorado que ou é tudo, ou não é nada. Amizade depois do amor? Ou, expliquemo-nos melhor: amizade quando um já não sente amor e o outro ainda sente? Não há aqui amizade possível. A amizade não pode vir das rupturas. Se assim for, é apenas uma caridade, uma pobre consolação.
A frase de Sade de que gosto tanto, de que a caridadezinha não passa de orgulho, e quem a pratica fá-lo apenas para se sentir boa pessoa, e portanto por motivos egoístas, aplica-se aqui também (a beneficência é mais um vício do orgulho do que uma verdadeira ostentação da alma; é por ostentação que se dão alívio aos semelhantes, nunca é com a pura intenção de praticar um acto bom). Já não te quero como namorado/a, mas vou fazer o favor de ser teu amigo/a, porque não suporto sentir-me má pessoa e causar-te esta dor. Eu, a isto, respondo que não, que nem pensar. Não quero ser amiga de um Corto Maltese qualquer que queira acabar comigo, muito pelo contrário, quero distância, silêncio completo, ruptura total, não pensar nele, não o ver, não saber se está feliz ou infeliz, casado ou solteiro, com filhos ou sem filhos, para eu poder andar para a frente com uma ajudinha dos meus (verdadeiros) amigos, como cantavam os sábios Beatles.
Ao menos, o Serge Gainsbourg, secundado depois por Jarvis Cocker, cantava sobre isto de forma muito honesta. Eh pá, já não dá. Vou-me embora. Dantes gostava de ti - but, hey, como canta o Jarvis sem mais explicações. Sobre isto também já escrevi, e enfim.
Nada mais tenho a dizer, excepto que, evidentemente, isto é uma posição pessoal, tenho imensa admiração por quem consegue extrair amizade das cinzas, tipo fénix milagrosa, apenas digo que para mim não dá, que tenho pouco jeito para milagres.



 Pergunta: como é que se põe apenas o leitor de música, sem mostrar o vídeo? O vídeo não tem interesse e não faço questão nenhuma de o ter aqui, mas só sei fazer assim.

25/01/12

Ficções

As pessoas gostam de criar ficções, ou porque são escritoras e ganham a vida assim, e quem me dera a mim, portanto tudo bem, ou porque não conseguem viver sem uma narrativa que lhes justifique os problemas, as paranóias, as óbvias ilusões. Construímos sempre narrativas, encaramos a vida como uma longa história que começa no dia em que nascemos, Paul Ricoeur escreveu sobre isto, julgo, e a ficção faz parte de contar uma história, portanto ninguém nos pode levar a mal se, lá pelo meio, quisermos explicar o nosso mau humor com um "ah, o meu pai batia-me quando eu era pequena", mesmo que isto não seja inteiramente verdade, mesmo que isto tenha sido, na realidade, umas quantas admoestações ríspidas, uma palmada no rabo, mas é o que basta para eu extrapolar, dizer que me bateram quando era criança, porque se não for assim não há nada que justifique, que explique, que torne este meu mau humor inteligível, aceitável, e se nada houver que o justifique, e a única explicação for "eu sou assim porque sou má pessoa", sem atenuações, sem nada, aí eu teria de aceitar quem realmente sou, nada a fazer, ser humano de má qualidade.
E isso a gente não consegue. Os espelhos são sempre os nossos piores inimigos.
É por isso que eu gosto muito de maquilhagem, e uso desde os meus 15 anos, mais ou menos. 

23/01/12

Respirar fundo, acalmar, respirar fundo, acalmar.

Nota rápida para dizer que já não suporto, mas é que já não suporto, ouvir portugueses a dizer que os outros portugueses andaram anos a viver como lordes, acima das suas possibilidades, e agora que paguem as favas. É que não suporto. Ainda hoje, quando fui ao cabeleireiro cortar o cabelo à Jean Seberg, e me entretinha com uma revista, levei com a Margarida Rebelo Pinto lá escarrapachada, empinada em saltos altos muito bem compostos, a dizer que já vendeu mais do que um milhão de livros e que o Natal lhe correu muito bem em vendas, deixando como "nota final" a justa, justíssima observação de que ah e tal, o português tem de deixar de viver como um lorde.
Eh pá. Eu não vou escrever muito porque fico de tal modo alterada que perco o parco poder de argumentação que tenho, mas gostava exactamente de saber de quem é que se está a falar quando se faz referência a este português que andou a viver que nem lorde. É ao português desempregado? É ao português que tem de pagar todos os anos os livros da escola dos filhos e só arranja dinheiro para isso se pedir ao banco? É ao português que ganha o salário mínimo? É ao português iletrado? É ao português que tem de escolher se compra comida ou medicamentos? É ao português que perdeu o emprego, é casado com outro português que também perdeu o emprego, e que agora não sabe como é que vai sustentar os filhos? É ao português que não consegue pagar renda? São estes portugueses todos, que são a maior parte dos portugueses, que andaram estes anos, obviamente, a viver de barriga cheia, a rir descaradamente da miséria dos outros enquanto se empanturravam, dizia, são estes portugueses que provocaram a crise e que têm agora de amargar? Pois, devem ser.
Mas quem sou eu para falar, se eu até vou ao cabeleireiro. Ando a viver que nem uma lady, rotunda, bojuda, de pança burguesa, a rir-me da miséria do país.
Respirar fundo... respirar fundo, que não me posso enervar. Amanhã é dia de trabalho. Sim, vou trabalhar porque não posso ficar em casa que nem uma lady, como fazia dantes. Dantes, quando eu era uma lady.
Respirar fundo. Respirar fundo. Acalmar. 
Sabe que mais, Srª D. Margarida Rebelo Pinto? Deixe a senhora de viver como um lorde. E aproveite e cale-se, mas é.
Boa noitinha.

