segunda-feira, 31 de maio de 2010

Lágrimas


Eu sou completamente a favor da felicidade, da alegria e até do optimismo, embora possa parecer que não. Mas a verdade é que sou.
No entanto, considero que há momentos na vida em que a tristeza é inevitável e assumi-la também. Por exemplo, tenho notado que, nos últimos tempos, têm-se sucedido notícias sobre pessoas que conheço vagamente e que se separaram ou divorciaram. Como as rupturas, quaisquer que sejam, mas principalmente as amorosas, são coisas que verdadeiramente me deixam aterrada, fico sempre cheia de pena, e indago acerca do estado de espírito da pessoa ("ah, mas ele/ela está bem? anda a trabalhar muito, ao menos, para conseguir esquecer?", sei lá, coisas parvas desta índole). Fico sempre abismada com as respostas que recebo. Uma semana depois do desgosto e já toda a gente mudou de emprego para se encontrar agora a ganhar €300000 por mês, ou já se casaram novamente, ou já apresentaram namorado novo aos pais, ou vão ter um bebé com o namorado/a novo/a, ou foram convidados para ir viver para a Califórnia como estrelas de cinema, etc., etc.
Admiro quem tem esta elasticidade para deixar que os azares da vida embatam neles para fazerem ricochete, superando rapidamente obstáculos e voltando a repor a ordem natural das coisas, que deve ser feliz. E porém, a rapidez com que as pessoas escamoteiam a tristeza é algo que me surpreende sempre. Não ouço falar de ninguém que fique em casa a chorar, que tenha dificuldade em manter uma vida normal, que admita que está infeliz. É evidente que muitos preferem esconder estados de espírito e adoptar uma fachada de alegria e força para o mundo exterior, o que é legítimo. Mas, mesmo em conversas pessoais que vou tendo, constato que a infelicidade e a tristeza são cada vez mais palavras proibidas no léxico de toda a gente.
Se eliminar os vocábulos "infelicidade" e "tristeza" equivalesse a erradicá-los definitivamente da vida das pessoas, estaríamos todos de acordo. Mas não nomear uma coisa não quer dizer que ela não exista. É impossível viver sem que, com grande pena minha e de toda a gente, sejamos atingidos por ondas negras de tristeza. É mesmo assim. Um bom método talvez seja chorar tudo o que há para chorar, resolver todos os lutos antes que eles se avolumem ainda mais. E isto não sou eu que digo - já há muito que se sabe do poder das lágrimas. Leia-se, interessantemente, o que diz José Tolentino Mendonça na sua introdução a O Dom das Lágrimas. Orações da antiga liturgia cristã, Assírio e Alvim, p.12:
Temos muitas maneiras de chorar, e o modo como o fazemos revela não só a temperatura dos sentimentos, mas a natureza da própria sensibilidade. Ao chorar, mesmo na solidão mais estrita, dirigimo-nos a alguém: esforçamo-nos para que ninguém veja que choramos, mas choramos sempre para um outro ver. As lágrimas emprestam um realismo único, irresistível à dramática expressão de nós próprios. São um traço tão pessoal como o olhar ou o mover-se ou o amar.

Choramos pouco, não é? A não ser as velhotas- "eu-sou-uma-pessoa-doente" que de vez em quando aparecem na televisão (e não dão vontade nenhuma de rir, apesar de eu estar a falar disto descontraidamente), as pessoas não choram muito. E, se choram em privado, nunca dizem que choram. Isso é com elas, de facto, não me cabe a mim especular o porquê.
Mas pronto. Isto sou só eu a falar. Eu nem nunca chorei na vida e detesto, verdadeiramente, que chorem ao pé de mim, de modo que não sou pessoa para estar aqui a pregar sermões.

4 comentários:

zozô disse...

É que nós vivemos numa cultura frenética do "ser positivo", num mundo competitivo, feito de aparências, onde não se dá "parte de fraco". Somos sempre pressionados para "dar a volta por cima". E se se cede algum tempo à tristeza, corre-se o risco de levar com o rótulo da "depressão" (agora tão na moda).
Portanto, Rita, chora-se, sim. Chora-se muito em privado. Ou chora-se sem lágrimas, que é um pouco pior.

Fado Alexandrino disse...

Os dois últimos anos da minha vida em África foram num sítio em Moçambique onde os ingleses eram reis.
Todo o lugarejo vivia no ritmo inglês e sempre me admirei com a reserva que eles tinham de mostrar sentimentos em público.
Depois aprendi que deve ser mesmo assim.
A dor é para ser vivida a só.
O espectáculo que as televisões dão de cenas em frente a Tribunais e dentro e fora de cemitérios são absolutamente pornográficos.
Como também o é a exposição da doença que está a atingir o seu clímax no caso António Feio.
Nada disto é bonito.

Rita F. disse...

Zozô, é verdade, a competição dos dias de hoje é aterradora. Muito agressiva. E talvez se chore sem lágrimas, o que espero que nunca por nunca me venha a acontecer.

Fado, tem razão. Nada disso é bonito. Muitas das coisas que refere são inenarráveis, inaceitáveis. Pouca-vergonha, mesmo.

Anónimo disse...

De modo que... vou voltar ao meu blogue que isto por essas bandas está down!