domingo, 14 de março de 2010

Sentidos de humor


Soube agora que a chamada "Academia", aquela que dá Óscares, decidiu retirar da cerimónia um sketch de Sacha Baron Cohen destinado a James Cameron, que era para não ofender o senhor.
A questão é que o (bom) humor pode, muitas vezes, ofender, o que é pena, mas é assim mesmo.
Lembro-me, com muito pesar, de ter estado uma vez numa conferência em que, num dos intervalos, para descontrair, se falou de filmes. Era o ano em que Borat, o filme do supra mencionado Sacha Baron Cohen, tinha sido exibido nos cinemas, deixando alguns muito agastados, e outros, como eu, perdidos de riso. Acontece que os colegas da conferência pertenciam aos primeiros, aos que tinham ficado agastados. A cena em Borat luta nu contra um bojudo, repugnante homenzinho gordo e peludo, cena inesquecível de tão irreal, ousada, inacreditável que é, foi descrita por todos como de mau gosto e nojenta. Eu concordei, de mau gosto e nojenta. E, curiosamente, é isso que faz dela algo de tão inesquecível. Mais do que fazer rir, a dita cena prolonga-nos o queixo até ele ir ao chão, porque parece impossível que alguém tenha filmado tal coisa.
Mas não, os colegas da conferência não iam na conversa. O Borat era coisa do diabo, repulsiva, boçal, sem a mínima piada, ao passo que eu estava ali especada, desesperada, a tentar explicar que sim, repulsivo, sim, boçal nem tanto, porque tem piada!, estranhamente, tem piada, e é tão difícil alguém conseguir um humor que roça o limite do mau mas nunca chega a ser mau, e por isso é tão bom. Fui muito infeliz na explicação deste paradoxo. Ainda me lembro de um rosto que se contorceu a olhar para mim, esganiçando-se a exclamar, do alto da sua pobre petulância ,"o Borat?! Que horrível".
Senti-me, naquele momento, absolutamente alienada do meu semelhante. O pior distanciamento que pode acontecer entre as pessoas é não serem capazes de se rir juntas. É um muro intransponível, um sentimento de solidão inexpugnável. Detestei, naquele momento, todas as pessoas à minha volta, detestei a conferência, quis voltar para casa. Depois encolhi os ombros e resignei-me.
O Rui Veloso cantava que não se ama alguém que não ouve a mesma canção. Eu acrescentaria: não se ama alguém que não se ri da mesma canção. É muito triste.

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