terça-feira, 2 de julho de 2013

Televisão vs cinema

A propósito deste post do Tolan, lembrei-me de uma coisa de que já queria falar há algum tempo, e que concerne toda a problemática das séries de televisão, mormente séries de televisão vs cinema. É uma problemática que concerne, de facto. 
Bom, e agora que já não me apetece andar a brincar com palavras caras, e além disso feias, vou passar à temática (rima com problemática) que me leva a escrever o post, que é então séries de TV. Há uns anos atrás (não vejo aqui erro nenhum, estou já a avisar; quanto muito vejo um pleonasmo, mas erro gramatical em "há anos atrás", sinceramente, não vejo), dizia, há anos atrás a televisão era um parente mais que pobre, paupérrimo mesmo, do cinema; quando os actores passavam do cinema para a televisão, era sinal de que a carreira estava no último fôlego, como aliás se vê pela pobre Mira Sorvino, excelente actriz que depois do Óscar passou a filmes de cinema da treta, depois a filmes de TV da treta e hoje ninguém sabe dela. Eu, pelo menos, não sei.
Hoje em dia (isto também está mal, é? Se "há anos atrás" é erro, porque é que "hoje em dia" também não é? Não se devia dizer só "hoje"? Pois, pois.), dizia, nos dias de hoje (melhor), a televisão está melhor do que nunca, com séries irrepreensíveis, direcção de actores impecável, narrativas complexas, muitíssimo bem escritas. É claro que isto não se passa com todas as séries de televisão, mas passa-se com muitas, a saber Sopranos e o Wire (deve haver outros exemplos mais recentes, mas eu continuo fixada nestas duas séries, em respeito maravilhado). Enquanto o cinema americano se embrenha em filmes inanes e adolescentes a 3D, a TV recompensa o adulto cota. Como dizia Pedro Mexia na sua crónica sobre a morte do querido James Gandolfini, há umas semanas atrás, os Sopranos trazem-nos a televisão adulta, complexa. Por acaso, esta crónica de Pedro Mexia está bem interessante, principalmente quando fala da tristeza que Gandolfini trazia à personagem de Tony Soprano, aquela sensibilidade magoada que às vezes víamos no seu olhar e que nos fazia gostar dele. Coitado do homem, quero lá saber se ele é padrinho da Máfia, ele até é boa pessoa, pensava eu. Até pensava mais - ele é mesmo boa pessoa. 
E, quanto a mim, o grande triunfo da televisão americano é precisamente este - o de criar personagens tão bem concebidas, intrincadas numa narrativa tão desenhada, que, durante aqueles 40 minutos em vemos o episódio, acreditamos que elas são mesmo pessoas, e não o produto de uma qualquer imaginação para vender a série e ganhar dinheiro. A força da personagem é cada vez menos conseguida no cinema, penso eu, e cada vez mais conseguida na televisão. As duas personagens maiores, para mim, são Tony Soprano e, principalmente, Omar Little do Wire. O Wire é uma série num tom muito mais documental (o próprio criador da série, David Simons, disse estar muito mais interessado no género do documentário do que no da série), de modo que a vida íntima das personagens, as suas redes familiares, de afectos, as suas tormentas mentais, são pouco exploradas, ao contrário do que acontece nos Sopranos, herdeiro mais directo da telenovela e que retirou deste género todas as vantagens, livrando-se de todas as desvantagens. No entanto, a força da personagem está bem presente no Wire, de Avon Barksdale a este magnífico, avassalador Omar Little, justiceiro, traficante de droga, gay, orgulhoso da sua vida de crime, seguidor fiel do código de valores que cria para si próprio (nunca envolver "civis"), absolutamente arrasador no seu longo casaco de abas ao vento, espingarda ao ombro, a entoar um assobio que faz com que toda a gente corra para casa para não se deparar com ele. Nunca vi coisa mais épica em televisão. 
E é assim, às vezes vale mais a pena ver uma série do que ir ao cinema, infelizmente. Digo "infelizmente" porque, apesar de tudo, cinema é cinema e nada se compara. 

