quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Atracção do abismo: Glee

A série Glee é daquelas que eu tenho vergonha de dizer que gosto. Na verdade, e na maior parte das vezes, é um programa que me irrita ligeiramente devido às interpretações péssimas que os miúdos fazem de canções de que eu até gosto. Esganiçam a garganta impossivelmente, são excessivamente formatados, fazem os movimentos todos certos, e o pior é quando olham uns para os outros a rir, muito horrivelmente, como hienas a estudar o ataque. Quem me irrita tanto que se torna impossível para mim não ver a série, porque o abismo me atrai sem possibilidade de resistência, é a rapariga principal, a Rachel, toda certinha, toda com voz à Celine Dion, que quase chora enquanto grita, bate com as mãozinhas no peito ou no ar e em geral tem todos os tiques exasperantes das más cantoras com boa voz. Entretenho-me a pensar no que faria a esta miúda se a conhecesse na vida real, e penso que puxar-lhe os cabelos com toda a força e dizer que ela é feia estaria no topo da lista. Sou tipo sádica.
E porém. Gosto da filosofia subjacente à série, a de que os miúdos totós, impopulares, conseguem alcançar o que querem porque têm moral e são boas pessoas. Gosto do conceito de série musical, apesar de me contorcer um bocado no sofá sempre que os miúdos começam com coreografias impossivelmente pirosas - fico sempre com aquela sensação arrepiante de vergonha alheia, às vezes nem consigo olhar. Mas depois aparece a má, a Sue, que me faz rir sempre, e continuo a ver, além de que os miúdos são pirosos mas são bonzinho e triunfam sempre, e eu gosto de ver os bonzinhos a ganhar. 
Mas irrito-me bastante. Para comprovar isto, deixo abaixo um vídeo que eu penso que demonstra bem a vontade que se gera dentro de uma pessoa de fazer a estes miúdos saltitantes aquilo que se faz no Lucky Luke, e que é atirá-los todos para dentro de uma tina de alcatrão, cobri-los de penas e aplicar-lhes uma medida punitiva corporal, vulgo "pontapé no cu". Peço desculpa pelo vernáculo. Estou quase a dar o salto final para o abismo.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

True Blood, 4ª série - SPOILERS



Pronto, avancei na visualização dos episódios todos do True Blood disponíveis até agora, e a Sookie foi finalmente despedida, embora não propriamente pelo patrão - mas foi despedida. O mais engraçado é que ninguém deu por nada, nem o patrão, nem os colegas, nem os clientes nem nada. Penso que nem a própria Sookie deu pelo facto de ter sido despedida. Onde é que ela arranja dinheiro para sobreviver, são os vampiros que lhe dão? Esta é uma questão que eu gostaria de ver discutida.

Acrescento também que, embora lamentando a separação da Sookie e do Vampire Bill, estou a apreciar muitíssimo o romance entre a primeira e o Vampire Eric, que se tem pavoneado largamente em tronco nu, coisa sempre bonita de se ver. O actor que faz de Eric é muito profissional, de facto, e só por isso vale a pena visionar esta série.
E aquele genérico tão giro, é que é mesmo giro e lúgubre, o genérico.
Bom. Não tenho mais nada a dizer. Bem-haja.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A livraria

A livraria da minha infância está em risco de fechar. Como é óbvio, é algo que me entristece muitíssimo. Apesar de ser já um lugar-comum, é verdade que a concorrência das grandes superfícies (não só supermercados - FNACs e afins também) torna, penso eu, a vida um tanto ou quanto impossível às pequenas livrarias. 
Sei que pode soar petulante (estou-me marimbando, como se costuma dizer), mas não compro livros em supermercados, e por uma série extensa de razões, encabeçada, obviamente, pela pobre selecção que se encontra nestes locais. Normalmente, a mesma selecção apenas pode ser categorizada como "merda", e nunca pensei dizer isto acerca de qualquer livro, mas a verdade é que é um bocadinho impossível a pessoa não se exasperar com mais um volume de um "psicólogo", certamente auto-designado, que promete resolver o problema a pais e filhos, e mais uma biografia de vinte páginas com letra tamanho 20 sobre a Duquesa de Cascos de Rolha e Rallé, e a aventura estrondosa do médico que se tornou alcoólico, perdeu tudo e tudo voltou a reconquistar, e o novo romance da Gonçala Pitéu sobre uma fazendeira argentina que conhece um importante nova-iorquino cujo avião privado se despenhou na sua imensa propriedade, ele tem amnésia, apaixonam-se, ele recupera a memória e descobre que é riquíssimo e casam, não sem antes o nova-iorquino acabar com a bruxa da noiva que entretanto descobriu que tinha, e que faz tudo para o separar da argentina.
Continuando. A outra razão pela qual evito comprar livros em supermercados é porque, para mim, escolher um livro requer ambiente, atmosfera, calma. Num supermercado, "calma" é coisa que não existe. Em terceiro lugar, não penso que um livro seja um objecto que se faça equivaler a iogurtes e fiambre, e portanto não consigo evitar um certo sentimento de bizarria ao associar livros a supermercados.
Mas isto sou eu. Se os livros são consideravelmente mais baratos em supermercados, é evidente que é lá que as pessoas os vão comprar, e não podem ser criticadas por isso. E também é evidente que as livrarias, à excepção da Fnac, não conseguem concorrer com Continentes. 
Por falar em Fnac. Na Fnac, compro de facto livros e tenho cartão Fnac e tudo. E é preciso dizer que, pelo menos no meu caso, o cartão Fnac tem valido a pena. Além de que a selecção da Fnac não é perfeita, e é até lacunar em muita coisa, mas sempre é uma selecção que ultrapassa em muito a Gonçala Pitéu e a Condessa de Cascos de Rolha e Rallé, o que é uma vantagem. Mas é também verdade que a Fnac arrasou com a concorrência toda e reina agora inabalável - o que faz com que uma visita à doce Assírio&Alvim no Chiado, resistente ainda e sempre ao invasor, valha ainda mais a pena. 
E, perante isto, às vezes parece-me que a pura existência de uma verdadeira livraria, ie, um estabelecimento comercial que vende apenas e só livros, ao qual as pessoas se dirigem porque querem ler e comprar livros, dizia, a existência destes sítios parece-me quase milagrosa. E quando se ouvem estas histórias tristes de pequenas livrarias, em pequenas cidades, que fecham, é quase inevitável pensar que, daqui a poucos anos, as livrarias serão coisa do passado.
Eu não só espero que não sejam, como acho que de facto não são. Penso que as livrarias podem existir e prosperar, e eu espero que o façam. Como? Por mim, deixava de haver livros em supermercados, mas sabemos que isso não vai acontecer, e que as pessoas não vão passar subitamente a deixar de ir a supermercados quando querem livros, movidas por instintos de caridade ou solidariedade para com as pequenas livrarias. Mas estas últimas podem oferecer aquilo que supermercados e Fnacs não oferecem - actividades culturais, a tal "atmosfera", gente que sabe do que fala e que pode aconselhar, conversar sobre livros, uma oferta mais alternativa, a par da oferta mais comercial dos supermercados (porque, como se compreende, uma livraria tem de ter os best-sellers que vendem). Uma das recordações mais fortes que tenho da livraria da minha infância, a mesma em risco de fechar, é de ouvir a dona da mesma livraria conversar com as pessoas que procuravam este ou aquele livro, falando-lhes de livros parecidos, autores similares, enfim, sustentando uma conversa informada sobre livros, que é aquilo que falta a supermercados e (neste caso, de forma imperdoável) à Fnac. 
O que acontece é que, muitas vezes, ir à livraria ou à Fnac é exactamente a mesma coisa, ou infelizmente pior, porque ninguém nos consegue responder a uma qualquer pergunta, limitando-se a ir ver ao malfadado computador ("como é que disse, 'Presbítero'? Como é que se escreve?!" - para isto, vou à Fnac) e também porque a selecção das livrarias é muitas vezes pouco interessante e a Fnac, nem que seja por ter mais espaço, consegue oferta mais atraente. E porém, também acontece haver livrarias interessantíssimas, dinâmicas, que por qualquer motivo, tristemente, fecham. 
A infeliz conclusão que retiro é que os livros, em geral, não vendem, ou vendem apenas quando uma qualquer operação de marketing os torna tão anódinos e banais com as batatas fritas do McDonald's. Eu, por acaso, tendo a preferir as do Burguer King. E o que fazer? 
Ir a livrarias, para que aquelas a que nós vamos, pelo menos, não fechem.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Medo

