quarta-feira, 10 de março de 2010

Falsos, abomináveis ídolos


Que me lembre, nunca escrevi um post a descompor uma pessoa do mundo real de cima a baixo, tanto mais que aqueles que eu verdadeiramente gostaria de descompor são, normalmente, alvos demasiadamente fáceis, tipo Eduardo de Sá, de modo que não me dou ao trabalho de tal baixeza.
Hoje, porém, vou abrir uma excepção. E essa excepção é a Oprah, cuja irresponsabilidade chocante não será, com certeza, devidamente expressa pelas minhas tristes palavras espalhadas ao vento, como diria o Magnífico Bardo, aka Camões (não que eu alguma vez me compare a Camões - quer dizer: não comparo o talento, evidentemente, mas a tristeza se calhar até comparo).
Adiante. Ora, esta Oprah, que tem o grande defeito sumamente conhecido que é o de ter um problema de identidade profundo e pensar que é Deus, dedica um programa (programa 13, série 17 - por favor confirmem, se não acreditarem em mim) ao modo como mulheres de diferentes países vivem. E houve uma senhora do Dubai. E esta senhora do Dubai diz que tem uma vida muito confortável e mimosinha: a sogra tem um "chef" que lhe faz a comida toda, e ela própria tem uma criada filipina a viver em casa, porque a maior parte das famílias tem, além de um marido que lhe paga as contas todas do telemóvel, porque os maridos fazem isso às mulheres no Dubai. Mas atenção, que não se pense que no Dubai é só boa vida, não!, no Dubai também há pessoas que têm de ir à luta todos os dias. E pergunta a Oprah se no Dubai há sem-abrigos. E diz a residente no Dubai que não, que não há, porque o governo toma muito bem conta dos cidadãos. Não se paga conta de electricidade, há cuidados médicos de graça para toda a gente, todos têm direito a subsídio de desemprego, e portanto no Dubai não há sem abrigos. Não há pobres, portanto.
Esta Oprah devia, pura e simplesmente, ter vergonha naquela cara por permitir este tipo de propaganda obscena e indesculpável. Não estou a dirigir a minha raiva à pobre de espírito residente no Dubai - as pessoas acreditam no que querem, especialmente se escolhem que governos e políticos e a sua própria parvoíce pensem por elas. Agora, esta Oprah, auto-proclamada salvadora da pátria, sempre tão boazinha, sempre tão justiceirazinha, sempre tão humanitária que até promove programas excelsos como o Dr Phil, esta Oprah não investiga, não se dá ao trabalho, de pôr os olhos nesta situação que se passa no Dubai? Como é que é possível, por parte de quem se comporta como uma verdadeira heroína, defensora de pobres e oprimidos, porque ela própria fez parte deles?
Eu sei que o programa está já datado. Eu sei que o Dubai já foi à vida, afogado no tal credit crunch. Mas não muda o facto da heroína Oprah permitir propaganda mentirosa e chocante no programinha dela.
Aquilo que me interrogo é se o faz por indesculpável e medíocre ignorância ou por igualmente indesculpável indiferença. A resposta é tristemente arrepiante em ambos os casos.

6 comentários:

Fado Alexandrino disse...

Já há muito tempo que um post não me deixava tão bem disposto.
Explico já.

Eu, se calhar outros, consigo ter aversão a uma pessoa sem ela me ter feito mal nenhum, sem abrir a boca, sem a conhecer, em suma é mesmo ódio à primeira vista, melhor dizendo nem preciso de a ver, basta a foto num jornal ou a cara numa televisão.

Esta é uma delas, está aliás entre as cinco mais.
Mal a vejo num canal de televisão mudo imediatamente e fico mal disposto durante meia hora.

Sou assim, peço desculpa.
Muito obrigado por lhe ter cascado.

Rita F. disse...

Nada a agradecer. Ela chocou-me verdadeiramente. Muito desagradável. :(

lenor disse...

A mim o Prozac faz-me mais efeito que o palavreado dela e doutros quejandos. Mas não somos todos iguais.
:)))

Anónimo disse...

Ela apenas empatizou com uma senhora que tem o mesmo estatuto que ela - é rica! E convenhamos que escravatura escondida há em muitos países... mas Portugal é que é bom, há muitos pobres, muitos mais ainda a receber subsidios sem fazer nenhum... mas nao há escravatura, que isso é muito mau!

Anónimo disse...

Ó Fado Alexandrino, para quando um blog teu? Gostava de te ler no Arrastão mas já não há pachorra para ler aquilo agora com tanta malta!

Fado Alexandrino disse...

Peço licença á dona do blog para dizer que o meu está no link da minha intervenção.