3 comentários:

André - www.apaisana.com disse...

Há quem diga que os Sopranos dão início à Nova Idade de Ouro das Séries norte-americanas - mantendo-se como a melhor de todas. Não discordo, mas o The Wire, para mim, está noutra realidade. The Wire é uma anomalia, uma série com uma ambição e premissa que não fazem sentido no contexto da televisão comercial, que consegue ter sucesso (limitado) e manter-se nas franjas sistema, sendo mais do que um fenómeno de culto, porque todos os seus temas não deixam de ser 'mainstream'. Curiosamente, e embora não discuta a validade da comparação com o género documentário, parece-me que a maior ambição do The Wire é aproximar-se a um romance, a um livro. A maneira como somos "largados" na série, a forma subtil com que as personagens e os seus micro-cosmos são desenvolvidos (o desenvolvimento está lá, não segue é os padrões da televisão comum), a maneira como são descartados todos os clichés das séries do género, etc.etc, e o arco perfeito de todas as cinco séries. Há quem diga que o David Simon estava a "escrever" a sua 'great american novel' (ele não, que é um tipo modesto).

E, claro, o Omar Little. O facto de uma série marcadamente "realista" conseguir fazer passar a ideia de que existe uma espécie de robin hood meets aquiles, negro, gay, com pinta de cowboy, e torná-la verosímil (embora seja inspirado numa figura real), é de uma audacidade incrível. Mas funciona. The Wire. Melhor série de sempre. Talvez me tenha entusiasmado um bocado. Mas é sempre bom encontrar um(a) fellow Wire fan.

fernando disse...

Adorei o The Wire, a Omar Little é fabuloso, considero a melhor serie que vi.

Curiosidade, os genéricos das diferentes temporadas são acompanhados pela mesma música "Walk with the devil" embora executadas por artistas ou bandas diferentes, com os seus ritmos e entoações próprias.

As temáticas, 1ª Ruas Baltimore, 2ª Porto de Baltimore, a 4ª a Escola (nos 1ºs episódios), na 5º Politica e os Jornais, são muito interessantes e bem exploradas, inovam mas seguem uma linha facilmente perceptível por todos os que a acompanham.

As personagens são todas bastante profundas, não és apenas bom ou mau, apesar das diversas reviravoltas, não há penso eu, em nenhuma acção de um personagem uma razão que não seja plausível,ou seja todas as acções estão justificadas em menor ou maior grau por algum factor. O que a torna real e com a qual nos identificamos, excepto talvez o "shiiit" do senador Clayton Davis.

Rita F. disse...

André - sim, de facto o Wire faz lembrar o Guerra e PAz :) O desfile imenso de personagens, a descrição profunda do seu contexto social, da sua condição no mundo, e o tal "arco perfeito" é, de facto, muito à grande romance. Concordo.
Quanto a Omar Little, eu adorava (adoro) a personagem precisamente por essa índole de Robin Hood que ele consegue ter no mundo miserável em que vive. Um herói, verdadeiramente, valoroso porque tem valores. No entanto, (SPOILERS) a forma como morre é a destruição disso tudo - o mundo é uma bi-atch, onde até uma pessoa boa, heróica, como o Omar pode morrer sem glória, alvejado pelas costas por um miudinho. Horrível, sob qualquer perspectiva. Aliás, no mesmo episódio em que Omar morre (e que me chocou imenso; eu até dizia que no dia em o Omar morresse, eu parava de ver a série, mas claro que não o fiz e ainda bem), os jornalistas têm de escolher entre escrever sobre a sua morte e sobre um incêndio qualquer (que até aparece no genérico) - escolhem o incêndio. Cold shit.

Fernando, a música do genérico é do Tom Waits, acho eu. Só classe! A minha versão preferida é a da primeira série, acho eu. Mas gosto de todas, não consigo decidir. O shiiiit do Senador é o trademark desse actor - também faz isso na Última Hora do Spike Lee, e apesar de ser num contexto triste, dá vontade de rir. :D