terça-feira, 25 de outubro de 2011

Bromances

Estou a ler o Brideshead Revisited. Ainda estou no princípio e nunca vi a série de televisão, que passou quando era pequena demais para me lembrar, portanto não me contem nada do enredo, por favor. Só sei mesmo que Brideshead é uma casa espectacular, que há uma família rica, que há um narrador fascinado pela mesma família e por um magnético Sebastian e pronto. E que a grande protagonista do livro é a casa, razão pela qual estou há uns tempos para ler esta obra. E que é tudo muito aristocrático e coiso e que depois vai tudo para a guerra. Fim. 
Mas não é a casa que me traz aqui. Nas primeiras páginas de Brideshead Revisited, estão o narrador e o Sebastian em Oxford, e queixam-se da maçada que é ter a universidade infestada de mulheres, e eventos sociais só para mulheres, e mulheres a tomar chá e a almoçar, e ai que chatice, vamos sair daqui para o meu palácio feudal uns diazitos até elas se irem embora. E assim o fazem, efectivamente.
Há uma certa literatura (tosse - DH Lawrence - tosse) que tem esta mania irritante, esta mania quiçá misógina de que as mulheres só servem de bibelots foleiros que quando saem da caixa são uma praga, e mais vale a gente dar-lhes uma cotovelada, parti-los e fingir que foi sem querer para nos conseguirmos livrar deles. 
Se não estou em erro, no final de Women in Love, a personagem de Rupert apercebe-se de que a sua relação com a namorada, ou mulher, não me lembro, será sempre insatisfeita e imperfeita porque a verdadeira relação perfeita existia na união com o seu amigo do sexo masculino, que morreu (não me lembro do nome dele). Não estamos a falar aqui de dois homens apaixonados, nem de nenhum subtexto gay (quer dizer, se calhar este subtexto existe, mas não é necessariamente o mais relevante) - estamos a falar da tal ideia, quanto a mim irritante, de que as mulheres são engraçadinhas mas em moderação, ao passo que a amizade entre dois homens, a relação entre dois homens, é uma camaradagem tal, uma união tal, que nada se equipara a ela e que qualquer mulher não passa de uma agradável distracção para tirar a barriga de misérias, como se costuma dizer. É a filosofia, igualmente irritante (reitero de propósito), dos bros before hoes. Ou seja, toda a nobreza está nos homens, e essa nobreza de sentimentos é negada às mulheres. 
Tudo bem. 
E porém, penso se não será possível que um homem tenha os seus 'bromances' e que estes o façam feliz; e que, ao mesmo tempo, as mulheres sejam vistas de modo diferente, mas em igual plano. Equiparadas, portanto. 
Não, não, mas não. Um clube de rapazes é sempre um clube de rapazes, e assim eles podem ouvir os Red Hot Chilli Peppers todos juntos e chutar a bola ou seja lá o que for que os rapazes fazem. As raparigas são peganhentas, como dizia o Calvin (do Calvin and Hobbes, bem entendido). 
Que parvoíce. Nem sequer consigo escrever parágrafos coerentes, de tal forma isto me desorienta. E assim se explica o meu apego às irmãs Bronte, todas mulherzinhas, que escreviam sob uma perspectiva feminina sem antagonizar os homens. Elas até queriam casar e tudo, e a Charlotte casou mesmo, não com o homem de quem ela gostava, mas enfim, foi o que se pode arranjar.
O que vou dizer a seguir é uma generalidade grosseira, mas é mais fácil uma rapariga encontrar coisas em comum com outra rapariga, os livros, as princesas, as Barbies, o cor-de-rosa, e o mesmo se passará com os rapazes, os carrinhos, o azul, o Homem Aranha. Culturamente, tendemos a orbitar em volta das similitudes que encontramos nos outros. Mas a piada da vida é conseguirmos entender-nos com a diferença, com o estrangeiro, com a oposição (seja ela masculina ou feminina). Daí eu não acreditar em 'bromances' nem em bros before hoes nem em hoes before bros. Expressões detestáveis, aliás.  Daí o DH, de alguma forma, me agastar. Embora eu adore o DH. Daí eu me ter irritado com o tal episódiozito do Brideshead Revisited.
Pronto, é isto. Boa noitinha.

