sábado, 16 de janeiro de 2010

O que acontece quando se desiste, definitivamente, de ser brilhante


Há alguns dias, eu e a minha amiga Alexandra estávamos a discutir a sorte que ambas temos em ser pessimistas, porque, paradoxalmente, ou talvez não, há muito mais humor no pessimismo do que no optimismo. Não me consigo lembrar de nenhum humorista ou escritor com piada que seja optimista, talvez porque o optimismo não nos deixa esperar grande coisa da vida. Se vai tudo correr bem, independentemente de, está tudo tranquilo. Ora, eu penso que é precisamente no "independentemente de" que reside o grande interesse da vida e do pessimismo. A Alexandra concorda comigo (acho eu).
Bom. Isto para dizer que o meu pessimista preferido de sempre é Woody Allen. Por mais filmes sofríveis que ele faça, eu continuo a gostar dele. Mas devo dizer que este último, "Whatever Works", deixa bastante a desejar. Como seria de esperar, há alguns monólogos interessantes do personagem principal, interpretado por Larry David, e que, à partida, poderiam salvar o filme.
Mas não salvam."Whatever Works" é uma dúzia de personagens a despachar falas, de tal modo que, por vezes, parecem estar a ler do teleponto. O pessimismo negro de Larry David (cuja combinação com Woody Allen, à partida, me pareceu brilhante) não convence ninguém, pior do que isso, nem sequer chega a ter piada - e isto é o pior que Woody Allen poderia ter feito. Chegar ao ponto de fazer filmes que, ainda que repetições medíocres e ad nauseam de filmes anteriores, não têm, pura e simplesmente, piada. Nem Larry David, normalmente tão cínico e cáustico, em teoria o perfeito alter ego de Woody Allen, tem graça.
Há, porém, algo que Larry David diz no filme e que é interessante: "on paper, we're perfect. But life isn't on paper". Tal e qual como este "Whatever Works" - em teoria, uma excelente ideia. Mas a vida não é em teoria. O que não deixa de ser uma pena.

2 comentários:

José disse...

Carambas. Eu gosto tanto do que vi do Woody, mas vi menos de metade dos filmes dele. Eu acho que é porque tenho andado a lutar contra o cinismo e a ironia, nos últimos anos, sabes? Mas como decidi que vou deixar-me disso, talvez o Woody Allen venha a fazer parte activa do meu dia-a-dia.
Tenho cá uns poucos dele que ainda não vi. Creio que o próximo será o "Love and death", já viste?
Destes últimos só vi o Vicky... Achei uma delícia. Uma coisa com os filmes do Woody é que nunca me deixam louco de êxtase. Parecem-me sempre experiências incompletas. Isso não é mau, quando um tipo tem tanta coisa para a gente explorar, mas é curioso. É um bocado como o Fassbinder. Assim de repente, só um dos seus filmes entraria na minha lista dos filmes da vida, e não deixa de ser um dos meus realizadores preferidos por isso.
Bom, desculpa lá, quero é conversa. Continua a ser pessimista, se o pessimismo te convém. Não esqueçamos, no entanto, que há o pessimismo saudável e o doentio. O do Allen é do saudável, é produtivo. Não esqueçamos que muita gente vive embrenhada no pessimismo doentio, que é verdadeiramente destruidor. Que o Acaso nos livre e guarde dele.

Rita F. disse...

Eu acho que o pessimismo que não é saudável acaba por ser mais depressão que outra coisa. Mas não sei, não sou psiquiatra.
Não vi o "Love and Death", mas normalmente costumo gostar muito dos filmes antigos do Woody. Todos os que vi, até chegar ao "Deconstructing Harry". Acho que este foi o seu último grande filme. Vale muito a pena ver, quanto a mim.
Quanto ao Vicky, também já escrevi sobre ele. Não morro de amores, mas é um filme que se vê bem, e comparando com este Whatever Works, é com certeza melhor. Tenho de ver outra vez, até.
No entanto, o Woody Allen tem pérolas que têm todo o currículo para fazer parte integrante da vida de qualquer pessoa - Manhattan e Annie Hall, pelo menos. Lindos, os dois.
E pronto, assim concluo. Acho bem que não lutes contra o cinismo e a ironia. São coisas interessantes, criativas. Mas enfim, que sei eu, não é... :)