quarta-feira, 26 de maio de 2010

É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio

O que é "escrever bem" ou "ter jeito" para a escrita?
Quando as pessoas dizem que têm muito jeito para a escrita, isso normalmente nunca corresponde à verdade. Apenas quer dizer que não dão erros ortográficos e que conseguem escrever a metro, isto é, mais de dez linhas, sem lhes faltar ideias. Não me posso esquecer do mafarrico que se sentou ao pé de mim na cantina da escola e que disse que tinha "muito jeito" para escrever poemas, tanto jeito que as pessoas até lhe diziam que ele dava ares de Fernando Pessoa. Escrevia bem, achava ele.
Eu não sei o que é escrever bem. Sei dizer se considero que alguém escreve bem ou mal, mas não consigo exactamente definir porquê - quer dizer, quando a escrita é má, consigo, porque se torna bastante fácil. Quando se escrevem diálogos do calibre "então compraste mais sapatos?", "É. Comprei", está tudo dito. Qualquer pessoa que, com ou sem licença poética, admita "é" como resposta a uma pergunta que não contém o verbo "ser" tem, claramente, problemas que eu duvido que não ultrapassem a própria (má) escrita. Mas, lá está, como qualquer pessoa de nacionalidade portuguesa, tenho muito mais facilidade em apontar e justificar o que está mal do que justificar o que está bem.
Sei que aprecio cada vez mais a escrita que é apenas formalmente má, ou propositadamente má. Há quem escreva propositadamente mal de forma admirável. Agora só me consigo lembrar de Charles Bukowski e Lobo Antunes em certas crónicas e momentos de alguns romances, mas há outros. Escrita com asneiras, com frases entrecortadas ou mesmo interrompidas, que começam a meio e terminam no início, mas uma escrita fluida, escorreita, viva. Penso que era isto que Truman Capote designava, muito interessantemente, por "underwriting". Curiosamente, o primeiro romance de Truman, Other Voices, Other Rooms, sobre o qual já escrevi aqui no blog, é tudo menos "underwritten". Mas é uma escrita simples, ao mesmo tempo. Não é excessiva, apenas admite momentos de alguma extravagância, o que é inteiramente diferente.
Bom. A minha intenção era escrever um post que se dedicasse com algum afinco ao problema do calor e de as pessoas insistirem em mostrar ao mundo a sua flacidez, usando tops de licra que se colam de tal forma às protuberâncias que ficam a parecer da família do bonequinho da Michelin, e como isso não é bonito nem correcto, sendo que a minha sugestão ia no sentido de se começar a usar umas coisas mais folgadas a bem da estética comum, assim como sapatinhos fechados para quem não tem paciência para limpar as unhas dos pés, já que certas visões de dedões descuidados assustam ligeiramente, mas enfim; acabei por escrever algo completamente diferente.
Ainda não sei como se vai chamar este post. Falta-me o "títalo". Este é um exemplo de escrita propositadamente má. O resto também pode ser, mas este foi mesmo de propósito.

3 comentários:

Fado Alexandrino disse...

Consta que um dia Mozart explicou como é que fazia aquelas maravilhosas peças.
Não se pode aqui transcrever a suposta frase mas ele explicava que " as coisas saíam de modo natural"
Ao ler este trecho lembrei-me desta explicação.
Já agora aproveito para dizer mais uma coisinha.
É sobre " Tal como as pessoas, os livros mudam. E mudam de uma forma muito clara.".
Um dia, há séculos li " O VERMELHO E O PRETO DE Stendhal" que considerei ser o melhor livro que já tinha lido e que nunca haveria nenhum melhor.

Claro que depois apareceram outro e o mais curioso é que adquiri uma edição antiga e para meu grande desgosto já não consegui passar das primeiras páginas.

Eu envelheci e o livro não me acompanhou.

Rita F. disse...

Fado, essa sensação do livro que não nos acompanha é muito triste. Foi isso que senti com o Paul Auster. O que vale é que vão sempre aparecendo mais livros pelos quais nos podemos apaixonar, eliminando assim a memória daqueles que nos deixaram.
Era bom que a vida fosse como esta relação promíscua que a gente tem com a literatura. :)

Fado Alexandrino disse...

Era bom que a vida fosse como esta relação promíscua que a gente tem com a literatura. :)

Era bom era.
Já se percebeu que a Rita não é um exemplo português.
A caminho de um doutoramento, especializada segundo deduzo em literatura britânica, talvez mesmo na poesia românica inglesa (tenho aqui um da Editorial Inova que morreu ingloriamente) deve sentir um constrangimento quando circula no meio de nós.
Escrevo isto, descontraidamente, porque estou num momento de grande abandono auxiliado por um Moura Bastos Verde de Monção.

É tempo deste coração permanecer insensível
porque já não pode comover o dos outros:
mas, se por ninguém eu posso ser amado,
ainda quero amar!


É claro que isto é lindo, mas o que me preocupa neste momento é "quem vai ser o guarda-redes do Benfica na próxima época".