terça-feira, 6 de abril de 2010

Ir ao cinema


Tive a sorte de, recentemente, poder ver Psycho no escurinho do cinema. Tudo colado ao écrã, cabecinhas espetadas, sem perder um único movimento do Norman Bates na sua fúria raivosa.
E isto para dizer que, sinceramente, o Anthony Perkins é mesmo bom actor. Verdadeiramente muitíssimo eficiente.
E também para dizer que nada é comparável a ver um filme no cinema. Nada. Os filmes foram feitos para serem vistos no escuro, com toda a concentração, sem telemóveis, telefones, televisão, internet, jornais, a atrapalhar. A cena do chuveiro, que eu tinha visto tantas vezes na TV, ganhou todo um novo impacto no cinema, onde os meus olhos apenas podiam olhar, sem descolar, para a pobre Janet Leigh a desfazer-se num grito estridente, a mãozinha estendida, a resvalar cortina abaixo. E os violinos descontrolados que acompanham as facadas, e o desvairado Norman Bates, com as roupas da mãezinha, que na TV já são quase um lugar-comum, transfiguram-se no cinema e regressam ao horror original.
O cinema é a melhor invenção de sempre. Ir ao cinema ver cinema (de preferência num daqueles a sério, onde não há pipocas à venda, tipo Monumental, King, Londres) e deixar os home theatres para mediocridades, é o que eu defendo.
E reiterar que o Anthony Perkins como Norman Bates é mesmo excelente. No cinema, é toda uma outra dimensão que projecta este actor, que realça a sua falsa doçura e a sua insanável loucura. Soube-me muito bem assustar-me verdadeiramente com este Psycho.

2 comentários:

José disse...

Olha, é engraçado, este post. Vi o filme há apenas umas semanas, e fiquei apaixonado pela interpretação do Perkins. Está mesmo, mesmo boa. Tem aquela qualidade das melhores interpretações do Monty. Até acho a maneira de eles representarem bastante parecida, devo dizer-te, assim tendo em conta que com o Perkins só devo ter visto este. Aquela «awkwardness» (lamento o anglicismo, mas é mesmo este o termo) é tão impressionante, que não deixo de acreditar piamente que o Perkins tinha que ser «awkward» (este já foi em nome da coerência, ih ih) também na sua vida real. Se não era, é um óptimo actor a fazer de «awkward». Carambas.

Quanto ao cinema, não partilho inteiramente. Eu acho que são experiências diferentes, ver um filme no cinema ou em casa, e não acho que uma anule a outra, pelo contrário, beneficiam a amiga. Gosto muito de poder parar os filmes, voltar atrás, rever cenas, etc, etc. É uma outra forma de ver cinema, também válida.
Posto isto, fiquei cheio de inveja de teres visto o Psycho no cinema. Carambas.

Rita F. disse...

Zé, que grande comentário!
A comparação entre o Monty e o Perkins está mesmo bem vista, concordo inteiríssimamente, apesar de também só ter visto um filme com o Perkins, que foi este. É isso mesmo, aquela awkwardness... muito bem visto.

Em relação a ver filmes em casa, para mim só serve se (1) o filme não prestar e eu quero ver à mesma, (2) já vi o filme antes no cinema e quero rever, andar para trás e para a frente, como dizes, (3) o filme é antigo e só dá mesmo para ver em DVD. No entanto, é claro que ver o filme em casa também é experiència válida - eu é que acho que é o parente pobre do cinema.
"beneficiam a amiga" - muito bom, ah ah! :)