domingo, 14 de março de 2010

Plástico


Pronto. Vou falar do Sexo e a Cidade. Vou, porque há coisas que me agastam, e portanto este vai ser mais um post a destilar fel, mas não é contra a série.
Gosto muito da série. Tem piada, é um regalo para os olhos com os vestidos e os sapatos e os cabelos e as pessoas podem dizer-me à vontade que aquilo são mulheres a falar como homens gay, ou vice-versa, que eu não quero saber, gosto à mesma.
E porém. Não são as meninas do Sexo e a Cidade, com sua frenética ânsia e interminável conta bancária sempre pronta a esvair-se em sapatos ridículos, que me enervam. Não. O que me enerva são as meninas com frenética ânsia a esvaírem-se em sapatos e malas ridículas e de plástico e que vivem em Portugal que me enervam. A demanda constante pela "marca". Os óculos esbugalhados com umas letras garrafais nas hastes, DIOR, DOLCE, VERSACE, PRADA. Hã? O que é isto? As Louis Vuitton falsas, já a dar de si, fios soltos, costuras descosidas. Os sapatos de saltos altíssimos, cheios de chulé, que desfazem calcanhares, que permitem apenas passinhos periclitantes que dão vontade de rir.
Lamento muito, mas é estúpido. Tudo isto é estúpido, é pobreza de espírito. É tão estúpido e parvo como ir a um restaurante cujo "conceito" é "gourmet low cost", como eu fui noutro dia, portanto enfio a carapuça, porque como já escrevi antes, carapuças há-as para todos os gostos e eu mais remédio não tenho do que usar a minha. Enfim. Que um restaurante tenha um "conceito" que não seja comer e beber, já acho estranho; que o conceito seja gourmet mas low cost, acho de uma pretensão meio parva. Mas devo dizer que a comida, por acaso, estava óptima, e o ambiente também era giro, portanto se calhar ainda lá volto. Como disse, tenho uma carapuça e uso-a.
O problema é que eu vejo o país perdido nestas parvoíces, nesta ânsia imparável por coisas feias, baratas, falsamente bonitas, falsamente inteligentes. É terrível.
Aceitemos todos: não temos dinheiro. Ok? Não temos. Aceitemos todos que: não podemos ter malas Louis Vuitton, nem Manolos, nem viver em Nova Iorque, nem pensar em homens o dia todo e ainda ganhar dinheiro com isso. Aceitemos que temos de viver de outra forma, comprar outras coisas. Mais baratas, mais honestas, mais bonitas.
É que estou farta de ver gente feia, coisas feias, plástico, plástico brilhante, à minha volta. Sapatos de plástico brilhante, malas de plástico envernizado, sorrisos de plástico brilhante, bleagh. Para onde é que eu tenho de ir para me regalar com a beleza natural da simplicidade? Para Trás-os-Montes? Não me apetecia, porque é um bocado longe, mas pronto, se for preciso vou. Por acaso, gosto muito de Trás-os-Montes. Tenho pena de ser longe do mar.
Vou ter muitas saudades do mar.

7 comentários:

Nuno disse...

Excelente post. Toda esta gente anda a viver a credito a tentar mostrar-se mais que o vizinho que tambem vive a credito.

Nao quero estar por perto quando for altura de pagar a conta do circo das vaidades...

Sofia disse...

Bom post. É a sociedade que temos: vive de aparências.

Bruno disse...

Rita F., tu estás lá, pá.
E eu que julgava que era só o próprio eu que embirrava com sapatos altos altíssimos, com caras de plástico plasticíssimas, rugas de plástico, copos de plástico, falos de plástico e cenas dessas. Acho que vi uma vez um episódio de O Sexo e a Cidade do princípio ao fim, mas talvez tenha sido porque não tinha legendas, e porque, atrás do que elas diziam, nem dei pelo tempo a passar-se antes de mim. Mas também me lembro, há uns anos, um grupo cantar "toda a gente critica o telemóvel do vizinho, mas no fundo toda a gente queria ter um igualzinho", e ver que hoje quem cantava ontem contra o consumismo está vendido à publicidade dos hamburguéres e a fazer anúncios para o MacDonald's. Há muitos capuzes para enfiar, e muitos barretes à mistura. Por isso, quero acreditar que um dia o PVC vencerá a minha exsurgência, só me consolo porque nesse dia já estarei uns palmos abaixo, a alimentar belos exemplares de tijoleira.

Rita F. disse...

Eu não culpo quem gosta de coisas boas e tem dinheiro para as comprar. Melhor para eles.
É o plástico que, de facto, me faz muita espécie. Muita, muita. É que o plástico é tão desonesto que não engana mesmo ninguém. Entristece um bocadinho, é só isso.

Destination disse...

O low-cost é o "conceito" que melhor se adapta aos portugueses - de bolsos vazios mas a querem mostrar que são ricos!
Mas eu acho ainda pior o contrário - comprar carteiras de marca verdadeiras e caras (ex: Tous) e usá-las com sapatilhas e fato de treino como começa a ser comum por aí!

Destination disse...

"Espantam-se os Utopianos que alguém seja tão louco que se deleite com o brilho incerto de uma pérola ou pedra preciosa, quando se pode olhar o brilho das estrelas e a luz do sol; ou que alguém seja tão tolo que se considere mais nobre por se cobrir de lã mais fina, a mesma lã que um carneiro um dia usou e nem por isso deixou de ser carneiro. "

Utopia - Thomas More

Rita F. disse...

Tem toda a razão, o Thomas More.
Obrigada pela citação.