quarta-feira, 17 de março de 2010

Matéria para o teste

Às vezes, penso se serei uma boa cidadã. Acho que sou, porque a mim ninguém me dá perdão por evasões fiscais se eu pagar 5% de coisas (mil desculpas, não resisti).
Continuando. Considero importante ser boa cidadã, isto é, como diziam os renascentistas, ser "civil", mas hoje fui multada cruelmente por um deslize absolutamente inofensivo, que foi ir na faixa do bus, como se isso fosse um grande e horrível crime, e de alguma forma senti que esta multa penalizava não apenas a presença da minha inocente viatura na porcaria da faixa do bus (mas a PSP não tem mais que fazer?!), como era também um castigo absolutamente alietório e até alienante, como acontece a Kapa no Processo. Foi, aliás, quase como ele que me senti. Não foi agradável.
Tal como não é agradável ter de suportar o olhar dos outros, coisa que abomino, aliás, por mim, as outras pessoas podiam falar comigo a 15 metros de distância, aos gritos, que eu não me importava. Não sei se toda a gente passa por isto, mas tenho quase a certeza que sim. Refiro-me a certos momentos na vida em que usamos uma certa roupinha, ou um batonzinho mais especial, enfim, momentos em ostentamos algo que é esteticamente aprazível, e há sempre alguém que nos olha de cima a baixo, mas é incapaz de pronunciar o elogio que ali está contido nos lábios, mesmo, mesmo, a rebentar, mas nunca proferido porque isso, para algumas pessoas, é uma "fraqueza". E ficam ali a olhar, por brevíssimos segundos, e nós ficamos ali a ignorar o breve momento em que a fel tomou conta de alguém. É desagradável.
Ou talvez olhem para nós para apreciar a fealdade ou a piroseira, o que é igualmente legítimo. Eu só solicito é que as pessoas sejam discretas, ou que acompanhem o olhar com palavras. Digam "olha tão giro", ou então "eh pá, isso é um bocadinho feio, para a próxima tens de ter mais cuidado", mas digam, ao invés de olhares venenosos, ostensivos. Feios, digamos.
E isto, olhares de fel e multa, confirma apenas a minha triste conclusão, que é a de que este mundo nos mantém sempre em permanente estágio, raramente nos dá contrato, e quase nunca nos passa a efectivos. É constante avaliação, todos os dias, pelos pares, pelos superiores, pelos inferiores, por amigos, por conhecidos, por estranhos, por tudo e todos. Quando finalmente passamos todos os testes, é tarde demais; se, pelo contrário, chumbamos um, a possibilidade de melhoria de nota é inversamente proporcional à nossa idade, isto é, torna-se cada vez mais difícil à medida que envelhecemos.
E por isso eu defendo que nunca se estude assim muito para o teste. Sei que isto parece a aurea mediocritas, mas eu acho que não é. Até me parece mais uma questão de sanidade mental.
Corre como correr.

3 comentários:

Fado Alexandrino disse...

Gostei muito deste post.
Atingi uma idade em que a aparência já não me dá muitos cuidados, na realidade nenhuns e mesmo que me desse seria um milagre acompanhado de muito dinheiro conseguir transformar-me em algo capaz de chamar a atenção ou, sonho!, parar o trânsito.
Agora há algo que é preciso dizer.
Uma mulher com bom gosto tem á sua disposição armas letais.
A maior parte das vezes os homens não dizem nada porque ficam engasgados e as mulheres também nada dizem porque a ira tolhe-lhes a voz.

Rita F. disse...

Mas isso da ira é tão feio... as pessoas que disfarcem e disfarcem bem, é o que eu defendo.

Fado Alexandrino disse...

Sim, tem razão.
Pode-se disfarçar, mas os olhos?
Nos homens esbugalham e nas mulheres desferem chispas (tirei esta frase de um autor célebre, mas agora não me recorda o nome e quando me recordar também não o digo).