segunda-feira, 12 de abril de 2010

Char-les Bu-kows-ki

Quando penso em Charles Bukowski, penso em várias coisas. Penso que não gostei nada do único romance que li dele, o Mulheres; penso nas várias pessoas que conheço que o adoram e que me deram alguma da sua poesia a ler (já gostei mais); penso em Roger Crumb, de quem sou fã, que ilustrou um livrinho-diário de Bukowski (The Captain is Out to Lunch...), do qual gosto muito (este livro, sim, tem coisas que me falam ao coração; por exemplo:



E penso, fundamentalmente, num episódio que presenciei na Barata da Praça de Londres já há uma data de anos.
Estava eu, calmamente, a espraiar os olhinhos pelos livros, quando, pelo canto dos mesmos olhinhos, vejo um indivíduo mais ou menos da minha idade, assim com aquele ar de intelectual esforçado, isto é: óculos pretos de massa, pesados, casaco de malha, barbicha. Nada contra; eu até reparei no indivíduo porque, na altura, os intelectuais esforçados era gente que me agradava. O tal intelectual dirige-se a uma das empregadas da loja e pergunta se ela pode ir chamar alguém que lhe dê uma informação, ao que a empregada diz que ele lhe poderá perguntar o que quiser. E diz então o intelectual esforçado, "olhe, então eu vou perguntar-lhe se tem alguma coisa de um escritor americano chamado Char-les Bu-kows-ki." Pronunciou isto muito devagar, a pensar que a rapariga não conheceria, com certeza, escritor tão obscuro. No entanto, a rapariga da livraria, despachadíssima, respondeu-lhe imediatamente que "do Bukowski", de momento, não tinham nada - tinha esgotado, estavam à espera.
Até aposto que o intelectual esforçado teve, naquele momento, o seu primeiro grande desgosto de amor. Ah, que afinal o Bukowski era homem de vários leitores, um vadio, tão vadio e popular que os livros até esgotam na livraria, os empregados da livraria até o tratam apenas pelo apelido, como a escritores do cânone, daqueles que toda a gente conhece. Ah, que afinal o Bukowski não era só para ele... e agora, como impressionar família e amigos com a menção de um tipo que, afinal, toda a gente lê?!
Há coisas que perdem toda a piada quando descobrimos que, afinal, também os outros se apropriam delas, sem nada que possamos fazer contra isso. Somos menos especiais ao percebermos que os outros, a arraia-miúda, gosta exactamente dos mesmos livros, dos mesmos escritores, da mesma música, e que a nossa identidade, cuidadosamente construída em torno de objectos exteriores que deveriam definir o que somos, se desmorona, fácil e fragilmente, só porque alguém também gosta, por exemplo, do Bukowski, ou da Ute Lemper, ou da Sarah Kane, ou daquele grupo afegão radicado na França que grava em Londres e tem um som electrónico-nu/pop-nu/jazz-house-blues, com uma leve influência soul. Quanto a mim, se encontrar outra pessoa que também goste deste grupo, deixo logo de os ouvir.
Isto para dizer que me disseram que uma boa opção seria ler Ham on Rye, do "Bukowski". O livro está, finalmente, na minha mesa-de-cabeceira, esperando eu que apague da minha memória a desilusão do Mulheres.

3 comentários:

José disse...

Sou fã destes posts em que quase a tua linha de raciocínio vai um bocado aos solavancos, mas depois tudo faz perfeito sentido. Para sempre Rua da Abadia, é o que eu digo.

manuel a. domingos disse...

vais ver que gostas... se não gostares... blame it on me :-D

Rita F. disse...

E Tio Vânia forever, pois claro. E "Imitação de Vida" também forever.

manuel, já estou a gostar muito. Aquele pai é horrível. Dá vontade de lhe bater.