Adenda: demorou algum tempo mas já percebi, ela estava a falar do Cavaco, coitado. Desculpe lá, sôdona Margarida. 
Estes tipos, pá. Aborrece-me um tanto ou quanto que sejam só aparência e estilo, à adolescente, mas depois gosto das canções deles, não consigo evitar. Há bandas assim, 60% é estética visual, 40% é música que até se ouve, ou, frequentemente, não se ouve de todo. Normalmente, desprezo estas bandas, porque gosto de coisas mais espontâneas, mais à trovador. Mas estes Kills estragam-me os planos. Não gosto nada deles.

Não sou muito boa no DIY

Uma das notícias mais lidas no Público online de hoje é que a crise vai obrigar as pessoas a ter uma horta e conhecer melhor os vizinhos, "para uma festinha". Pois bem, eu horta não tenho grande hipótese de ter, que além de não ter jardim, na minha varanda não cresce nada que a minha inépcia não arranje forma de estragar. Portanto, para mim vai mesmo continuar a ser o supermercado ou praça ou isso. Depois, conhecer os vizinhos também não me apetece, muito menos para uma "festinha". Assim como assim, as pessoas já sabem demais da vida umas das outras, mesmo quando tudo se resume ao bom-dia-boa-tarde (noutro dia, uma amiga minha vinha visitar-me e calhou ir no elevador com a minha vizinha do lado, que lhe disse "vai visitar a Rita? Olhe que ela não está cá", "está, está, chegou hoje", respondeu a minha amiga, e tivesse ela dado mais conversa ficariam ali a falar sobre as minhas idas e vindas que, sinceramente, não estou a ver como serão do interesse ou conhecimento de alguém. Mas pronto). Continuando. 
Outra coisa que eu não vou conseguir fazer de forma caseira é o cabelinho. Se eu conseguisse cortar o cabelo a mim própria, tudo bem. Se eu conhecesse alguém prendado, com jeitinho de mãos, tudo bem também. Mas a verdade é que não conheço. E esta conversa toda, toda, toda apenas para dizer algo que me satisfaz bastante e que é o verdadeiro âmago aqui do post. É que o meu cabelo, hoje, voltou finalmente ao seguinte estado:

Tudo bem que ninguém me confunde com a Jean Seberg, com alguma pena minha, mas a nível de cabelo estou lá. Espero eu.
Ou não, sei lá. Na verdade, hoje em dia tenho mais em que pensar do que em cortes de cabelo, como se verifica.

22/01/12

Eu hoje gostava de fumar. Eu, que nunca fumei.
Gostava de pegar num cigarro e pôr-me à janela a fumar.

E talvez assim ficasse com o estilo e o talento destes indivíduos acima,embora saiba que não, que o cigarro é só um elemento que os filmes tornaram na corporização de um certo je ne sais quoi, mas que não quer verdadeiramente dizer nada. E no entanto.
Como não fumo, pego no meu copo com leite quentinho e bebo.
Pronto.

21/01/12

O amor, quando nasce, é para todos

O candidato republicano Newt Gringrich traiu a mulher, divorciou-se e acabou por casar com a amante, mas antes disso, revelou a ex-mulher, propos-lhe um casamento aberto ao invés do divórcio.
Eu adoro estes Republicanos, que fazem cair o Carmo e a Trindade (ou o equivalente lá na terra deles) quando  os Clintons deste mundo se entretêm em salas ovais, e afinal são tão progressistas e modernos que até um casamento aberto querem ter, qual adultério qual quê. Mas enfim, este é um dichote a que não resisti.
O NY Times apresenta um debate sobre isto, e compreende-se, já que é o tipo de fait divers que as pessoas gostam de discutir, para aliviar. Eu também gosto de pensar sobre estas coisinhas engraçadas.
Assim à partida, não tenho nada contra. Acredito que haja pessoas que gostem muito dos outros, de tal forma que queiram partilhar a sua vida e a sua cama com mais do que um ou uma. Mas a minha mente conservadorazinha não resiste a pensar "pffff, só vêm com estas conversas porque nunca conheceram o Corto Maltese delas. Coitadas". É horrível, não se deve pensar isto.
E porém, há aqui outra questão - se o casamento já é o pior de todos os mundos, à excepção de todos os outros, o que será a pessoa estar casada (entenda-se: numa relação empenhada) com mais do que uma pessoa? Deve ser uma trabalheira inimaginável. Não compreendo porque é que alguém há de querer isto. Mas, pelos vistos, funciona para certas pessoas, que dizem que assim obtêm o dobro do amor de uma relação normal. Pois é, mas o dobro da trabalheira também, além de que, se os dois membros do casal tiverem mais do que um companheiro, e estes companheiros, por sua vez, tiverem outros companheiros, é uma salganhada que ninguém se entende. Mas, para certas pessoas, parece que resulta, e ainda bem.
Há que respeitar a opção de cada. Cada um é como cada qual, lá diz a língua portuguesa, e isto o Acordo não pode mudar. 

19/01/12

As razões que tenho contra o Acordo Ortográfico (ou: não gosto que me venham desarrumar a casa)

Em termos linguísticos, nada há que justifique o Acordo. Não interessa que venham hordas de linguistas e académicos e tentem justificar, com tantos argumentos quanto desejem, as razões linguísticas que tornam "leem" superior à grafia "lêem". A ortografia é uma convenção; se eu aprender que "leem" se escreve assim, com o acento circunflexo ausente, então pronto, é assim. Há certos casos que admitem de facto uma contra-argumentação absolutamente linguística, como "para" preposição e "pára" forma verbal, já que aqui sabemos que o acento é necessário e não se percebe que o eliminem, mas enfim, em geral a ortografia é de facto uma convenção e é assim que a aprendemos.
Alguns, contra o Acordo, brandem o critério etimológico e interrogam-se, como Pedro Mexia, sobre como explicar a uma criança que um "egípcio" é proveniente do "Egito". Eu compreendo, e até concordo, com o que diz Pedro Mexia, mas mais uma vez não é um critério etimológico que necessariamente rege a ortografia de qualquer língua - o que interessa é aprender a convenção, e se eu desde a primária me habituar à mesma, tanto faz escrever Egipto como Egito. Há critérios etimológicos, outros puramente fonéticos, que influem na ortografia, mas o verdadeiro critério, em países como Portugal, é a convenção que o Estado impõe, e esta é muito mais política do que linguística, diria até - exclusivamente política. Daí o argumento de que este Acordo torna a ortografia mais próxima da forma como as pessoas falam seja um tanto ou quanto espúrio (seria espúrio aplicado a qualquer ortografia). 
Daquilo que conheço do Acordo, e o meu conhecimento não é de todo exaustivo, tanto que tão cedo não faço tenção de respeitar a "ortografia" que ele impõe, há três coisas que saltam à vista e que me ferem o olhar. 
A primeira é que o Acordo não é necessário - a ortografia portuguesa antes do Acordo está longe de se assemelhar à ortografia inglesa, raramente modificada, e essa sim, bem menos fonética do que a portuguesa - night, right, knight, por exemplo. O que é que lá estão a fazer o dígrafo "gh" e o "k"? Nada, provavelmente, e no entanto é assim que se escreve e é assim que as pessoas escrevem, sem problema nenhum. Se a ortografia portuguesa nem sequer apresenta problemas (na falta de melhor palavra) semelhantes a este, porquê mudá-la? O Acordo também não é necessário no sentido de uma eventual aproximação ao Brasil - as diferenças sintácticas são bem mais flagrantes, e essas permanecerão. Não é com o Acordo que a língua portuguesa se torna universal - a língua portuguesa já é universal, em todas as suas pluralidades, diferenças, variedades. Há, por exemplo, algum português que leia bem um texto em português europeu e não consiga ler um texto em português brasileiro, e vice-versa? A haver dificuldades, aposto que provirão todas da sintaxe e vocabulário, e não da ortografia.
A segunda razão que me fere é a flexibilidade que os defensores do Acordo dizem que este último permite. Certas palavras (não sei quais são, penso as que têm "c" mudo, mas que às vezes pode não ser, como "aspecto" - as pessoas que pronunciam o "c" nesta palavra podem continuar a escrevê-lo, pelo que percebo), dizia, certas palavras podem escrever-se de forma diferente, dependendo da forma como as pessoas a pronunciam. Isto é  para preservar, lá está, o português e as suas variedades e para não ofender as pessoas, para elas pensarem que a sua língua ainda é delas. Acho que este argumento nem sequer precisa, ou merece, comentários, mas seria talvez bom que se atentasse no significado de "ortografia", já que o Acordo precisa tanto dela.
A terceira é que os falantes de qualquer língua, quer queiramos quer não, sentem sempre que a língua é propriedade sua, e têm com ela uma relação pessoal (mesmo que não seja necessariamente afectiva - é sempre pessoal). A não haver necessidade de se modificar a ortografia da língua, e eu creio que não há, e sabendo de antemão a sensibilidade que os falantes sentem em relação à língua materna, que é a nossa casa, porquê e para quê tentar arrumar a casa de outra forma? É exactamente a mesma coisa do que eu, quando tento re-organizar a estante - penso sempre que estou a fazer melhor e que vou ficar com uma estante toda profissional e moderna, e no entanto quando tento encontrar um livro fico de tal forma à nora que penso que o perdi. E nunca me consigo habituar, de tal forma que volto à ordem antiga. 
A língua não evolui, modifica-se. E, mesmo que evoluísse, não seria um acordo ortográfico que trataria da evolução. 
Obrigada a quem leu, e gabo-vos a paciência, já que se este texto não fosse meu, não sei se lia até ao fim. Daí reiterar os meus agradecimentozinhos, bem-haja, boa continuação, e disponham.

