segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Kicking Edgar Allan Poe


A névoa pesada e opressiva do fim de tarde caía já sobre mim quando por fim alcancei a aldeia.
Tinha ali vindo a pedido de um amigo que já não via desdes os bancos da escola, o Rodrigo de Ucher. A sua carta surpreendera-me deveras e produzira em mim um inexplicável efeito de algo iminentemente terrível que estava prestes a acontecer - em palavras delirantes, Rodrigo de Ucher clamava pela minha presença, afirmando que só eu o poderia salvar da situação alarmante em que se encontrava. Acedera prontamente, e, dois dias volvidos depois da recepção da carta, ali me encontrava, naquela pequena aldeia escura, dominada pela silhueta fantasmagórica da Mansão de Ucher.
Era uma casa medonha, repleta de sombras, que quase parecia desabitada. Os vidros reflectiam a frieza das águas do lago, a seus pés. Poderíamos pensar que se tratava de uma casa desabitada - uma fissura rasgava a enorme fachada de pedra descascada. Mas um olhar mais atento descobriria vagas sombras bruxuleantes por detrás das janelas, como se alguém, passivamente, maleficamente, aguardasse o seu momento...
Bati à pesada porta. Nada me preparava para o que ali iria encontrar.
A porta abriu-se. Ao invés de um soturno criado, a mais horrenda criatura espreitava por uma nesga. Quando me viu o semblante, porém, abriu a porta de rompão e atirou-se, medonhamente, para os meus braços.
- Ah, deve ser o amigo do Rodriguinho! Ai que bom que chegou!
Era uma mulher horrorosamente jovem, rotunda, gorda, de cabelo em pé, chinelos esfarrapados nos pés e exalando um terrível... cheiro a refogado! Oh, nesse momento compreendi o horror da vida do meu pobre companheiro Rodrigo, entrevado naquela lúgubre casa, com aquela mulher que lhe parecia ter carinho, que lhe limpava burguesamente a casa (nem um grama de pó em nenhum lado, e era uma mansão grande!), que cozinhava para ele e que... seria possível... esperava o seu filho! Uma onda de pavor paralisou-me. Demorou algum tempo até conseguir chegar à palavra com Rodrigo, sentado num imenso cadeirão, a fumar charuto, de bochechas rosadas, visivelmente mais gordo, refastelado à frente do écrã plasma, a tentar abstrair-se da sua lúgubre vida com cervejas e SportTV.
- Tu não sabes, meu velho, meu único amigo - gemia Rodrigo - Ela fala tanto... e já começou a decorar o quarto do bebé... aquelas cores claras... as almofadinhas... ela gosta de comprar anjinhos para espalhar pela casa no Natal!, e eu, no meu estado, com a minha sensibilidade... estar privado de companhia masculina... é mais do que a minha frágil constituição consegue suportar!
E, enquanto pronunciava estas palavras, eu contemplava Rodrigo, perdido na sua aflição penosa, e pensava em como o casamento o tinha tornado tão rosadinho e cheio como um pequeno leitão. Meu pobre, desgraçado amigo.
Decidi ler-lhe uma história, para o acalmar. E, por uns breves minutos, eu vi as suas grandes bochechas iluminarem-se num sorriso... até que pesados passos de refogado encheram as escadas, alegremente, e uma voz medonhamente chilreante chamou:
- Môôô-ôôôr! O jantar está pronto! É carne assada com batata frita e ovo a cavalo, como tu gostas! Traz o senhor Edgar!
Rodrigo de Ucher olhou para mim e revirou os olhos, agastado. Eu encolhi-me, sem saber como ajudar o meu pobre amigo. Ambos sabíamos que era aquilo, aquele pavor em espiral, o refogado, o "senhor Edgar", o "môr", o princípio do fim, a queda, irremediável, da Casa de Ucher.

(não é para o pontapear; é só mesmo para deixar a minha mui singela homenagem ao Grande.)

2 comentários:

José disse...

Pobres dos Rodrigos que por aí andam... O pior é que muitos até gostam. Não conseguem imaginar a vida de outra maneira. Penso eu de que.
(tens «vidos» no teu post ;) )

Rita F. disse...

Já emendei, muito obrigada. :)

Eu tenho mas é a certeza. Nem sequer é pensar de que. Mas tudo bem, cada um é como cada qual. Era um pouco esta a mensagem que eu, tal como o Edgar, queria aqui transmitir.