quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A qualidade que resiste ainda e sempre ao invasor

Há um certo argumento quantitativo que me irrita bastante, mormente porque discordo absolutamente dele mas não tenho inteiramente a certeza de estar errado. Isto é muito desconcertante.
Por exemplo, quando passava aquela série, Friends, costumava dizer-se que "40 million viewers can't be wrong"; havia quem criticasse a série (eu, por acaso, achava bem gira), e que uns quantos pobretanas não podem viver em Nova Iorque com um estilo de vida tão bom, e que não era realista, e que além disso era tudo filmado em Los Angels, e etc. e tal, e respondia-se a isto com o tal argumento da quantidade - se há tanta gente que vê o programa, seguramente que haverá algo de qualidade no mesmo. Como se a quantidade acarretasse, por si só, a qualidade.
Recentemente, ouvi argumento semelhante relativo ao livro 50 Shades of Grey. Estava a falar disto com alguém, entretida nas diatribes do costume, "bem, eu nunca hei-de ler o livro, já se sabe que é uma grande merda, e a mulherzinha que o escreveu é uma bimba que nem ler sabe e etc. e tal", e respondem-me, "dizes isso, mas há milhares de pessoas que leram o livro e que gostaram. Essa bimba deve estar a fazer qualquer coisa bem".
Fiquei desconcertada com isto. É que fiquei mesmo. Por um lado, diz-me o coração que este argumento está profundamente errado - o Van Gogh, por exemplo, nunca vendeu nenhum quadro na vida, não apelava às massas, e se este tipo de lógica da quantidade lhe tivesse ocorrido, com certeza que em vez de uma orelha cortava logo as duas, mas era. Por outro lado, o mesmo Van Gogh, hoje em dia, goza da sua merecida glória, tornou-se um artista reconhecido pelas massas, e o mesmo se pode dizer de outros artistas soberbamente bons a quem o tempo, acompanhado pela quantidade, isto é, pelo número de pessoas que os reconhecem, fez justiça. E será verdade que, fosse o 50 Shades assim tão mau, haveria tal número de pessoas a lê-lo e a apreciá-lo?
Haveria, sim, Haveria porque aquilo a que a contemporaneidade presta atenção é, muitas vezes, lixo do qual ninguém se lembra daqui a dez ou vinte anos. O facto de toda a gente ler o livro da tal bimba não quer dizer nada (se percorrermos a lista de best-sellers e, até, de poetas laureados em Inglaterra ao longo do século XIX, por exemplo, verificaremos que hoje em dia ninguém se dá ao trabalho de ler metade). Se, porém, ainda houver muita gente a ler o livro daqui a cem anos, talvez isso signifique alguma coisa "no que concerne" à qualidade do mesmo livro. 
De modo que a conclusão que eu retiro de tudo isto é que esta história da petição absurda contra o abate do cão que matou um bebé não quer, felizmente, dizer grande coisa. Há idiotas em todo o lado que, como diz o Ricardo Araújo Pereira, gozam de liberdade de expressão para a gente os poder identificar e ficar a saber que são idiotas. A quantidade de gente que assina a petição não muda as leis gerais e abstractas que nos regem, nem muda o valor absoluto da vida humana. A qualidade resiste à quantidade. Por enquanto. 

4 comentários:

stiletto disse...

Concordo plenamente. No meu local, onde trabalham só mulheres, a maioria já leu e estão sempre a tentar convencer-me a ler mas eu não caio nessa. Quanto à petição, o que mais me impressiona é que não se veja esta mobilização para outras causas.

Rubi disse...

A quantidade nem sempre é sinónimo de qualidade, nem a qualidade feita para a quantidade. Há fenómenos que se tornam virais simplesmente porque as pessoas têm curiosidade ou se identificam com a história ou sentimentos. Também não irei ler essas 50 sombras, nem li o Da Vinci Code, simplesmente porque tenho repulsa por títulos que toda a gente lê. Mas, por exemplo, o 'Comer, Orar e Amar' foi um bestseller, não é nenhuma obra da literatura mas gostei da história pessoal, identifiquei-me com o percurso da escritora e com as suas batalhas.
Mas há realmente fenómenos ridículos e que não percebo, como as audiências de big brothers e casas dos segredos e afins, ouvir a verborreira de pacóvios. Nunca vi nem quero!

Luna disse...

Amen.

(e nao, quantidade não quer dizer qualidade, apenas denota que há mais gente estúpida do que geralmente pensamos, aliás como me foi dado a mostrar nos ultimos tempos com a trilogia Pepa/Zico/dador)

(oh mulher, tira-me a verificação de palavras que eu nao vejo nada)

bea disse...

É isso: a vida humana é um valor absoluto, qualidade inestimável. E ponto.

Hummm...ainda hoje amo a série Friends. Porque me faz rir. Ainda. no mundo das pepas e zicos e quejandos que haverá ad eternum, convenhamos não é fácil rir de boa mente. Esperemos que num ou noutro momento da vida não façamos grupo com :). É que estão sempre de dedo no ar.