Estou em Londres.
Ontem tentei ir ao supermercado - um tinha sido pilhado, o outro estava fechado, assim como a maior parte das lojas e cafés nas ruas por onde passei. Hoje, já se respirava de outra forma - mais cafés abertos, mais pessoas na rua. Tudo ordeiro, mas ainda nuvens pesadas na atmosfera, uma tensão claramente presente.
Porque a minha mãe mo disse desde pequena, sempre tentei que o medo nunca definisse as minhas decisões, e até agora tenho sido bem sucedida, julgo. É também verdade que tenho tido sorte, muito mais do que coragem - as razões para ter medo nunca foram, até agora, significativas, e não consigo imaginar as vidas das pessoas que vivem em partes do mundo que incompreensivelmente não lhes permitem dignidade, liberdade, ar para respirar. Assim, eu sempre pude voar para onde queria sem medo de bombas ou terrorismo, ainda que o 11 de Setembro tivesse ocorrido há cinco dias, e não me assustei no dia em que estava no metro em Londres e a estação teve de ser evacuada, com a ameaça de uma réplica do ataque de 7 de Julho, também ele ocorrido há apenas dias. Nunca fui especialmente corajosa - apenas recusei que o medo tomasse as minhas decisões por mim ou definisse a minha vida. 
E porém, há duas noites atrás, não pude evitar este sentimento opressivo, que nos tolhe horrivelmente, e que penso ser medo. Medo de sair à rua ou até de espreitar pela janela. Ouvir uma voz lá em baixo, que felizmente se afastou com rapidez, e apagar a luz imediatamente, para não gerar atenções indesejáveis. Um receio irracional de ouvir os passos e as desordens de uma horda apocalíptica a pedir sangue e a entrar-me casa adentro. E, penso eu, o grande problema do cenário indescritível em Londres, alastrado agora a outras cidades inglesas, é o medo. O medo que nós temos deles e que eles têm de nós, o medo que leva a esta divisão maniqueísta entre as "boas" pessoas assustadas dentro de casa e os "maus", lá fora, que querem destruir os "bons". O medo das pessoas que foram para a rua partir tudo, como se isso fosse solução para a vida perdida que têm ou que alguém lhes deu. O que aprendi há duas noites é que o medo é perigoso porque não deixa pensar - é fácil passar do medo ao ódio, odiamos aquilo de que temos medo, e nenhum argumento ponderado ou inteligente parece contrariar esta sucessão irracional. E o Homem, aprendemos nós na escola, é o único animal racional do planeta.
Esta massa irracional, que nem sequer protesta contra nada, sem critério, acrítica, que já matou gente e destruiu tudo o que encontrou à frente, é estúpida, e por isso perigosíssima, como normalmente a multidão é, mas os actos que perpretaram não poderão ser inconsequentes. Pelo contrário, as consequências (e as causas) daquilo que se passou têm de ser levadas muito a sério, e não com operações necessárias, mas epidérmicas, de mais policiamento, mais robustez e rapidez por parte das autoridades, mais discursos fáceis de David Cameron, que ainda há pouco anunciou que há "pockets of British society who are not just broken, but frankly sick". Pois é, mas isto não é nada de novo. Gente nova, desempregada, que quase nunca vai à escola porque não se levanta de manhã e ninguém quer saber, que mal sabe ler, filhos de gerações de desempregados, e que sempre aproveitou qualquer oportunidade para exibir um comportamento anti-social não é nada de novo em Inglaterra, pelo contrário - é um problema de décadas. Mas, como quase sempre se passa em Inglaterra, toda a gente é tolerada, mas pouca gente é integrada. Se este país tem uma história admirável de tolerância, a integracão já é outra história, de modo que há comunidades inteiras, emigrantes ou não, minorias ou não, desempregados ou não, pobres ou não, que vivem lado a lado e nunca se vêem, quase nunca interagem, porque as divisões culturais e/ou económicas que os dividem são enormes, abissais - até ao momento em que tudo explode. A classe, seja ela qual for, e as divisões que traz consigo, continuam bem presentes em Inglaterra, e tudo é pretexto para novas destrinças, para marcar a contradição - novos contra velhos, polícia contra civis, estrangeiros contra nacionais, ricos contra pobres, inteligentes contra estúpidos. E infelizmente os estúpidos demonstraram o seu poder espúrio quando saíram à rua na onda de destruição irracional em que embarcaram. Nem todos eram desempregados, jovens, sem futuro - muitas das pessoas que foram presas eram adultas, com empregos razoáveis, ou estudantes universitários. Que desculpa é a deles? 
A BBC dedicou as notícias de hoje à procura de razões para a violência que assola o país. Falou-se de tudo - desemprego, famílias sem estrutura, materialismo, a procura de gratificação rápida e fácil, ganância, falta de acesso a educação e emprego, desresponsabilização (?) de pais e jovens, que acham que a culpa nunca é deles e que o mundo lhes deve tudo, sentimento de revolta e discriminação, etc. Não duvido que todas estas razões sejam válidas, embora nada justifiquem, e é evidente que será fundamental reflectir a fundo sobre as causas dos motins e desta violência extrema. 
Mas nada vai mudar enquanto a divisão entre "nós" e "eles" continuar, aquela que o medo recíproco promove, aquela que o alimenta. E a luta fundamental será sempre, penso eu, contra a estupidez, a mesma que permite que uma multidão inteira se vanglorie de violência e pilhagem, a mesma que permite discursos fáceis em que se ameaça a ralé de mão pesada. É claro que agora é preciso mão pesada, mas o que é que se fez antes, quando os mesmos problemas já existiam?
Não tenho solução nem explicação para o que se passou, obviamente. Mas sei que as fracturas que agora nos chocam tanto foram abertas há muito e continuam expostas. E que rapidamente, de um dia para o outro, nos batem à porta, a nós, os bonzinhos, os que pagam impostos, os que estão em casa. E se tudo mudar para tudo ficar na mesma, vai chegar o dia em que a nossa porta é arrombada. E o que fazemos nesse dia? Sair de casa "with your finger on your gun", como cantavam os Clash? É esta a solução? 
Só sei que nada sei, pá. Mas não gostei de ter medo. 
(desculpem o texto tããããõ longo, e obrigada a quem leu).


sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Grandes inconsequências




Ultimamente, só consigo escrever coisas inconsequentes, de modo que hoje vou escrever sobre os saldos (ah, que original). As pessoas queixam-se de que, em fins de Julho, as coisas já estão muito escolhidas, mas eu acho que não. Por regra, só vou aos saldos nos últimos dias e, também por regra, compro a maior parte das coisas de que preciso em saldos. Encontro sempre objectos de gratificação pessoal muito giros, de modo que não tenho qualquer razão de queixa. Além disso, aproveitar o fim de Julho para as compras é óptimo, porque o pessoal está de férias ou ainda a trabalhar, mas o importante é que não está nas lojas porque pensa que já não vale a pena. Isto beneficia indivíduos como eu (do sexo feminino), que podem deslocar-se calmamente ao Corte Inglês sem grande confusão.  
Este ano, consegui arranjar tudo o queria, menos um fato-de-banho giro. Isso é que não encontrei em lado nenhum e...
Já não consigo mais. É parvoíce a mais, inconsequência a mais. Pensei que me podia distrair com um apontamento de humor, como diria o Herman a imitar o Carlos do Carmo, mas não dá. Devia estar a escrever sobre a Noruega ou qualquer outra coisa horrível e infelizmente importante, mas isso também não dá. Quando nos confrontamos com o mundo, o peso é tão grande que pensamos que a única solução é fingir que não existe. O que pensará o Atlas, a carregar todo o fardo da Terra sobre os ombros? Se calhar, é um homem que pensa noutras coisas, se não fica de tal modo nervoso que o planeta, redondo ainda por cima, difícil de agarrar, lhe começa a escorregar dos ombros suados, e depois o que será de nós, a resvalar por aí abaixo. Tem mesmo que encontrar com que se entreter, o Atlas, encontrar a metafísica que se encerra em não pensar, já dizia Alberto Caeiro. Mas, ao mesmo tempo, ignorar o mundo é, em si mesmo, um fardo terrível, impossível de ignorar. O que é o Atlas faz, põe-se a ver televisão? 
Oh, pá. Ainda nem uma da tarde, e eu já a afogar-me em filosofia tão barata que nem de café é, e duvido mesmo que seja filosofia. Há dias que mais vale nem sair da cama. Vou mas é voltar para lá. Espero que o Atlas esteja distraído, como convém. 

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Um Corto Maltese para casa mulher, era o que Marx queria dizer


O Marx falava da mulher duas vezes escrava, duas vezes proletária; fundamentalmente, uma das consequências (nefastas, neste caso) da mulher que é obrigada a entrar no mundo do trabalho (sim, porque muitas mulheres o fizeram, desde sempre, por necessidade e não por emancipação), dizia, uma das consequências é, então, a mulher ter de ganhar um salário e acumular com todo o trabalho doméstico, limpar a casa e tratar dos filhos, sem ajuda nenhuma, sendo o homem o grande ausente.
As pessoas dizem, "ah, hoje em dia é diferente. Hoje em dia o homem já 'ajuda'". A escolha lexical em si diz muito - o homem "ajuda". Se hoje em dia fosse assim tão diferente, o homem não ajudava, o homem fazia tanto como a mulher, e não se trataria de uma ajuda, mas sim de fazer o que precisa de ser feito.
Continuo a constatar que a grande responsabilidade das tarefas domésticas, aquelas mesmo pesadas, aquelas em que a casa precisa até de paredes esfregadas, colchão mudado, o quarto dos miúdos tem de ter uma cama nova, os jantares da semana precisam de ser pensados e as compras feitas, a roupa tem de ser lavada, estendida, a de Inverno vai para o armário e a de Verão salta cá para fora, este tipo de coisas aborrecidíssimas, todas elas, continuam na sua maior parte incluídas na esfera de jurisdição da mulher. O homem, quanto muito, "ajuda".
Há várias teorias para isto (pelo menos, eu tenho várias) - uma cultura que ainda promove o varão como o bem precioso da família (quando eu era pequena, ainda se falava de agregados familiares - adoro esta expressão - em que a irmã fazia a cama do irmão, bdeeeach. Felizmente, há anos que não ouço falar disto); o facto de, pelo menos em Portugal, ainda haver muito o hábito de só sair de casa para casar, talvez porque viver sozinho requer dinheiro que as pessoas não têm, e o resultado é que se começa uma vida de casal com os vícios todos da casa dos pais, o jantar na mesa, a casa limpa quase magicamente. Já para não falar do perigo extremo de começar uma vida de casal cedo demais, em que ninguém alcança qualquer independência. Mas isso é outra conversa.
Sei que, de facto, as coisas estão a mudar, e ainda bem. Conheço muitos homens que vivem ou viveram sozinhos, que naturalmente tratam da casa tanto quanto as companheiras, porque é a ordem natural das coisas. Mas também vejo imensos casais em que é a mulher que tem de pensar no jantar todos os dias, e na roupa que os filhos vão levar para a escola (por essas e por outras é que um uniforme nas escolas públicas dava imenso jeito; não sei do que estão à espera), e ajudar nos trabalhos de casa, e na pilha de roupa para lavar, de tal forma que o som do tambor da máquina a rodar já lhes deve dar vontade de desatar aos berros.
O que acho é que cada mulher devia ter um Corto Maltese que cozinhasse, limpasse, fosse às compras tanto quanto elas, porque o Corto Maltese é naturalmente assim e porque é assim que deve ser - naturalmente, reitero. Infelizmente, é também uma raridade. 
Por isso, quando as pessoas se riem dos filósofos antigos, em particular do Marx, que confundem com o mau aproveitamento que se fez das suas ideias, e dizem que é obsoleto, e que nada de relevante tem a dizer, eu não poderia concordar menos. Tem muito de relevante a dizer, e em particular isto - duas vezes escrava, duas vezes proletária. Quem pensar que isto é obsoleto terá, penso eu, de avaliar bem em que mundo pensa viver e em que medida o conhece.  