domingo, 16 de outubro de 2011

O remendinho

Talvez devido a estes tempos de horror que vivemos, tenho lido muita literatura policial, mais especificamente aquela escrita por PD James. Ler sobre crimes e violência ficcionais alivia-me. Pode ser um bocado parvo, mas é verdade.
Voltando a PD James. Gosto muito dela, porque sabe contar e desvendar um bom mistério, sem se esquecer das personagens. Há romances policiais pouco interessantes porque se concentram só na história e nos pormenores do crime, esquecendo as pessoas que fazem parte do mesmo, mas a PD tem o cuidado de nos lembrar que, para haver mistérios e crimes, é preciso primeiro haver pessoas, de modo que humaniza as suas personagens de uma forma doce, toda psicológica e certinha, que acaba por adensar ainda mais o mistério ao conferir-lhe mais realismo.
O Poirot da PD James é o detective comandante super-importante xpto Adam Dalgliesh, cujo pai era vigário, sendo ele, Adam, poeta part-time, condutor de um Jaguar, heterossexual frustrado porque é fundamentalmente casado com a profissão, sendo obrigado a negligenciar as suas gajas, sempre professoras em Cambridge ou coisa que o valha. Mas Dalgliesh é estóico e aceita que um homem na sua condição não pode ter tudo, para poder continuar a ter quase tudo.
Comecei por ler The Black Tower, uma das primeiras aventuras de Adam Dalgliesh. Depois passei para o Murder Room, que é mais recente. São os dois bonitos, mas o primeiro, The Black Tower, é o mais bonito, assim louro de olhos azuis, ao passo que o Murder Room é, digamos que, moreno de sobrancelhass grossas, mas interessante. Em Black Tower, há uma grande sensibilidade relativamente às personagens, algumas delas comoventes, tanto mais que a acção se desenrola num lar para pessoas incapacitadas e sem mais nenhum sítio para ir. Um pormenor que quase faz chorar é quando Dalgliesh examina o cadáver de uma das vítimas, uma senhora mais velha, muito gentil e doce, muito educada, que lamentavelmente é assassinada pelo carrasco cuja identidade não vou revelar, caso alguém vá ler o livro. A senhora estava vestida com a melhor camisa de dormir que tinha e que havia deixado entre os seus pertences, caso precisasse de uma roupinha um bocadinho melhor. É uma camisa de dormir longa, branca, com um grande laçarote no pescoço, feia. Dalgliesh repara que tem um remendo no cotovelo, um remendinho que fora cuidadosamente arranjado e cosido, e fica comovidíssimo sem sequer sabe explicar porquê, a olhar para o remendinho no cotovelo.
Eu acho que percebo o Adam Dalgliesh, e que o remendinho me matava, se o visse. Ando muito sensível a peças de vestuário, ultimamente.
No Murder Room, o mesmo Adam Dalgliesh continua atento e sensível, mas muito mais James Bond, mais homem do mundo, cosmopolita e tecnológico. O James Bond é um herói da treta, quanto a mim, um chato de primeira sem qualquer qualidade que o redima, um homem de meia idade de pança ao volante de um BMW branco a pensar que a estrada é dele. Dalgliesh não chega a este ponto, mas vai endurecendo à medida que o tempo passa.
Moral da história. E agora, tal como este país, vou vestir a minha camisinha de dormir com remendinhos.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O vestidinho

