segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O complexo-Ashley Wilkes

Ashley Wilkes é uma personagem de Tudo o Vento Levou, e das mais desprezíveis que eu já vi em cinema. Quem já viu o filme sabe porquê, mas para quem ainda não viu, eu explico - a protagonista do filme, Scarlett O'Hara (insuperável Vivien Leigh) passa o filme perdida de amores por este Ashey Wilkes, que como ela é herdeiro de uma enorme plantação do sul dos EUA, até rebentar a Guerra Civil e perderem tudo. O Ashley Wilkes encoraja, de forma subtil e melosa, o amor de Scarlett de tal forma que esta até pensa que ele a vai pedir em casamento e tudo, até descobrir que Ashley vai mas é casar com uma prima, a impossivelmente boazinha Melanie. Scarlett fica destroçada, não tem outro remédio senão ir casando com outros homens para se entreter, ainda por cima ela que é dura, fogosa, deslumbrante, mas sempre que confronta Ashley com as cinzas do seu amor, ele diz-lhe "oh, gosto tanto de ti, oh, lembro-me de ti quando eras menina, cheia de pretendentes, e tenho tantas saudades, oh, és tão maravilhosa", e o resultado obviamente é Scarlett pensar que ele gosta tanto dela como ela dele, apesar de Ashley estar casado com outra e gozar de um casamento feliz. Entretanto, o último marido de Scarlett, um canastrão absolutamente delicioso chamado Rhett Butler, ama-a perdidamente até que perde a paciência, diz-lhe "frankly, my dear, I don't give a damn", e vai à sua vida à procura de uma mulher que o faça feliz e que não desperdice beleza e juventude com arremesos de cio adúltero para cima de homens inanes como Ashley Wilkes. O trágico disto é que, no momento em que Rhett se vai embora, Scarlett percebe que perdeu a vida toda em perseguição de um amor que não existe, que Ashley nunca gostou dela, que ela gosta verdadeiramente do marido Rhett, e que agora é tarde demais. A oportunidade passou.
Onde é que eu quero chegar com esta história toda? Quero chegar a isto - há pessoas, como Ashley Wilkes, que enfermam desta cobardia subtil, que nunca assume nada, e que portanto também não tem de recusar nada. Isto é particularmente grave quando, por via deste modus operandi, conseguem que as outras pessoas passem a vida toda à espera deles. Se há alguém com a miséria de se apaixonar por eles, os Ashley Wilkes desta vida rebolam-se na adoração, porque adoram ser adorados; não querem é ter de assumir nada, e se a pobre mulher se tenta libertar, eles arranjam maneira de apertar a corda à volta do seu pescoço, "ah, mas eu tenho tantas saudades tuas", "ah, eu adoro-te, tens é de me dar tempo", e etc. e tal.
A Scarlett passou a vida toda à espera de um homem que nunca foi forte o suficiente para lhe dizer na cara que não queria nada com ela, nem decidido o suficiente para ser adúltero e assumir um affair, um divórcio, o que fosse. Estes homens (e mulheres, porque também há mulheres assim) são uma espécie de lesmas peganhentas que não sabem por onde ir e agarram-se ilegitimamente à afeição dos outros, como parasitas. E o pior é que conseguem, por vezes, que lhes dêem muita afeição, porque na verdade toda a gente quer ter alguém na sua vida, e o Ashley Wilkes disfarça bem o cobardolas que é.
Quem se deixa apanhar por esta gosma tem de ter a presciência e consciência de dizer que não, sob pena de perder aquele momento da vida que nunca mais se repetirá, e que nos passará ao lado por perdermos tempo com a pessoa errada. Mas as ilusões conseguem ser quase tão poderosas como a realidade, e dizer que não, às vezes, é difícil. Este post é só para dar uma fórcinha, como diria o grande Herman. Fim.

Sem comentários: