domingo, 13 de junho de 2010

Mas porque é que eu havia de querer...?

A prova de que não cresci é que, a primeira vez que vi Trainspotting, e apesar de ter adorado o filme, não me identifiquei muito com o discurso inicial de Renton, que entretanto se tornou de antologia ('choose life, choose a job, choose a career', etc).
A prova de que não cresci é que hoje, ao rever o mesmo discurso, identifico-me com quase tudo, excepto a parte da heroína, porque felizmente eu não sou nenhuma heroína nem preciso de me sentir heróica.
A prova de que não cresci é que um discurso que me deveria parecer uma imaturidade, um lugar-comum escrito para vender livros e seduzir gente influenciável com a mania que é esperta e que não leu tantos livros quanto os que julga que leu, a mim que vou nos alvores da provecta idade balzaquiana, parece-me muito certo e razoável. Todas aquelas dúvidas são legítimas. Toda aquela incerteza e recusa são justificadas. Justificadas porquê? Não sei, mas são.
E é engraçado, porque toda esta inquietação, esta incerteza, esta recusa, tudo isto podia ter uma aura muito filosófica. Mas não tem. É mesmo só chatice, sem desculpa nenhuma.

Choose a life. Choose a job. Choose a career. Choose a family. Choose a fucking big television. Choose washing machines, cars, compact disc players and electrical tin openers... Choose DSY and wondering who the fuck you are on a Sunday morning. Choose sitting on that couch watching mind-numbing, spirit crushing game shows, stucking junk food into your mouth. Choose rotting away in the end of it all, pishing your last in a miserable home, nothing more than an embarrassment to the selfish, fucked up brats you spawned to replace yourself, choose your future. Choose life... But why would I want to do a thing like that?



5 comentários:

Fado Alexandrino disse...

Um post muito amargo.
Não vou comentar.
Só dizer que o filme tem cenas que são autênticos monumentos de cinema.
De vez em quando ponho-o só para as rever.
Devia ser visto por toda a gente.

b'passarinho disse...

sabes, vi apenas uma vez este filme. era demasiado nova, e vi-o numa micro tv que tinha no meu quarto. ainda por cima o raio da cor era muito fraca, tendia para um azulado... mas aquela cena do bebé a andar pelo tecto marcou-me de tal forma... só me lembro de desatar a chorar porque achava aquela cena extremamente bizarra.

acho que preciso de voltar a ver o filme, numa televisão normal.

Rita F. disse...

Acho que sim, Fado. O Trainspotting é excelente. Não li o livro, mas, a julgar por outros livros que li do Irvine Welsh, parece-me que mais vale ver o filme. Os actores estão muito bem. Melhor do que alguma vez estiveram, ou vieram a estar, noutros filmes (o Ewan McGregor, por exemplo, tem sido uma desilusão).

b'passarinho, a cena da bebé é terrível, mas penso que, se vires outra vez, constatarás que há muitas cenas terríveis. A mim, o que sempre me impressionou mais foi a história de Tommy, que acaba por ceder àa heroína e ficar pior que todos os outros que já eram drogados há muito tempo e que acabaram por se safar. Estes acabam por dizer sim à vida; o Tommy, por nada mais do que azar, diz não.
É um bocado piroso. Mas muito bom.E vale a pena ver novamente, os diálogos são óptimos.
Bom. Eu própria já não vejo há algum tempo. Talvez devesse ver novamente, também.

Fado Alexandrino disse...

É verdade Ewan McGregor a partir daqui não fez quase nada de jeito.
Gostei dele mas também era fácil quando se tem ao lado a Nicole em Moulin Rouge (um filme que gostaria de tornar obrigatório, e assim será quando for presidente da junta, nas escolas de Benfica.
Depois fez uma coisa menos má em Cassandra's Dream e por aqui nos ficamos.
Há outro grande flop no cinema que é o Malcolm McDowell.

Rita F. disse...

É verdade, Fado.
Adorei o Malcolm McDowell em dois filmes - o Laranja, claro, e o If. Nunca mais o vi em qualquer coisa com jeito, e é um desperdício, considerando que o MM é tão talentoso e tem aquela cara tão estranha, de doido. Nem toda a gente consegue ser assim.
Obrigada por me ter lembrado dele.