quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Genéricos geralmente

Eu gosto muito de genéricos, porque considero que são uma parte importantíssima de qualquer filme ou série. Quando bem feitos, entusiasmam, comovem, criam uma pré-disposição para assistir ao que se segue com atenção e, mais importante, no estado de espírito correcto. Veja-se o genérco do grande Twin Peaks, que comecei a rever ontem e que já me deu pesadelos (quando mais velha estou, mais mole fico) - a banda sonora fantasmagórica (e  incomparável), a sequência vagarosa da serração, dos bosques, da queda de água, tudo para o espectador ficar logo meio nervoso, meio interessado no que se vai passar.
Assim sendo, e seguindo John Cusack no necessário High Fidelity, deixo aqui o meu top 5 dos genéricos de séries que, para mim, são dos melhores que já vi. Quem ainda ler isto e quiser dar a sua opinião, faça favor. A lista está mais ou menos por ordem de preferência, mas é flexível (e é lista de genéricos, não propriamente de séries, embora normalmente um bom genérico corresponda a uma boa série):

5. True Blood


4. Luther


3. The Wire
(o vídeo abaixo tem os genéricos das temporadas todas)

 

 2. Sopranos


1. Twin Peaks

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A questão que Stringer Bell levanta (SPOILERS)

Stringer Bell é uma personagem do The Wire, um criminoso de rua muito cruel e muito mau que ganha rios de dinheiro a vender droga, juntamente com o seu companheiro de rua e irmão de vida Avon Barksdale. Bom. A uma certa altura, Stringer decide que quer uma vida mais legítima, isto é, transformar o dinheiro ilegal que tem num negócio que lhe continue a dar dinheiro, mas que seja legal aos olhos da sociedade. Ele, Stringer, não se torna numa pessoa melhor, o seu coração não adocica, nem reconhece a ordem social - apenas considera que tem mais a ganhar se deixar de vender droga nas esquinas. Vai daí, enceta esforços para se tornar um magnata do "real estate", o que implica subornar gente de toda a espécie, mormente políticos, que têm a particularidade de serem ainda mais corruptos do que ele. E o pobre Stringer iludido, a pensar que não havia ninguém mais empedernido do que um homem como ele, que construiu o seu império nas esquinas de droga dos guettos de Baltimore...pobre coitado.
Passa-se, então, que Stringer Bell gasta rios de dinheiro a tentar legitimar o seu negócio, dá dinheiro a um senador que o esmifra e ainda se ri dele, e não consegue, de forma nenhuma, ultrapassar o estádio em que está - vendedor de droga do guetto. O seu amigo Avon, que sempre recusou ultrapassar a sua condição e ser qualquer outra coisa que um 'soldado das ruas', diz-lhe qualquer coisa como "they saw your ghetto ass coming miles away", e Stringer Bell responde com fúria.
Quando Stringer morre, o detective que passa a série toda atrás dele, McNulty, passa-lhe revista à casa e depara-se com um apartamento lindo, organizado, com um pequena biblioteca onde figura Wealth of Nations, de Adam Smith (anteriormente na série, mostrara-se Stringer Bell a ter aulas de economia à noite). E interroga-se McNulty - quem é que eu andei verdadeiramente a perseguir estes anos todos?
E interrogo-me eu - o que nos demonstra a história de Stringer Bell? Demonstra-nos que a vida (sim, eu sei que é uma série de televisão, mas pronto) não é assim tão diferente dos romances naturalistas em que as personagens são afundadas pela força da sociedade. Stringer Bell, à sua maneira, tenta aperfeiçoar-se e não consegue - o peso da sociedade, ainda pior do que ele, mais corrupta, mais dura, cai-lhe em cima e ele morre na derrocada. E enfim, com a vida como está, com esta crise toda, que é moral e social ainda mais do que financeira (e aqui reside, penso eu, o verdadeiro perigo da crise), não posso deixar de pensar que Stringer Bell quer dizer muita coisa. Quer dizer que a chamada "mobilidade social" deixou de existir, se alguma vez existiu. Quer dizer que é cada vez mais difícil melhorar, ultrapassar a nossa condição. É verdade que podemos não o querer fazer, mas também é verdade que podemos querer ser mais, viver mais, e não conseguir, porque há muito contra nós.
Mas enfim, talvez seja apenas o meu conservadorismo a falar. Espero bem estar profundamente errada, e além disso também já não tenho mais tempo para escrever mais, de modo que fica assim.
Adenda: descobri este artigo giro, quanto a mim de interesse para quem gosta do The Wire.