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Lata de sopa na parede



Há uma coisa que me irrita um bocadinho, e que é quando as pessoas falam de arte como se estivessem a falar de artigos de supermercado ou de roupa ou de sapatos.
É claro que há um valor social e comercial, muito relevante até,  ligado a qualquer objecto de arte, dos quadros aos livros, passando pela fotografia, cinema, sei lá que mais. Mas chateia-me ver as pessoas aproveitarem isto e usarem um livro impoluto, por exemplo, para inflacionarem o seu "status" social. Já presenciei conversas de tal forma irritantes que os interlocutores brandiam nomes de livros e autores como se estivessem num duelo, eu na semana passada li isto, e eu li aquilo, e o Engles diz isto, e o Marx diz aquilo, e o Kant diz assim que ainda ontem o li antes de me ir deitar, e etc. e etc. e etc. Parece-me falta de respeito, e no entanto há pessoas que gostam de apregoar "ah, eu leio imenso Roth" (gostam de usar apelidos) da mesma forma que fazem questão de anunciar que o vestido que vestem é Dolce&Gabbana ou coisa que o valha.
Ninguém escapa a este fenómeno, e eu sei que não sou excepção nenhuma. Há sempre um desiderato notório de um certo exibicionismo quando nos passeamos com um livro super intelectual pelo braço, para toda a gente ficar a saber que nós próprios somos intelectuais, que o nosso gosto é imbatível. Também há uma certa arrogância, um certo excesso de confiança, quando anunciamos "quem, o Picasso? Ah, não gosto muito. É tão banal..." (só um exemplo para fazer caricatura, mas penso que a ideia se percebe). 
Tudo isto poderá ser perfeitamente inofensivo. Mas também pode não passar de, pura e simplesmente, exbicionismo. Da mesma forma que exibimos, parvamente, sapatos, botas, malas, exibimos também livros, pintores, tratamos tu cá tu lá a Diane Arbus, porque somos tão cultos. E, quando a coisa se dá desta forma, a arte não nos torna pessoas melhores, ou por outra - torna-nos melhores na exacta medida em que um par de sapatos o faz, isto é: ficamos na mesma, ou até piores.
E isto é que irrita um bocadinho. Era só mesmo para dizer isto. 

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Não sabe, não responde

1.Existe um livro que relerias várias vezes?
Há um livro que releio sempre, Os Maias. Em geral, gosto de reler, mas Os Maias é o livro a que volto com mais assiduidade. Também regresso às Cartas do Meu Moinho muitas vezes. A querida Jane Eyre é um livro que também reli muitas vezes ao longo da vida. Adoro a Jane. Também volto muitas vezes à poesia do Lorca e  ao Adrian Mole, que me continua a parecer muitíssimo subestimado. Releio muitas vezes partes dos Lusíadas (não sei se conta).
As releituras podem ser uma desilusão, mas algumas, aquelas que sobrevivem ao tempo e ao envelhecer dos olhos que lêem, são sempre redescobertas - isto é pirosíssimo, mas é verdade.


2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?


Sim, o Tender is the Night, do Fitzgerald. Adoro o Gatsby, mas o Tender is the Night nunca consegui terminar, e tentei e tentei. Não sei, quando o Fitzgerald entra na onda do psicológico, fica ali a enredar, a enredar e eu tendo a ser pouco paciente. Também faz isso nos contos e eu também leio com dificuldade. Mas tenho pena de mim própria, porque gostava de ler o Tender até ao fim. Pode ser que um dia aconteça. 


4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Imensos, imensos, e espero ainda ir a tempo de os ler a todos. Fico particularmente angustiada quando penso nos clássicos gregos - há imensos que ainda não li e quero ler. Também ainda não li o Mau Tempo no Canal, do Vitorino Nemésio, por exemplo, e quero absolutamente ler. Assim como a Bíblia, que gostava mesmo de conhecer melhor. Sei que o que se segue é absolutamente despropositado, mas também gostava de ler  "Os 120 Dias de Sodoma", porque gosto muito do Marquês, mas sei que este é um livro que nunca lerei. Sou uma pessoa de estômago fraco, digamos assim.


5. Que livro leste cuja cena final jamais conseguiste esquecer?
As Vinhas da Ira. As Vinhas da Ira, sem dúvida.
E também, por alguma razão, o final do Amante de Lady Chatterley - "a little droopingly, but with a hopeful heart". Não adorei o livro, mas adorei o final e nem consigo explicar porquê.
E também o final de Rebecca, com o vermelho da Manderley a arder. 
Mas, acima de tudo, as Vinhas da Ira. 