17/01/12

Chega-se a um ponto em que só apetece mandar um grito.
O meu grito seria certamente diferente dos gritos que aparecem no vídeo abaixo. Há, neste documentário, uma cena horrível em que uma das vítimas da doença de Minamata agarra pelo colarinho o patrão da fábrica que poluiu durante anos as águas em que se pescava, e grita com ele, grita, grita, diz que perdeu os pais, que o irmão é deficiente e que as pessoas se riem dele, e grita e grita, e o homem a olhar para o ar, a olhar para todo o lado menos para ela.
Minamata, The Victims and Their World, de Noriaki Tsuchimoto. Descobri-o há um ou dois meses e voltei a lembrar-me dele hoje. Nem sei porquê, mas deve ser porque, felizmente por razões diferentes, me apetece gritar e é o grito dela que me tem vindo à cabeça.

16/01/12

Globos de Ouro, alguns comentários modestos

Golden Globe celebrities enjoy meal of real gold as poverty tightens grip on US 

 Uma perspectivazinha  diferente sobre os Globos de Ouro neste artigo. Banho de ouro, que fabuloso.
Comentando a cerimónia em si, e apesar de o artigo referido me ter posto imediatamente de má vontade, enfim, acho que alguns dos filmes nomeados/vencedores são interessantes. Ainda não vi o Artist, nem sei se já estreou em Portugal, mas hei-de ver. Já vi o The Help, e apesar de ter gostado, não estou inteiramente convencida. O filme oscila entre uma crueza triste e um paternalismo irritante. Mas gostei do filme, sim, principalmente de Viola Davis. 

Uma das coisas de que gosto nos Globos é que estes apresentam a categoria de televisão. Houve vencedores seguros e bonzinhos, a Kate Winslet, a Modern Family (sem surpresas, já que esta série ganhou todos os Emmys que havia a ganhar), e reparo que houve uma actriz qualquer que também ganhou um prémio pelo desempenho na American Horror Story. Acontece que vi ontem, pela primeira vez, um excerto de um episódio desta série e fiquei aterrada, mas no mau sentido. A cena que vi constava de uma pobre senhora visivelmente grávida (de gémeos, como vim a descobrir), a tentar descansar na cama, e enquanto isto a pobre senhora é violentamente despertada por uma adolescente fantasma aos gritos e às asneiras, que entratanto chama um tipo num fato preto latex, que não percebi ser fantasma ou ser real, que começa a desenvolver esforços para violar - sim, perceberam bem - a pobre mulher grávida. ?! Hã? Então mas eu estou muito bem a tentar ver uma série que penso que mete assim uns fantasmas e tal, e depois tenho de levar com uma cena destas, que transcende em muito qualquer violência que se poderia esperar? Há alguém que veja esta série e que me possa explicar se isto faz algum sentido, ou se é mesmo violênciazeca barata e evitável? É que não vi ali grande mérito ficcional, sinceramente. Como se não bastasse, o marido da pobre senhora, com o auxílio da filha adolescente de ambos, chama as autoridades e faz com que a mulher seja enviada para um hospital psiquiátrico, ignorando, ao que parece, o visível facto de a pobre senhora estar visivelmente grávida. De modo que agora, se por um lado quero continuar a ver a série, por outro lado não quero.

Bom. É isto, desculpem a pobreza do post. Talvez tenha algo mais a dizer quando vierem os Oscars ou quando visionar, finalmente, o Midnight in Paris. 

13/01/12

Animação cultural

Este blog precisa de uma animação, para animar. 
A animação que proponho é: qual a canção mais pirosa que conhecemos e sem a qual não podemos passar? Aquela canção que nos faz passar uma grande vergonha se dissermos aos outros que gostamos dela? 
A cultura pop tem tanta pérola falsa à espera de ser repescada que chafurdar um bocadinho na lama musical só nos poderá trazer grande divertimento. Pelo menos, a mim, traz.
Como no mundo virtual ninguém se conhece, podemos falar disto à vontade sem grande opróbrio. Eu começaria, por exemplo, pela seguinte lista, ainda sem ordem de preferência, mas que revela já grande potencialidade ao nível do bom gosto musical e estético, e da falta dele:

Baby One More Time, Britney Spears

Every TimeYou Go Away, Paul Young



Como agora estou com uma certa pressa, não posso completar a lista nem dissertar sobre a mesma. Mas fá-lo-ei em tempo útil, se a tanto me ajudar o engenho e a arte. Mais o engenho do que a arte. 