'Death Comes to Pemberley', de PD James - um pequeno apontamento.

Bom. Já escrevi que gosto muito de PD James e dos seus livros entusiasmantes, e que aprecio a forma como ela respeita as suas personagens, aprofundado-lhes a psicologia, coisa que nem sempre acontece nos romances policiais. A PD decidiu, em 2011, escrever uma sequela a Pride and Prejudice, de Jane Austen, já que é grande admiradora desta escritora, e até aqui tudo bem. A premissa é, então, a de que acontece um grande e horrível crime em Pemberley, o casarão de Mr Darcy e Elizabeth, já depois destes se terem casado e viverem em felicidade matrimonial.
Antes de ler o livro, o receio que tinha era que este 'Death Comes to Pemberley' resultasse num esforço de imitação algo desajeitado. Depois de ler o livro, posso confirmar que resulta num esforço de imitação algo desajeitado. Nada a apontar ao enredo - a PD tece uma trama excelente, um crime enredado, e a gente entretém-se a ler. O estilo de escrita é que é difícil de digerir - um inglês propositadamente formal, de vocabulário propositadamente antiquado, formas de tratamento propositadamente rebuscadas (a palavra-chave, aqui, é "propositadamente", só para que fique claro; é que, quando a escrita nos parece propositada, estamos perante um mero exercício de estilo sem grande criatividade, que é o que se passa com este livro). A PD quer, como se compreende, tentar escrever como a Jane Austen para dar um tom realista ao livro, já que não faz sentido que o Mr Darcy e a Lizzie falem com um casalinho que vai ao centro comercial comprar um plasma. No entanto, o problema é que a PD não é a Jane Austen, e isso, tristemente, nota-se. De modo que toda a escrita é um esforço demasiado, quase absurdo, e é pena, porque acaba por estragar o resto.
A mimesis, dizia Aristóteles, é mais do que imitação, é representação (e, logo, criatividade também). Mas eu acho que a PD, com este livro, esqueceu-se ligeiramente deste conceito e ficou-se apenas pela imitação que, como todos sabemos, não aproveita a ninguém. Mas hei-de continuar a ler tudo o que escreve, e nota apenas para dizer que tenho curiosidade em saber como ficou a tradução portuguesa, nomeadamente se mantém este ar forçado, encafuado, do original - se alguém tiver lido, comentariozinho, assim o ajude engenho e arte. Obrigada e até a uma próxima. 

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Before Midnight - pequeno comentário (SPOILERS)

