segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Para sempre responsável por aquele que cativaste


Tenho alguma dificuldade em perceber o que é a amizade. Consigo senti-la, porque, felizmente, não sou psicopata nem sociopata, acho eu, mas compreender a amizade é algo que efectivamente me escapa.
Uma querida pessoa, daquelas poucas que me são muito próximas, dizia-me noutro dia que não devemos esperar muito dos amigos, ou, pelo menos, não devemos cometer aquele erro comum de esperar tudo dos amigos. Normalmente, queremos que os amigos nos telefonem, nos levem a passear e a tomar café, ouçam os nossos problemas, partilhem da nossa comiseração, rejubilem com o nosso gáudio, riam connosco, chorem connosco, leiam os livros que nós queremos que eles leiam, que nos dêem a nós livros interessantes para ler, que venham connosco ao cinema, que nos reconfortem nas neuras e nos desgostos, que nos tenham em altíssima conta, que venham às compras connosco e aprovem todos os sapatos e camisolas de que gostamos, que nos admirem e que sejam eles próprios admiráveis. Não será muito a exigir de alguém? Com certeza que sim. Dizia-me, então, essa tal querida pessoa que devemos distribuir todos estes encargos por amigos diferentes, de índole diferente. Há amigos que são bons para telefonar, outros para conversar sobre desgostos, outros para conversar sobre alegrias, outros bons para ouvir, outros bons para ficarmos calados, outros bons para viajar, outros para ir jantar fora, outros para ir ao cinema, etc. É muito raro termos daqueles amigos que dão para tudo.
À partida, eu concordaria com esta teoria interessante da economia da amizade e de aplicar o investimento nos sítios certos. Mas a verdade é que esta teoria não funciona. Por estranho (e lamecha) que pareça, um amigo é esta espécie de super-homem ou super-mulher que está na nossa vida para as coisas mais normais e mais bizarras que nos possam acontecer, desde comer um hamburger até a encontros imediatos de terceiro grau. Por isso é que me custa a acreditar, ou a aceitar, neste conceito de amigos não para as ocasiões, mas apenas para certas ocasiões.
No entanto, esta polivalência da amizade, esta versatilidade inesgotável, a quantidade de papéis diferentes que os amigos acumulam, é algo que, para mim, permanece um mistério bem cerrado. Como pode alguém fazer tanta coisa ao mesmo tempo? Já para não falar na semelhança entre a amizade e as relações amorosas - há poucos dias, falava com uma amiga sobre o possibilidade, ou não, de dois amigos poderem "acabar" um com o outro, como se fossem namorados. Nunca se diz "A não-sei-quantas era minha amiga, mas depois acabámos e já não nos falamos", por exemplo. No entanto, a amizade tem rupturas, discussões, ciúmes, tal e qual como aqueles que temos com os nossos namorados.
A vida, e a amizade, são lugares estranhos.

5 comentários:

Margarida disse...

subscrevo (tanto)

Rita F. disse...

:)

Quanto mais penso nisto, mais estranho me parece.

José disse...

Aprecio especialmente a teoria da tua querida pessoa amiga. Diria que ajo um pouco assim, pelo que concordo com ela. Não há ninguém de quem se possa esperar tudo. Quando esperamos, seremos desiludidos, e depois acabamos.
No fundo, o potencial melhor amigo somos nós próprios, porque assim nunca há conflito de interesses.
Bom, a vida é um melodrama.

Rita F. disse...

Zé, isso é verdade, esperar tudo de alguém leva a grandes desilusões. Mas é possível não esperar nada e depois receber mais do que se estava à espera.
O que também tem grande potencial melodramático, diria mais, dramalhão, mesmo.

Sentimento de Mim disse...

Ninguém é capaz de ser o amigo para tudo. Uns prestam-se mais para umas coisas que outros, outros nem sabem ser amigos. Há que retirar de bom o que cada pessoa tem.