E ao pó voltaremos

Comecei a gostar de Rita Hayworth em pequena, porque tinha o mesmo nome do que eu. Lembro-me de que gostava muito dos cabelos dela, ruivos e bem ondulados. Mais tarde, soube que tinha, como se diz, encetado todos os esforços para se tornar estrela de cinema - aprendeu a colocar a voz, teve aulas de dicção, sujeitou-se à depilação da altura para se livrar dos cabelos que lhe encurtavam a testa e ficar com um sobrolho mais livre e alto, mais saxónico, como exigia Hollywood (e provavelmente ainda exige).
Curiosamente, nunca vi Gilda. O único filme que vi até hoje com a Rita Hayworth foi o Lady of Shangai,  com o Orson Wells, e que adorei. 
No entanto, a memória mais viva que tenho dela não é propriamente um filme, mas um artigo que li, devia ser ainda mesmo muito pequena - era um artigo de uma revista que descrevia a vida da actriz e que retratava com algum pormenor a sua velhice (na altura, ela ainda estava viva). A única fotografia que a reportagem tinha era, precisamente, a de uma envelhecida Hayworth de mãos dadas com a filha, que aprendi ser a "Princesa" Yasmin (devo dizer que, na altura, o facto de Rita Hayworth ter uma filha princesa, o que claramente indicava um casamento com um príncipe, me pareceu consolo suficiente para a velhice de qualquer pessoa, actriz reformada ou não, mas eu na altura era assim, muito a puxar ao superficial - tentei combater esta maleita à medida que fui crescendo).  No tal artigo, dizia-se então, de forma muito indignada, que Rita Hayworth tinha deixado de fazer filmes pela única e simples razão de se ter tornado velha, e que Hollywood usava e abusava de jovens mulheres talentosas para depois as deitar fora, e que havia sempre trabalho para actores idosos, para actrizes idosas é que não. Eram rejeitadas, injustamente esquecidas - aka Norma Desmond.
Aquilo fez-me muita impressão. Mas como é que a Rita Hayworth, casada com um príncipe, mãe de uma princesa, podia ser descrita naqueles termos, como uma renegada, uma desempregada falhada, uma pessoa esquecida por antigos amigos, amantes, enfim, pelo mundo inteiro? Era triste, mas parece que era verdade, como é também triste a famosa frase proferida por Hayworth e já repetida até à exaustão - "os homens vão para a cama com a Gilda e acordam comigo". Desilusão.
Estas histórias de actrizes esquecidas, Glorias Swansons, Ritas Hayworths, Garbos, a própria Bette Davies com aqueles olhos, aquela voz deliciosamente maldosa., são tanto mais trágicas quanto mais forte e exagerada é a mitologia que as rodeia - os olhos, a voz, os cabelos, o rosto, a presença, o filme em que ela fazia disto e daquilo e que foi visto por milhões de pessoas, uma iconografia montada para impressionar o indígena e que já não funciona quando se envelhece. 
Passando rapidamente à conclusão, que este post está a custar a escrever - rejeitados somos nós todos, de uma forma ou de outra, e, tal como uma actriz de Hollywood precisa que o público a adore para ganhar a vida, as pessoas mais normais também precisam do amor do mundo para sobreviver. O que acontece é que figuras como as de Rita Hayworth acabam por encarnar o próprio sofrimento da rejeição, ao terem de passar por um processo mais ou menos público de decadência, desalento, derrota.
Houve um fotógrafo cruel, Ted Leyson, que se dedicou a seguir a envelhecida Garbo pelas ruas de Nova Iorque, tirando-lhe fotografias à sucapa (ou talvez não tão à sucapa):



E ela que só queria estar sozinha. 

12/01/12

Eu desejaria a todos um feliz 2012, caso estivesse em pleno exercício das minhas capacidades, ou melhor - da minha identidade. Graças à internet, começo a perceber que de facto eu não sou eu nem sou o outro, mas sim qualquer coisa de intermédio, como diria o outro, o Mário.
E a que se deve esta tardia, embora muito acertada, conclusão? Deve-se ao facto de eu ter ido ao Rotten Tomatoes ver as críticas a um filme qualquer e ter reparado que tinha um perfil neste site. Não só tinha perfil como, pelos vistos, "25 ratings" e "6 want to see". Aparentemente (palavra bem empregue aqui, já que está bem aparente no site), eu quero ver coisas como Gone Baby Gone, que nem sei o que é, e o Saw II. Por acaso, se calhar este último eu até via. Gosto de terror baratucho.
Não sei explicar isto.
A internet é o pleno exercíco não das nossas funções, mas sim da nossa alteridade. É muito, muito, muito estranho e só lamento que os Antigos não tenham vivido para contemplar este estado de coisas. Teriam muito a dizer, porque os Modernos não têm nada.
Fim.
A crise chegou a este blogue. Não consigo escrever nada.