Vi, finalmente, o Before Midnight, com grande entusiasmo, muito contente por saber que o Jesse e a Celine se tinham casado e tinham tido bebés e tudo (aleluia!). Bom. Na verdade, este post é um bocado supérfluo porque concorda com a maior parte das observações que vi escritas sobre o filme na imprensa - nada mal, um retrato quase fiel, algo desiludido, do desgaste do casamento, e etc. e tal. Sim, penso que é isso. Exageraram em certas coisas, penso eu - a Celine tornou-se numa louca desvairada, por exemplo (basta dizer que passa seis semanas numa Grécia eternamente deslumbrante e diz que nunca lá queria ter ido. Louca insana). Quando o marido lhe diz que ela é uma grande doida e que, se não fosse ele, não encontrava ninguém que a aturasse por mais de 6 meses, penso que tem uma certa razão. Por outro lado, Jesse, menos ideal, mais feio, mais magro, mais mal vestido, mais quarentão, é um retrato honesto do envelhecimento, do chegar àquela tal idade dos quarenta, que é tão complicada, assustadora (ouço eu dizer, porque felizmente ainda não sei, ah, ah, ah). A quase confissão de infidelidade, de ter enganado a Celine uma noite quando andava ocupado a fazer promoção ao livro, é triste, mas parece-me realista, e a posição da mesma Celine, que lhe diz que para ele é fácil falar quando é ela que organiza tudo em casa, as filhas e etc., faz todo o sentido. Parece um rol interminável de queixas, mas não deixam de ser verdadeiras, e portanto é preciso saber o que fazer. Eles, Jesse e Celine, ainda estão a descobrir. 
Não gostei do cinismo todo que o filme lança sobre o casamento, aquelas conversas parvas a desvalorizar o amor, e que o amor não sobrevive como as pessoas pensam, e que a amizade é tão mais importante, e que ao fim de x anos as pessoas já não se podem ver à frente, ou até podem mas têm de ser muito independentes, e isto e aquilo. Aquele senhor velhote que era dono do hotel onde eles estavam irritou-me imenso com esta conversa, por exemplo. Que homem irritante, cuja única coisa que tem a dizer sobre a mulher falecida é "eu ainda aqui estou, e ela não". Olhe, que bom para si. Se o casamento é assim tão mau para vocês, parem de falar e divorciem-se, mas não assumam que a vossa experiência triste é igual para toda a gente. 
No entanto, o final do filme é optimista, o que de certa forma desmente este cinismo insuportável. E sim, há desgaste, mas lidar com o desgaste faz parte de querer, ou não, continuar um casamento (uma união, o que seja). E o filme mostra que é possível ultrapassar dificuldades interpessoais se a pessoa estiver disposta a muita ginástica.
Eu, que preciso imenso de ginástica e de emagrecer uns dez quilos (é um facto científico), estou mais do que pronta, portanto gostei do filme. Fim. 

Coisa que não compreendo: "trata"

Não é que não compreenda o "trata"; o que não compreendo é porque é que eu sou a única pessoa que tem de apertar a cara para não rir quando vê um carro a circular com o aviso "trata - número de telemóvel qualquer". Às vezes, não é só em carros, também é em terrenos - "trata", seguido de número de telefone. E casas, também - "trata". E motas - "trata". E lojas vazias - "trata".
Passei décadas sem perceber isto. Mas porque é que as pessoas não escrevem "vende-se", que é mais explícito e com certeza cumpre melhor o objectivo delas, que é efectivamente vender qualquer coisa? Porquê o "trata"? Trata de quê? Se eu puser "trata" no carro, quer dizer que sou mecânico, que trato de carros? Se puser "trata" num terreno, quer dizer que sou guarda-florestal e dou uma perninha como empreteiro e tipo, trato da casa e do jardim? Trata o quê?
E pensei nisto e pensei nisto e voltei a pensar, e gostava de pensar nisto, porque me fazia rir, mas sempre sem perceber (não podia ir ver à wikipedia porque nessa altura não existia internet). Até que comentei a temática com alguém mais esperto que me informou que, por razões legais, os particulares (isto é, os cidadãos particulares) não podem andar por aí a expor sinais de "vende-se" ao Deus-dará. Não, não. Tem de ser "trata", de "trato próprio", ser o próprio a tratar e isso. E isto de facto faz sentido, porque lembro-me de, durante muitos anos, as pessoas escreverem "trata o próprio", e não apenas "trata". Qual é a ideia de reduzir a expressão deste modo, tornando-a tão críptica? "Trata"! - pode significar tanta coisa. Trato-te da saúde. Trato-te da vida - tudo coisas à Máfia. Penso no Michael Corleone a despachar o desgraçado do Fredo e fazer um apontamento mental na agenda - "trata".
Agora que penso (ou continuo a pensar) nisso, talvez a ideia seja mesmo manter a expressão críptica, indecifrável, inteligível apenas para os iniciados, para fugir da bófia e do sistema legal, uma coisa à cockney, o melhor exemplo de linguagem anti-sistema. "Trata", o mote do rebelde que só outro rebelde pode compreender.
Trata. Trata.
Amanhã se calhar escrevo outro post, ou melhor - trata.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O insustentável peso da escolha