6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Lia muito, sim - Uma Aventura, Os Sete, Os Cinco, As Gémeas no Colégio de Santa Clara, o Colégio das Quatro Torres, a Patrícia, e livros mais lamechas e antigos, como "O Romance de Isabel", um pastelão que eu adorei. Também lia a Agatha Christie, que a minha tia, perita em literatura policial, me emprestava, e as queridas irmãzinhas Bronte. E tenho memórias muito felizes da minha infância que se devem a todos estes livros, e, acima de tudo, tenho uma gratidão imensa aos meus pais, à minha tia, à minha avó, que sempre me deixaram ler tudo o que eu queria sem nunca impor limites ou proibições e que me fizeram compreender que, se existem objectos mágicos, o livro é um deles. É até, diria eu, o único objecto mágico que existe - e que deve ser tratado como um objecto que vai connosco para todo o lado, não como uma daquelas bonecas feias que as pessoas não tiram da caixa e põem na prateleira, em exposição, a fingir que é um bibelot. Bleeeagh.


7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Há livros com os quais não nos damos bem, tal e qual como as pessoas. Custou-me imenso ler o Guerra e Paz, fiz um esforço enorme para o terminar. A Insustentável Leveza do Ser também me custou. Li até ao fim porque tinha que provar a mim mesma que era capaz de os ler, e, claramente, isto deveu-se à minha idade, porque eu era novita e queria ser uma leitora toda profissional. Penso muitas vezes que devia reler estes livros, agora que a idade avançada, mais sábia e calma, está do meu lado, mas, por outro lado, há tanta coisa boa para ler... 


8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Ai... pergunta difícil. Vou indicar alguns, sim: Os Maias, Crime e Castigo, Cartas do Meu Moinho, Jane Eyre, Wuthering Heights, Lucky Jim, Alice in Wonderland, Adrian Mole, Auto dos Danados, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Medeia (Eurípides, não Séneca, que nunca li), Measure for Measure, Heart of Darkness, In Cold Blood, Other Voices, Other Rooms...
E estou a esquecer-me dos outros amores da minha vida. Ah, que traição. 


9. Que livro estás a ler?
Hell's Angels, Hunter S. Thompson, intercalado com espreitadelas a um livrinho engraçadinho que encontrei noutro dia, Curiosities of Literature, do John Sutherland. É mesmo engraçadinho, este livrinho.


10. Indica 10 amigos para responderem a este inquérito.
Eu não tenho 10 amigos. A minha amiga é a língua portuguesa!
Era a brincar. Mais ou menos.
 Quem quiser responder, pode fazê-lo. Se o Tolan, a Senhora Sócrates, a Bandeira ao Vento, o Zé, o Rui Almeida, o Moço do Café Central, o manuel a. domingos, o Luís Filipe Cristóvão et. al. quiserem avançar, por mim tudo bem. Não vou pôr aqui os links, porque depois eles não respondem e eu apanho uma grande vergonhaça. Mas pronto, quem não arrisca, não petisca, lá diz a sábia língua portuguesa.


Ora boa noite e bem haja, sim?

segunda-feira, 1 de agosto de 2011



Então a 4ª série do True Blood já começou e eu andava aqui feita parva, sem saber?

Agora ando a tentar apanhar os episódios todos, mas ainda só consegui ver metade do primeiro, que me pareceu prenunciar uma temporada ainda mais delirante do que a anterior, que já foi bastante delirante. 
Gosto muito de delírios.

E por favor, quem segue a série que me explique, por obséquio: como é que a Sookie continua a trabalhar no bar do Sam e não é despedida? Eu sou tolerante "no que concerne" a relações laborais, mas isto ultrapassa tudo o que eu, se fosse entidade patronal, estaria disposta a aceitar, porque a rapariga tanto vai trabalhar um dia, como no outro vai não sei para onde fugir dos lobisomens, como no outro vai salvar o namorado vampiro, como volta na semana a seguir para trabalhar só à noite, e depois é só de dia, e depois tem de se ir embora outra vez porque descobre que é fada, e etc. e tal. Não deve ter grande subsídio de férias, esta Sookie. Digo eu.
Mas, pensando bem, nós também não temos grande subsídio de Natal e ninguém nos dá folga para tratar de assuntos pessoais, seja fugir de lobisomens ou de vampiros. Hmmm. Acho mal.