22/12/11

Deve haver certamente outras maneiras de uma pessoa conhecer o Corto Maltese


Este excerto, retirado de um artigo da Slate, é muito interessante, debate o problema das livrarias independentes que lutam pela sobrevivência face à Amazon e ao e-book e tal, mas o que me traz aqui não é esta preocupante problemática. É aquele excertozinho que anuncia que as livrarias são boas para "cruise for a date".
Isto foi coisa que nunca me aconteceu na vida e o meu coração enche-se de pena de mim própria ao admitir isto, porque o meu sonho sempre foi encontrar o príncipe encantado numa livraria. No entanto, nunca, nunca, nunca mas nunca alguma vez encontrei "date" algum numa livraria, e isto agasta-me, porque não consigo imaginar sítio mais encantador e romântico do que uma livraria, ainda por cima com as potencialidades que apresenta de se ficar a conhecer tão bem a outra pessoa. Se o conhecemos na secção dos romancistas russos, por exemplo, há ali pés para andar. Eu nem sequer sou fã acerba dos russos, mas um namorado que conhece o seu Dostoevsky tem classe, há que admitir.
E depois podemos apurar a escolha consoante a livraria de que gostamos mais - se somos mais para o popularucho e queremos alguém que não nos despreze porque de vez em quando lemos porcaria, vamos à Fnac; se queremos um poeta, vamos à Poesia Incompleta; se queremos um alternativo indie, vamos à Buchholz, (continua aberta, não continua? Espero bem que sim) e ainda nem sequer estamos a introduzir a Barata, a Assírio e Alvim, a Babel e outras que não sabe/não responde aqui na equaçãozinha.
Portanto, as livrarias poderiam ser o mais próximo de que dispomos de uma espécie de "pick and choose" no que concerne (não resisto a esta pirosíssima expressão) a namorados e namoradas. De modo que, como se diz no excertozito acima, as livrarias não existem primordialmente para vender livros - pois não, é para conhecermos o Corto Maltese.
No entanto, diz-me a experiência que o Corto Maltese anda por aí em aventuras e em livrarias é que ele não está. O mais próximo que estive de conhecer um "date" numa livraria foi uma vez em que estava a comprar um livrinho, muito interessante por sinal, de Nick Danziger (este - de facto, era mesmo para impressionar o indígena, ah ah). O rapazinho que estava a atender era da minha idade e, também por sinal, bastante agradável ao olhar, e ficou a mirar e a remirar o livro, disse-me que era uma escolha fantástica, e se eu era fotógrafa. Eu, parva, respondi com a verdade e disse que não. Ainda ficámos ali uns minutos a falar de fotógrafos de que gostávamos, mas a coisa ficou por ali. Que desilusão.
Porque é que a vida não está nos livros? Porque é que a gente não há de ir a uma livraria e escolher a pessoa acertada para nós com base naquilo que ele lê, quando este é um critério tão agradável, tão simpático, tão importante? E, sendo um critério tão agradável, simpático e importante, porque é que nunca se conhece ninguém de jeito nas livrarias? Eu, pelo menos, nunca conheci. Já sei, o defeito é meu.
De qualquer forma, para mim é tarde demais. A vida já me disse que o Corto Maltese não é para ser encontrado em livrarias.
Mas, para quem não for ainda tarde demais, eu desejo não só um feliz Natal como um excelente Corto Maltese (versão feminina e/ou masculina) numa livraria perto de si.

Expressão que não compreendo: "jovem"

Já me faz espécie (em si mesma, magnífica expressão) que as pessoas se refiram a essa entidade estranha designada por "os jovens". Esta série explica muitos dos problemas "dos jovens". "Os jovens" hoje em dia não querem trabalhar. A droga é um flagelo que atinge "os jovens". A expressão "a juventude" sempre é mais cómica. Continua a não ser muito simpática, mas enfim, é engraçada.
Ainda pior é quando algumas pessoas (vulgo "cotas", para usar uma expressão que "os jovens" também usam) decidem, parvamente, fazer de "jovem" uma forma de tratamento. "Jovem...?", quando vamos a uma café, por exemplo. "E para o jovem, o que vai ser?", "até à próxima, jovem".
Brrrrr. Só me consigo lembrar de tratamento pior quando, uma vez, um parvalhão qualquer se lembrou de se despedir de mim com "ilustre". Em vez de dizer, "então adeus, Rita", já que sabia o meu nome (sei que ele sabia porque me tinha chamado assim ainda nem há cinco minutos), decide dizer "ilustre... adeuzinho". Eh, pá. Mas que coisa tão feia.
Mas enfim. Eu penso que as pessoas consideram que estão a ser simpáticas quando usam "jovem". Afinal, toda a gente quer ser "jovem" e ninguém quer ser velho, muito menos tratado por "velho". Mas há formas mais simpáticas - por exemplo, apesar de eu já ser "velha" (pronto, digamos que para lá caminho estugadamente), ainda no outro dia fui a um café e o senhor tratou-me por "menina". Isto é adorável - este tratamento, sim, é gracioso, é querido. Agora "jovem".
É que, ainda por cima, eu nem sequer sou muito jovem. Aliás, vivesse eu há 100 anos e já era velha, mas com a esperança de vida a esticar e o pessoal trintão sem dinheiro a viver em casa dos pais a ter de ser apelidado de "jovem", se não ficamos mal vistos, pronto, sou jovem.
O que me leva a indagar, a questionar-me com alguma intensidade - o que se passa com o português e formas de tratamento? Parece que há tratamentos linguísticos à vontade do freguês (esta expressão, adoro). Ah, eu acho que tu tens cara de jovem? Então pronto, trato-te por jovem. Ah, tens cara de menina? Pronto, fica menina. Ah, és mais composto? Pronto, ficas "senhor". E assim por diante.
Não penso que estejamos ainda em condições de compreender o poder atribuído a quem escolhe uma forma de tratamento para se dirigir a outrem. É que entre um "você", um "jovem", "menina", "senhora", e porque não "doutor", "doutora" e quejandos, há uma grande distância, aquela que separa juízos de valor de toda a forma e feitio sobre a nossa própria pessoa. Cuidado com as aparências, é o que digo.