Descobri na Slate este mini-documentário bonito e triste sobre os perigos devastadores de enviar mensagens enquanto se conduz. No entanto, não é só sobre isso. Como diz um dos entrevistados, responsável pela morte de uma família, é sobre o poder da escolha. Escolher, tomar uma decisão e viver com as consequências.
Na maior parte das vezes, escolher é inofensivo, e ainda bem. Não conseguiríamos viver de outro modo. Mas também há escolhas que são apenas aparentemente inofensivas e mudam-nos a vida de um momento para o outro. 
E hoje é tão fácil estarmos distraídos. Há tanta coisa para nos preencher a mente tão aparentemente inofensiva. Lembro-me de ver uma rapariga nova de auscultadores nos ouvidos, daqueles enormes e giros, da moda, a dar um passo em frente para atravessar a estrada. Acontece que ela estava em Londres, e acontece que estava em Tottenham Court Road, uma rua feia e suja em pleno centro da cidade, em plena hora de ponta. E acontece que alguém a puxa violentamente pela camisola e a obriga a recuar, deste modo evitando, por uma nesga, um enorme autocarro de dois andares que acelerava pela longa rua, já que os semáforos estavam a vermelho para os peões. Eu ia para o metro, nem sequer queria atravessar a porcaria da rua, mas ainda vi a rapariga a chorar, descontrolada, provavelmente a pensar no que seria dela se ninguém a tivesse ajudado. A alma caridosa que a tinha puxado já se tinha posto a milhas, suponho eu porque descargas emocionais são coisas pior que o pecado num sítio como Londres, e eu até percebo. 
Esta rapariga também tomou uma decisão, também fez uma escolha. Escolheu pôr auscultadores, escolheu atravessar a rua. E alguém escolheu tomar atenção e ajudá-la. 
Escolhemos sempre, mesmo quando parece que não, mesmo quando parece que estamos apenas a deixar que a vida passe e que não temos nada a ver com isso. Gostamos de chamar a isto coincidências, mas interrogo-me se as coincidências existem, ou se também elas são o resultado das nossas escolhas.
Sim, parece-me que escolhemos sempre. Mesmo quando a culpa não é nossa. 

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

"É possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade"

Bom. Ouvi as notícias hoje de manhã na Antena 1, e entre outras coisas dizia-se que as queixas relativas ao sector privado de saúde superavam o número de queixas do sector público, em número elevado. Ok, registado.
Estou a passar os olhos pelo Público e deparo-me com isto:
Saúde: queixas diminuem no sector privado e aumentam no público
Hã? Então há um órgão de informação que me diz uma coisa e outro órgão de informação que me diz exactamente o contrário? O que se passa com os jornalistas dos órgãos de informação deste meu país estranho, que não sabem pintar e/ou fazer o seu trabalho? Fiquei agastada, e isto enquanto tomava o meu Milo quentinho. Estragar o Milo a uma pessoa não é correcto, especialmente considerando que nos tempos mais próximos não o vou poder beber, já que uma lata de 400g custa €4.99 e, sinceramente, também fico bem servida com o Nesquick ou Suchard. Não são bem a mesma coisa, mas pronto.

Continuando.Lembrei-me de continuar a ler a notícia. Achei boa ideia, pelo sim pelo não. E dizia-se, logo no lead, que Relatórios da Entidade Reguladora da Saúde mostram tendência de aumento das queixas no sector público, desde 2008. Mas ainda é no privado que mais se reclama.

Ah! Assim, sim. Assim, a gente já percebe. Tudo uma questão de perspectiva, não é? A perspectiva é a base. É a basezinha. Daí eu ter-me lembrado deste grande anúncio, que deixo abaixo.
Obrigada pela atenção. Fim.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Say thank you

Descobri hoje que existe uma coisa, um "movimento", à falta de outra palavra, designado por "pós-feminismo". Eu tendo a desconfiar de tudo o que vem colado ao prefixo "pós", e este novo "pós" que descobri não foge à regra (de me fazer desconfiada, quero eu dizer).
Talvez se deva apenas à minha ignorância, já que ainda não conseguir ler muito sobre isto. As informações da sempre utilíssima Wikipedia não me deixam, porém, muito descansada (negritos meus):