Estava à espera de um filmito melhor. A Jane tem uma história tão intensa, tão cheia de matéria fílmica, pelo menos eu acho que sim, aquele desolamento, a orfandade, o amor contrariado, a mansão gótica, a louca desvairada, e este filme vai-se a ver (bela expressão) e arruma tudo num segundito, tudo contado à pressa, tudo sem graça nenhuma.
E porém, acertaram nos actores. Gostei muito da menina que faz de Jane, a Mia qualquer coisa, de quem não tinha gostado na Alice no País das Maravilhas, mas que aqui está muito bem, introvertida, sensível, magrinha, pequenina, metida para si, intensazinha. Fez uma bela Jane, achei eu. Gostei particularmente das vezes em que aparecia a passear enfiada em pensamentos, de mãos na cintura. Realçava uma cinturinha fina, uma postura inteligente e decidida como a Jane devia ter, se existisse.
E isto fez-me lembrar o dia em que tive a sorte de ir ver a casa das irmãs Bronte, em Haworth, que é uma vilazinha no Yorkshire. Nada bonita, quanto a mim, nem a vilazinha nem aquela parte do Yorkshire em geral, aquelas charnecas, aquele desolamento, embora reconheça que, objectivamente, nada daquilo é propriamente feio. Enfim. Dizia, houve um dia em que fui visitar a casa das irmãzinhas, e lá estava o sofá verde, acho que era verde, em que a Emily tinha morrido, e no andar de cima estava um vestidinho da Charlotte. Um vestidinho simples, redondo, com uma golinha branca sem muito adorno, uma cintura fina, usado por alguém magrinho, enfezadinho, encabulado.
E fiquei ali a ver aquele vestidinho, que não parecia pertencer a ninguém com mais de dez anos e tinha no entanto pertencido a uma Charlotte Bronte adulta. Eu ali, com o dobro do tamanho daquele vestido, o dobro da cintura, das pernas, recheada de carne por todo o lado, anos de boa nutrição e indulgência bem à vista, de calças de ganga que me serviam, de casaco comprido, de sapatos quentes.  Eu, que nunca perdi nenhum amigo na infância, nem nunca fui mandada para um colégio interno para meninas pobres onde se passava fome e frio e onde se morria  de tuberculose.
Aquele vestidinho, pá. Tenho-me lembrado dele (e pode ser visto aqui onde, julgo, não tem o efeito que tem ao vivo).

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Sinais exteriores de tudo e alguma coisa

Eu sou uma pessoa que gosta de ler coisas, coisas variadas e ecléticas, e portanto no outro dia estava a ler um livro sobre crianças e bebés. Era um livro muito bem organizado, com uma secção dedicada a apaziguar as preocupações dos adultos sobre esses seres misteriosos e indecifráveis que são, de facto, as crianças, e intentava responder-se à pergunta parva "como é que eu sei se o meu bebé de cinco meses é muito inteligente?". O livro começa por dar uma resposta, essa sim, inteligente - ainda é cedo para qualquer pai se preocupar com isso, e todas as crianças são especiais, com talentos que lhes são próprios. Exacto. 
Mas depois continuava - "no entanto, se quer mesmo saber se o seu filho é especial, aqui está uma lista de pequenos sinais que podem indicar uma inteligência fora do normal - apontar para objectos, falar, pôr-se de pé, resolver equações, dar festinhas ao cão, ler Sartre, etc. e tal. 
Eh pá. Isto agastou-me, sinceramente. Se há coisa penosa de ver são pais em ataques epilépticos a quererem que o seu normalíssimo, queridíssimo filho, ocupado com carrinhos e biscoitos cobertos de baba, seja o próximo Einstein, mas já agora com a aparência do Brad Pitt, se for possível. E ainda é mais irritante quando os pais não só acalentam estes desejos, como acreditam neles piamente, de modo que a criancinha cresce convencida de que é loura, de olhos azuis, linda de morrer e absolutamente sagaz, ainda que seja morena, peluda, gorducha, e sem saber sequer como se pronuncia Dartacão. 
Tudo isto é triste. Tudo bem que esta nova geração (esta maltosa nova!) é diferente da minha, acho eu, mais convencida, mais empertigada, com a mania de que tem direito a tudo e de que sabe tudo, não sabendo quase nada, como é próprio da juventude. Mas entre esta arrogância e a certeza absoluta de que o mundo nos deve tudo ainda vai uma distância, distância essa que se encurta quando os paizinhos dão muita atenção a artigos  um tanto ou quanto idiotas como aquele a que me referi no início do post. 
E porém. Hoje estava a ler um artigo que considerei ligeiramente tenebroso, mas começo agora a compreender a razão de ser de certas coisas. Será que, nos dias de hoje, diria ainda Jesus "deixai vir a mim as criancinhas?" Ou diria antes "deixem lá, filhos, que eu agora não tenho vagar e não estou na disposição de ser gozado por uma data de fedelhos só porque não tenho um iphone. E não tenho porque não preciso, estou em todo o lado e vejo tudo, mas vocês não sabem disso, só ligam aos sinais exteriores de riqueza, os mesmos aos quais me oponho, e portanto faltavam-me ao respeito e quer dizer".
Pois é.