Adenda: este texto tem muitas aspas. É irritante. Peço desculpa pelo incómodo.

Boas razões pelas quais não quero ler este livro (Room, de Emma Donaghue)

Alguns excertos da entrevista com a autora, publicada no Expresso:

Pergunta: Este romance é narrado por um rapazinho de cinco anos. Foi difícil encontrar o tom certo, a voz ideal para o Jack?
Resposta: Para ser sincera, não foi nada difícil. O meu filho tinha cinco anos na altura e pedi-lhe emprestada muita coisa. (...)
Pergunta: A sensação com que se fica, ao longo do livro, é que o texto não foi escrito por um adulto que finge ser uma criança, mas por uma criança capaz de contar uma história terrível (...) O que é que sacrificou para chegar a esta nova linguagem? Teve de abdicar do seu estilo?
Resposta: Felizmente, eu não tenho um estilo de escrita. (...)

Se calhar, o livro é mesmo bom, e eu estou a perder uma coisa imensa.
Quando as pessoas descrevem aquilo que fazem como "fácil", fico sempre com a sensação de que lhes está a falhar qualquer coisa. O caso agrava-se quando há crianças à mistura - Picasso dizia que queria recuperar a expressividade dos desenhos das crianças, e como isso era tão difícil.
Mas pelos vistos é fácil, especialmente quando não se tem um estilo pessoal. O problema do Picasso era esse, tinha estilo a mais. Nunca se lembrou de ter menos estilo e assim resolver uma data de problemas.
Bom. A não ler, é a minha conclusão.

20/12/11

Coisa que não compreendo: os "spoilers" das críticas de cinema do Público

Para dizer a verdade, este infortúnio (estar a ler uma crítica de um filme no Público e despontar um spoiler, do nada, sem que a pessoa se possa precaver) só me aconteceu duas vezes. No entanto, considerando que não devia ter acontecido nunca, considero que duas vezes é sobejamente horrível e indesculpável (nota para avisar que este post também contém spoilers. Ao menos, eu aviso).
O primeiro "spoiler" foi traumático, tal foi a sua magnitude. Foi há muitos anos, há tantos que a Missão Impossível (a primeira) tinha estreado e o Y nem sequer era o Y, era uma revista pequenina e fininha que saía com o Público ao fim-de-semana. Bom. Estava eu a ler esta revistinha, embalada na crítica à Missão Impossível, e eis que se diz qualquer coisa como isto - "o que é muito bom neste filme é Jon Voight como vilão". Hã? Eu mal queria acreditar. Acontece que o papel interpretado por Jon Voight era apenas e só o de Jim, isto é, o de mentor, o de chefe da equipa. Acontece que dizer que Jon Voight era o vilão era desmascarar a surpresa toda. Ou seria que o crítico estava à espera que ninguém soubesse quem era o Jon Voight?! Como anteriormente já referi - indesculpável e muito pouco profissional.
Na minha ingenuidade, eu pensei que coisas destas não se iriam repetir. Afinal, este infeliz incidente fora há anos, o público hoje lê mais coisas, ou pelo menos tem acesso a mais coisas, revistas e sites de cinema muito certinhos, em que os spoilers são devidamente assinalados, o que torna o próprio Público também mais exigente (em consequência do seu público - ah, ah). Veja-se o site novo do Cinecartaz, uma beleza toda profissional.
Pois bem. Há uns tempos, estava eu então no site do Cinecartaz a ler a crítica a um filme que se chama Casa de Sonhos, que ainda não vi, mas que parece que é meio de terror e parece que é giro. Eu gosto de filmes de terror mas gosto de saber de antemão se são mais artísticos ou mais para o gore, de modo que me pus a ler a crítica. E cito (negrito, itálico e sublinhado meus): 


Mais uma vez, a minha destreza verbal consegue resumir-se apenas a: hã?! Mas como é que passa pela cabeça da pessoa que escreveu isto (nem é uma crítica, é apenas a sinopse) que eu quero saber que o tal Peter e o tal Will são a mesma pessoa? Mesmo que seja daquelas coisas que a gente fica a saber logo no início do filme, o que eu duvido, eu não quero saber e tenho direito a não saber. Afinal, num filme de suspense, qualquer facto novo serve para nos surpreender. Reitero - indesculpável.
Agora já nem sei se quero ver este Dream House. Mas que chatice.
Com as devidas distâncias, sinto-me um bocadinho como João da Ega quando descobriu, da forma mais parva e assustadoramente banal possível, que o Carlos da Maia era irmão da Maria Eduarda. Quer dizer, ele não tinha perguntado nada a ninguém, estava muito bem na vida dele, não pediu para partilhar de nenhum segredo, e de repente cai-lhe aquela informação no colo, e ele não pode voltar atrás, não pode fazer nada, porque quando se sabe uma coisa já não dá para deixar de saber. E depois é obrigado a fazer qualquer coisa sem ter nada a ver com aquilo. Que injustiça, que sentimento de impotência tão chato - o de saber que agora sabemos uma coisa que não pedimos para saber, que não queremos saber, que não devemos sequer saber.
A ignorância é, por vezes, bem mais sábia e sensata. 