Sim, eu gosto de pensar que o feminismo conseguiu já grandes avanços na emancipação da mulher e na conquista da igualdade de direitos, pelo menos no mundo ocidental. Pelo menos, já podemos conduzir um carro, viajar sem autorização dos pais ou do marido, divorciarmo-nos. Contudo, as mulheres continuam em geral a ganhar menos do que os homens pelo mesmo trabalho, continuam a ser prejudicadas na maternidade a que têm direito (contratos não renovados depois da licença, empregadores relutantes em contratar mulheres em idade fértil, não vão elas desatar a ter filhos), continuam sujeitas a piropos indecentes na rua e a aprender que isto tudo faz parte da cultura, que é de aceitar e nunca de responder, continuam vítimas de violência doméstica em números assustadores, continuam vítimas de preconceitos vitorianos, criminosos, face à sua sexualidade, ou às imagens estereotipadas sobre a sua sexualidade. E isto tudo, apenas no mundo ocidental - se falarmos na situação das mulheres do Sudão, da Arábia Saudita, sei lá eu, nunca mais saímos daqui. 
Portanto, faz-me um bocadinho de impressão que alguém (principalmente se esse alguém é uma mulher) vir dizer que o feminismo já fez muito para reduzir o sexismo, e estamos agora prontas para passar para a fase do "pós". Um bocadinho de impressão, só. É que eu não acho nada que a fase do "pós" esteja sequer iminente. Se alguém tem problema com a palavra "feminismo", porque é muito radical, ou muito extrema, e não se quer meter nessas cavalgadas, tenho muita pena. O problema é deles, e infelizmente delas. O feminismo, para mim, faz sentido, e é uma palavra, um conceito, uma noção que recuso deixar de utilizar, em que recuso deixar de pensar. Podemos discutir que feminismo é este - não será o de Valerie Solanis, mas também nunca foi, verdade se diga.
Ouvi há alguns anos uma feminista inglesa (não me lembro do nome dela, mas se a vir sei quem é) queixar-se, agastada, porque verificava que as miúdas dos dias de hoje não gostavam do feminismo e criticavam as pessoas da sua geração (a geração dessa velha feminista) por serem muito radicais e por terem andado a queimar soutiens. E dizia a velha feminista - nós lutámos por vocês. Say thank you, dizia ela, enervada. 
Por mim, agradeço desde já e continuarei a agradecer sempre às sufragettes, aos anos 60 e à queima de soutiens e a todas as feministas dos dias de hoje que defendem a igualdade e lutam, da forma que consideram adequada, para que todas as mulheres possam levar a vida que entendem, ao lado dos seus homens ou sem eles, se assim o desejarem. Como quiserem. 
Thank you.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Ei-lo que volta!


Viiiiiiiva!

