domingo, 2 de maio de 2010

A propósito de louras



Agora fala-se muito da Grace Kelly; é capa da Vanity Fair, é exposição do guarda-roupa no Victoria & Albert, que eu hei-de ir ver, se a tanto me ajudar o engenho e a arte, é reminiscência saudosa do incomparável estilo, eterna elegância, inimitável porte principesco, tanto que até casou com um príncipe e tudo (e que caro o pagou). Aliás, a reportagem da Vanity Fair chega aos píncaros do risível, sendo um bom exemplo do que acontece quando certos e determinados desejos e anseios humanos são canalizados para estrelas de Hollywood e se desenvolvem fixações pouco saudáveis que levam a que se escrevam coisas como isto:

As for color, Grace was given her own, Apollonian palette. Wheat-field and buttercup yellows, azure and cerulean blues, seashell pink and angel-skin coral, Sun King gold and Olympus white—no one wore white like Grace Kelly. To those with a feeling for history, beauty, and style, Grace Kelly’s late-career wardrobe—the huntress Artemis during the day and Aphrodite at night—is unforgettable if not positively Delphic.

Bom. Eu, por acaso, gosto da Grace Kelly. Primeiro, o louro americano sempre me deslumbrou, em particular o louro gélido da Grace Kelly, que resultava tão bem nos filmes do Hitchcock. Aliás, nos filmes deste, as louras são sempre heroínas corajosas, e as morenas não necessariamente más, mas sempre umas pobres tristes (exemplo paradigmático, as duas meninas dos Pássaros - a loura sobrevive e fica com o namorado, a morena morre depois de ter sido sempre desprezada pelo seu amor). Mas continuando.
A propósito de louras, de quem eu sempre gostei foi da Marilyn. Comparada com a Grace, a Marilyn parece a desleixada com um palmo de cara que se enganou e, em vez de entrar na tasca onde habitualmente cantava o vaudeville de collant rasgado, entrou no restaurante fino onde se toca piano e come lagosta. E, no entanto, há um encanto mais autêntico na Marilyn, uma certa espontaneidade que eu acho enternecedora. A Grace não enternece. É uma estátua de gelo que ali está para deslumbrar, para ser admirada. A Marilyn, de busto emproado, cabelo platinado, cara de falsa ingénua, parece mais perdida, mais tonta, menos séria, menos perfeita. Tem uma sensibilidade que a Grace não consegue, ou, pelo menos, nunca conseguiu nos filmes que vi dela.
E por isso gosto mais da Marilyn, porque na vida real também me interessam mais as pessoas que revelam as fragilidades que têm, que não se envergonham disso. Os que as tentam esconder, muitas vezes mal disfarçadamente, irritam-me um bocadinho.

2 comentários:

José disse...

Gosto muito deste post, mas não deixo de achar que a GK foi das fêmeas mais belas a passar pelo grande ecrã. I could be brown, I could be blue, I could be violet sky, la la la. Bom, o Mika também não vai nada mal, realmente.

Rita F. disse...

Sim, a Grace Kelly era deslumbrante, mas tinha menos piada do que a Marilyn. O próprio príncipe Rainier tinha menos piada do que os Kennedy, que bem atormentaram a pobre Marilyn.
Devia ter-se ficado pelo Arthur Miller, eventualmente. Tudo isto para demonstrar que a Marilyn é bem mais trágica e, consequentemente, mais interessante.
Mas sem desmerecer a Grace Kelly, atenção, que também está muito bem.