14/12/11

Tenho uma carta escrita para ti, cara bonita, não tenho por quem a mande

Tenho uma querida amiga que se dedica ao postcrossing. É um sistema parecido com aquele antigo do pen pal, só que em vez de se ter um correspondente, ou vários, em partes do mundo diferentes, recebem-se centenas de postais de variadíssimos países. A minha amiga explicava-me que se pode até especificar o tipo de postais de que se gosta, e começar a receber cartões mais personalizados só com livros, ou só com gatos, ou só com cães, ou só com paisagens, etc.
Eu nunca teria disciplina para isto. Uma coisa tão simples como o bookcrossing, tão boa ideia, foi coisa que nunca consegui fazer, porque era preciso arranjar umas etiquetas para pôr no livro a dizer que era bookcrossing, e deixar em locais específicos, e para mim isso já era muita complicação. Sou uma pessoa de mente e acções simplistas, o que posso fazer.
E porém. A minha amiga fala do prazer que é receber coisas, que não contas e publicidade, na caixa do correio. Eu já não recebo nada de interessante há tanto tempo. Longe vão os tempos em que o Corto Maltese me enviava mensagens queridas dos portos distantes por onde andava (não me estou a queixar, que é melhor ter um Corto Maltese perto de nós do que de mar em mar, mas mesmo assim, os postalinhos eram tão queridos).
Lembro-me de há muitos anos ter um amigo que me enviava todas as semanas, religiosamente, cartas de muitas páginas, sempre muito originais, com envelopes que ele próprio fazia a partir de revistas e de jornais. Era tão entusiasmante. Eu respondia também, todas as semanas ia aos correios, e alegremente partilhávamos a nossa vida assim, através da escrita e da distância física. Porque uma carta dá muito significado à distância e faz-nos perceber que ela, a distância, pode querer dizer muita coisa, ao invés de não querer dizer nada, que é o que as pessoas estão sempre a pensar.
Tal como as cartas, que hoje em dia quase ninguém envia, deixei para trás alguns amigos e recordações. Não sei o que aconteceu a esse meu amigo das cartas bonitas. É como o John Lennon canta no In My Life - há coisas que permanecem na nossa vida, outras que se esvaem.
Mas de vez em quando a gente tem saudade, pá. Saudade da distância. Para haver distância, tem de haver qualquer coisa que nos faça sentir a distância. Talvez essa coisa seja a amizade, o amor, o que quer que lhe queiramos chamar, mas cito agora outro cantautor que o explica muito bem - "sei que essa coisa é que é linda".

Não é para todos

No Brideshead Revisited, a personagem Sebastian é uma espécie de rei-sol em torno do qual orbitam uma série de súbditos voluntários e fascinados. Nunca lhe acontece (a Sebastian) nada de mal, tudo lhe é perdoado desde os tempos da escola, alunos e professores sorriem-lhe igualmente fascinados. 
Num episódio do 30 Rock que vi há pouco tempo, a Liz arranja um namorado lindo e giro, de tal forma que até os polícias lhe perdoam as multas. Ao falar com o patrão, com quem ela se dá bem, e que é interpretado pelo Alec Baldwin, que está tão engraçado nesta série, dizia, ao falar com o Alec Baldwin, a Liz chega à conclusão de que as pessoas bonitas vivem numa bolha que as protege de quase tudo, porque os outros não conseguem atingi-las e olham para elas em êxtase. Como as pessoas da Idade Média olhavam para a estátua da Virgem Maria, por exemplo. Na altura não havia super-modelos.
O caso de Sebastian e de pessoas como o Sebastian é, porém, diferente. Não é só o ser bonito. É uma espécie de aliança à super-herói de beleza e de uma piroseira qualquer que às vezes é designada por "magnetismo". Eu gosto mais da palavra "pinta".
E sobre isso já escrevi num post muito mais antigo sobre Marlon Brando. Não valerá a pena repetir.
É estranho pensar como isto acontece, este fenómeno da pintarola. Nasce-se com ele? À partida, sou um pouco avessa a inatismos, que serviam, no século XVIII, por exemplo, para justificar a condição de aristocrata e de como alguns homens seriam, pura e simplesmente, melhores do que outros apenas pelo nascimento. Eu gosto mais de acreditar no mérito. Mas esta pinta que algumas pessoas têm atinge-se com o mérito? Este Sebastian, por exemplo, é herdeiro de uma grande família nobre, vive num casarão, estudou nas melhores escolas, etc. Tem pinta por mérito ou porque a sua vida fácil lhe permitiu o tal magnetismo?
Há pessoas que têm uma espécie de poder. É estranho, é só isso.
O Alec Baldwin disse à Liz que, com o passar do tempo, a bolha rebenta e quem lá está dentro cai desamparadamente, e acaba-se a glória. Ah, ah.