O complexo-Ashley Wilkes

Ashley Wilkes é uma personagem de Tudo o Vento Levou, e das mais desprezíveis que eu já vi em cinema. Quem já viu o filme sabe porquê, mas para quem ainda não viu, eu explico - a protagonista do filme, Scarlett O'Hara (insuperável Vivien Leigh) passa o filme perdida de amores por este Ashey Wilkes, que como ela é herdeiro de uma enorme plantação do sul dos EUA, até rebentar a Guerra Civil e perderem tudo. O Ashley Wilkes encoraja, de forma subtil e melosa, o amor de Scarlett de tal forma que esta até pensa que ele a vai pedir em casamento e tudo, até descobrir que Ashley vai mas é casar com uma prima, a impossivelmente boazinha Melanie. Scarlett fica destroçada, não tem outro remédio senão ir casando com outros homens para se entreter, ainda por cima ela que é dura, fogosa, deslumbrante, mas sempre que confronta Ashley com as cinzas do seu amor, ele diz-lhe "oh, gosto tanto de ti, oh, lembro-me de ti quando eras menina, cheia de pretendentes, e tenho tantas saudades, oh, és tão maravilhosa", e o resultado obviamente é Scarlett pensar que ele gosta tanto dela como ela dele, apesar de Ashley estar casado com outra e gozar de um casamento feliz. Entretanto, o último marido de Scarlett, um canastrão absolutamente delicioso chamado Rhett Butler, ama-a perdidamente até que perde a paciência, diz-lhe "frankly, my dear, I don't give a damn", e vai à sua vida à procura de uma mulher que o faça feliz e que não desperdice beleza e juventude com arremesos de cio adúltero para cima de homens inanes como Ashley Wilkes. O trágico disto é que, no momento em que Rhett se vai embora, Scarlett percebe que perdeu a vida toda em perseguição de um amor que não existe, que Ashley nunca gostou dela, que ela gosta verdadeiramente do marido Rhett, e que agora é tarde demais. A oportunidade passou.
Onde é que eu quero chegar com esta história toda? Quero chegar a isto - há pessoas, como Ashley Wilkes, que enfermam desta cobardia subtil, que nunca assume nada, e que portanto também não tem de recusar nada. Isto é particularmente grave quando, por via deste modus operandi, conseguem que as outras pessoas passem a vida toda à espera deles. Se há alguém com a miséria de se apaixonar por eles, os Ashley Wilkes desta vida rebolam-se na adoração, porque adoram ser adorados; não querem é ter de assumir nada, e se a pobre mulher se tenta libertar, eles arranjam maneira de apertar a corda à volta do seu pescoço, "ah, mas eu tenho tantas saudades tuas", "ah, eu adoro-te, tens é de me dar tempo", e etc. e tal.
A Scarlett passou a vida toda à espera de um homem que nunca foi forte o suficiente para lhe dizer na cara que não queria nada com ela, nem decidido o suficiente para ser adúltero e assumir um affair, um divórcio, o que fosse. Estes homens (e mulheres, porque também há mulheres assim) são uma espécie de lesmas peganhentas que não sabem por onde ir e agarram-se ilegitimamente à afeição dos outros, como parasitas. E o pior é que conseguem, por vezes, que lhes dêem muita afeição, porque na verdade toda a gente quer ter alguém na sua vida, e o Ashley Wilkes disfarça bem o cobardolas que é.
Quem se deixa apanhar por esta gosma tem de ter a presciência e consciência de dizer que não, sob pena de perder aquele momento da vida que nunca mais se repetirá, e que nos passará ao lado por perdermos tempo com a pessoa errada. Mas as ilusões conseguem ser quase tão poderosas como a realidade, e dizer que não, às vezes, é difícil. Este post é só para dar uma fórcinha, como diria o grande Herman. Fim.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Pela milionésima vez, Rebecca (spoilers)

Eh pá, estou tão farta de ouvir dizer (ler, para ser mais precisa) que a Mrs Danvers estava apaixonada pela Rebecca, e que a sua devoção por esta última era um grande subtexto para demonstrar uma relação lésbica e etc. e tal.
Ao ler o livro, conseguimos perceber que Rebecca era um espírito muito livre, muito dado à rambóia, e que provavelmente não lhe interessaria distinguir entre homens e mulheres, desde que se divertisse com um ou com outro. Fala-se imenso da possível bissexualidade de Rebecca, e penso que o livro o dá de facto a entender.
Mas o caso de Mrs Danvers é inteiramente outro. A sua história com Rebecca é uma história de amor profundo, sim, mas o que me parece óbvio é que é de amor maternal que se trata. Quando Rebecca morre, Mrs Danvers perde a sua única filha, a única pessoa que ela amava mais do que tudo, por quem daria a vida, a pessoa que justificava a sua própria existência. O ódio, a amargura de Mrs Danvers, aquilo que a encerra numa morte em vida vem do facto de ter perdido aquela a quem queria como uma verdadeira filha. 
Não admira que ela passe o livro todo em esquemas odiosos, a tentar tramar a pateta da segunda Mrs de Winter (ai, meu Deus, tenho sempre uma vontade tão grande de lhe pregar um tabefe para ver se lhe dá a espertina!). Mrs Danvers tem de recuperar, sozinha, da morte da filha e ainda tem de aturar uma tonta que casa com o marido da filha, que vem ocupar o lugar da filha, e que ainda por cima é uma mosca morta que não sabe o que há de fazer à vida (e está viva, ao passo que Rebecca está morta).
Isto tornou-se claro para mim ao ler aquela cena, tremenda, em que a segunda Mrs de Winter encontra Mrs Danvers no antigo quarto de Rebecca (preservado como no dia da sua morte) e ela, Mrs Danvers, depois de destilar toda a sua fel, começa a chorar, de boca aberta, sem lágrimas. Este "choro seco", como é descrito no livro, pareceu-me condensar um sofrimento horrível, insuperável, de quem perdeu uma parte de si, um filho. Horrível.
É só isto.

