quinta-feira, 13 de maio de 2010

Pois que tudo são coisinhas

E, mais uma vez, venho aqui dar conta não das pessoas que são assim e assado e que me irritam, mas antes daquilo que em Portugal é assim e assado e que me enternece (embora talvez me devesse irritar).
Há uma certa ternurinha em Portugal, uma certa disposição mansa, a que acho muita graça, embora esta mansidão seja, provavelmente, só fachada, mas enfim. Por exemplo, n'O Mistério da Estrada de Sintra, Eça faz pela primeira vez menção à personagem de Fradique Mendes, esse exótico espécime estrangeirado, que, numa festa, decide falar extravangantemente da relação amorosa e fatal que manteve com uma mulher canibal. E diz-se assim:

Carlos Fradique contava as situações monstruosas de uma paixão mística que tivera por uma negra antropófaga:
- Um dia, exaltado de amor, aproximei-me dela,arregacei a manga e apresentei-lhe o braço nu. Queria fazer-lhe aquele mimo! Ela cheirou, deu uma dentada, levou um pedaço longo de carne,mastigou, lambeu os beiços ...e pediu mais.
-Oh! sr. Fradique! - gritaram todos, escandalizados.

Este "oh! sr. Fradique!" deslumbra-me e faz-me sempre rir. Este escândalozinho que as pessoas deste país gostam de sentir, dissociando-se dele, fazendo questão de afirmar que são muito morais, muito decentes, muito queridas. É bonito. E não esquecer que vem tudo acompanhado de uma impecável, mais uma vez também muito decente, boa-educação, patrocinada pelas requintadas (e intrincadas) formas de tratamento da língua portuguesa - o "sr. Fradique", honorífico + apelido, não há cá primeiros nomes para ninguém.
As pessoas gostam de se enternecer, em Portugal. Gostam de pensar que são boas pessoas. E isso é bonito. Acho mesmo que sim.

7 comentários:

Zorze disse...

Eu diria até que é "bonitinho". É umas das nossas ideossincrasias que acho mais interessante. Gostamos de tudo em ponto pequeno.
Temos mini-mercados, mini-pratos e meias doses. O Portugal dos pequeninos. Comemos pastéizinhos, rissózinhos e bolinhos. Bebemos minis, e lambretas, sempre bem geladinhas. A mulher gostamo-la como a sardinha, pequena e roliça. O peixe esse queremo-lo fresquinho. Saímos ao Domingo para dar a "voltinha".
E não há mal nenhum. É disto que nós somos feitos. O problema é que estragamos tudo com coisas que não se fizeram para a nossa genética. Os maiores centros comerciais, os estádios de futebol mais inúteis. Os combóios mais rápidos. O jipe ou o descapotável mais caros.
Não dá. É demasiada areia para o nosso camiãozinho.
Por isso digo com muita pena que Portugal será sempre um paiszinho, uma promessa constante de país.

rui disse...

Oh! menina Rita!


(hihihi)

Fado Alexandrino disse...

Quando cheguei a Portugal em Agosto de 1974 fui, se não me falha a memória, ao Londres ver um filme.
Era o Brandos Costumes de Alberto Seixas Santos.
Fiquei absolutamente impressionado com aquilo que depois vim a descobrir já tinha sido explicado pelo O'Neill e que era a "vidinha".
Continuam quer a vidinha quer o filme quer este post absolutamente actuais.
E isso é muito triste.

Nota

O filme pode ser adquirido (se houver) numa colecção que o Público editou e tem o número 3 e tem além do filme o documentário Natal 71 de Margarida Cardoso e Noticiário da RTP do dia 25 de Abril.

Rita F. disse...

Caetano, o seu comentário está magnífico! Mas olhe, só não concordo com o facto de Portugal ser uma promessa constante. Acho que não é promessa nenhuma. É assim e pronto - assustador, não é?

Oh! Senhor Alme! ri-me tanto consigo! (além de que prefiro mil vezes o simpático "menina" ao antipático "senhora)

Fado, obrigada por ter deixado aqui a referência ao filme. Os ditos "Brandos Costumes" também têm muito que se lhe diga, não têm? Vou tentar arranjar o filme, interessa-me esta temática.

Zorze disse...

Lembrei-me de outra. O arroz malandrinho.

Destination disse...

E já agora... um cafezinho!

Xantipa disse...

O Seixas Santos contou-me (a mim e aos que estavam a fazer um curso de história do cinema, há muitos anos) que, numa das sessões deste filme estavam muitos estrangeiros: pensavam que o filme era sobre o guarda-roupa do Marlon Brando...
:)
Beijinhos!