sábado, 29 de maio de 2010

Conversa de café


Um amigo meu dizia, há imensos anos (tudo o que me aconteceu, pelos vistos, foi sempre há imensos anos), que gostava de namorar com raparigas feias. É que, explicava ele, como são feias, são mais interessantes, porque não podem contar com a carinha laroca para atrair a atenção. Ele arranjava, inclusivamente, metáforas muito engraçadas dignas, sei lá, de elevações de espírito como um episódio do Sexo e a Cidade, mas naquela altura tinham, de facto, graça - é como mergulhar no mar, chegares lá ao fundo e veres tudo com toda a clareza, o azul da água que não é o mesmo à superfície, enfim, coisas assim.
Lembro-me de ter protestado contra esta conversa. O que ele dizia é que as feias dão menos trabalho a engatar. Mas não era isso. Ele tinha, convictamente, mais interesse em pessoas feias do que em pessoas bonitas.
Eu também, curiosamente. Já escrevi que gosto de imperfeições e etc. e tal. Mas também acho mais graça a pessoas feias que depois, com o tempo, se vão tornando bonitas. A beleza perfeita é aterradora - é como ir a um museu ver um quadro e ficar ali estarrecido a olhar. E o quadro, se calhar, até ficava muito bem na nossa sala. Mas, passado algum tempo, tornava-se um objecto de decoração como outro qualquer. Perdia a novidade, alguma piada, até. E, por isso, as pessoas muito bonitas sofrem um processo inverso aos feios - também devido a alguma inveja, que é, de facto, algo de muito desagradável e vil, quanto mais observamos as pessoas muito bonitas, mais defeitos descobrimos, e estes defeitos avolumam-se de forma a tornarem-se insuportáveis. "Ah, que lindo que ele é, mas tem umas mãos esquisitas" - e, dia após dias, só vemos aquelas mãos horríveis, de gestos deselegantes, que estragam tudo. "Ah, que elegante que ele é, mas tem a boca torta" - e, de dia para dia, a boca vai-se tornando tão torta que chega à bochecha e, qualquer dia, vai parar à orelha, o que pode causar algum desconforto. É por isso que o meu problema com um certo cinema dos dias de hoje é não haver actores nem actrizes feios na quantidade necessária. Têm todos aquele ar higienizado da nata de Hollywood, que me incomoda um tanto ou quanto. Eu gosto mais de ir ver filmes com pessoas feias, que tenham alguma coisa para onde eu possa olhar sem ser dentes ofuscantes.
Não quero com isto dizer que a beleza não é importante. É, e quem diz que não é, sinceramente, está a mentir e pronto. Acontece é que a beleza, curiosamente, é algo de muito mais complexo do que se possa pensar. A beleza não envolve só, ou talvez nem sequer envolva fundamentalmente, perfeição física - envolve aquela entidade diáfana e inefável designada por "pinta". E a pinta ou se tem, ou não se tem, mas quando existe, traz consigo a verdadeira beleza.
É evidente que há uns seres estranhos que conseguem ter as duas coisas, excelsa perfeição física e pinta, mas nesses não vale a pena pensar, que só servem para a gente se sentir mal. Eu, a esses, punha-os a todos num museu e não os deixava sair de lá, para o mundo real. Era bem feita.

3 comentários:

Luna disse...

Que engraçado, costumo dizer algo parecido relativamente às pessoas bonitas e menos bonitas: é que as bonitas começam por ser postas num pedestal, e com o tempo vão-se inevitavelmente humanizando, acabando por desiludir, descer na consideração, expectativas, porque é impossível superá-las. As pessoas muito bonitas vão quase sempre parecendo menos bonitas ao longo do tempo. Já as feias, ou normais, com a convivência tendem a tornar-se mais bonitas aos nossos olhos, subindo de nível em encanto, e vai-se gostando mais delas ao longo do tempo, tendo à partida mais chances de não desiludir tanto.

Rita F. disse...

É isso. Era isso que eu estava a tentar explicar com esta conversa toda.
Embora eu aprecie pessoa bonitas, gosto de ficar a olhar para elas e depois ir-me embora. O que eu também gostaria de conseguir definir é o conceito de "pessoa normal". O que será isso? Não valerá mais a pena ser feio?

Fado Alexandrino disse...

Este post ganhou o Oscar de O Melhor Post Colocado em Portugal No Último Século.
Não sou alto, nem bonito, nem forte, nem rico, nem muito esperto, nem político, não canto, nem danço ( o Passos Coelho também não mas já teve duzentas namoradas).
Fiquei muito feliz, obrigado.
O risonho futuro está mesmo ali (na Nova Zelândia no meu caso).