Livros electrónicos não são para mim

Eu pensei que me habituaria a livros electrónicos, mas a verdade é que não penso que isso vá acontecer. Não me dá jeito nenhum ler um livro num écrã, por mais avançado e confortável ao olhar que este seja. Não me dá jeito marcar páginas num écrã, não o sei fazer; não me dá jeito não virar páginas de papel; não me dá jeito ir ao índice e depois voltar à página onde estava; normalmente não sublinho livros, mas se o fizesse o écrã tecnológico também não me daria jeito. Enfim, nada num livro electrónico me dá jeito, a não ser a importante razão, que não desvalorizo, de ser mais amigo do ambiente. Foi este, aliás, o principal motivo que me levou a tentar optar pelo kindle, sem grande sucesso.
No entanto, tenho esperança que os livros se continuem a imprimir em papel reciclado para eu poder continuar a lê-los. Preciso de um livro feito de papel, que eu possa dobrar, pôr na mala, deixá-lo escorregar na almofada enquanto adormeço (adoro dormir com livros), uma coisa que tenha peso. Mais importante do que isto, porém, são as memórias que um livro nos deixa. 
Um livro electrónico é um ficheiro num écrã. A única substância que tem é virtual. Se sempre tivessem existido livros virtuais, eu não teria a afeição que tenho pelo meu querido livro Rebecca - lembro-me de, certo  dia, há décadas e décadas, ter contemplado a estante da minha avó, repleta de livros antigos, poeirentos, comos os livros devem ser. Li as lombadas uma a uma, e estaquei nas pequenas letras petras contra um fundo branco, manchado pelo tempo, e que formavam um nome, um nome que eu por acaso adorava, já que sempre gostei da pirosice: Rebecca. Pensei logo que um livro com este título tinha de ser magnífico. E era. 
Se Rebecca apenas existisse em formato electrónico, talvez eu nunca o tivesse encontrado. E, meu Deus, não concebo sequer ler Os Maias pela primeira vez num kindle ou coisa que o valha.  A minha cópia dos Maias anda comigo para todo o lado e gosto de reconhecer todos os riscos, dobras, rugas da capa e das páginas. Como é que isso se faz num livro electrónico, que é sempre igual, todos os dias? Os livros em papel mudam, o papel rasga-se, ou há uma criança que faz um desenho, ou a capa dobra-se e fica meio estragada, mas a beleza deles é mesmo essa, essa imperfeição. 
E depois dizem-me, "ah, mas no kindle podes levar centenas de livros para ler nas férias!", mas o que é que isso me interessa, se eu não consigo ler centenas de livros nas férias, infelizmente? 
E é isto. Sou conservadora, sim, e para bem do ambiente deveria mudar. Talvez isso aconteça, um dia. 

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Hoje estava a pensar que este mundo é mesmo lixado. Em que raio de mundo é que é possível que um George Zimmerman seja absolvido depois de ter assassinado, disparando à queima-roupa, um adolescente desarmado, ao mesmo tempo que as desgraçadas das Pussy Riot passem dois anos num campo prisional crudelíssimo , longe dos seus filhos, por terem cantado uma canção de protesto numa igreja?
A tal vã filosofia de que Shakespeare falava, a mesma que não alcança tudo o que se passa entre o céu e a terra, não alcança mesmo. Pelo menos, a minha parca filosofia não alcança. Suspiro. 

quarta-feira, 17 de julho de 2013

A crítica fácil

No Expresso desta semana, a revista Actual tem o Dan Brown na capa, o que se percebe, porque diz que tem novo livro à venda. Pensei que fosse uma entrevista com o homem, o que seria de esperar num suplemento de um jornal, mas não, o que há é um longo texto da Clara Ferreira Alves a descascar em Dan Brown, com os mesmos argumentos previsíveis de sempre e com uma pretensão que me parece não ficar muito longe daquela que imputa ao mesmo Dan Brown.
Esta crítica ao homem, sinceramente, já cansa. Aquilo que a Clara Ferreira Alves diz do novo livro de Brown aplica-se sem tirar nem pôr ao Código Da Vinci e, aposto, a todos os outros livros que Dan Brown publicou ou publicará. Mais, tudo o que ela diz (e que são críticas absolutamente pertinentes, disto não há que duvidar) já se disse antes a propósito do Código. Para quê repetir os mesmos argumentos estafados? O Expresso não encontra mais nada com que encher três páginas? Ponham a senhora a falar de outra coisa, ela ao menos tem opinião sobre tudo e ainda bem.
Apesar de me ter divertido com o Código Da Vinci, que li e que não me arrependo de ter lido, reconheço que é um livro trapalhão e que não está assim muito bem escrito. Concordo com CFA quando diz que o que Dan Brown escreve não é literatura. E então? Paulo Coelho também não é, e as pessoas gostam. Aquela do 50 Sombras também não deve ser, e as pessoas gostam. Vem assim tão grande mal ao mundo? Os grandes clássicos, os bons escritores, continuam e continuarão sempre a ser lidos. Inevitavelmente, estes últimos ficarão para a história e ganharão massas de leitores através dos tempos, ao passo que os "escritores" estilo Dan Brown ganham massas de leitores num momento histórico específico, e passado umas décadas ninguém se lembra deles. Sempre foi assim, sempre assim será. Não vejo onde está o problema, as pessoas que leiam o que quiserem, o que quer que seja que as torne feliz.
Este texto poderia muito bem ser uma defesa de Dan Brown, mas não é. Nunca na vida o defenderei, e não é por ser mau escritor ou por não escrever literatura, porque com isso posso eu bem. Como disse, até achei o Código Da Vinci bastante divertido. Não defendo Dan Brown, e espero que arda no Inferno sobre o qual gosta aparentemente de escrever, porque é um mentiroso. Isto, sim, é verdadeiramente imperdoável, especialmente considerando que se trata de alguém lido por milhares de pessoas. Sem aquele fim desastroso, escrito por quem efectivamente não sabe escrever, o Código Da Vinci até se aguentava; na verdade, conseguiria suportá-lo mesmo com o tal término incompetente da história. O que não suporto, porém, é ler um livro que goza com a minha cara e insulta a minha inteligência, que é o que Dan Brown faz a todos os leitores ao declarar, numa espécie de epígrafe, que a existência do Priorado do Sião é um "facto" e que Leonardo Da Vinci fez parte dessa tal organização. Não foi Dan Brown que inventou este Priorado fictício, mas toda a gente sabe que não passa disso mesmo, de ficção, de invenção - minto, não é ficção, é uma mentira, e Dan Brown, quando escreveu o seu livro na esperança absolutamente fundada de ganhar milhões, sabia disso muito bem e escolheu mentir e enganar, a troco de lucro que não merece (mereceria os seus milhões se o seu livro fosse um best-seller honesto, mas não é). 
É a mentira de Dan Brown, a sua profunda desonestidade intelectual da qual ele não parece envergonhar-se minimamente, que o torna tão mau. Clara Ferreira Alves aflora isto, ao acusá-lo (quanto a mim de forma mais rebuscada do que seria desejável) de não investigar as coisas como deve ser, de ir pelo caminho mais fácil (Wikipedia e toca a andar). Mas todo o seu esforço de retórica mereceria ir ao cerne da questão e chamar as coisas pelos nomes - Dan Brown é mentiroso. 
Não é preciso dizer mais.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Televisão vs cinema

A propósito deste post do Tolan, lembrei-me de uma coisa de que já queria falar há algum tempo, e que concerne toda a problemática das séries de televisão, mormente séries de televisão vs cinema. É uma problemática que concerne, de facto. 
Bom, e agora que já não me apetece andar a brincar com palavras caras, e além disso feias, vou passar à temática (rima com problemática) que me leva a escrever o post, que é então séries de TV. Há uns anos atrás (não vejo aqui erro nenhum, estou já a avisar; quanto muito vejo um pleonasmo, mas erro gramatical em "há anos atrás", sinceramente, não vejo), dizia, há anos atrás a televisão era um parente mais que pobre, paupérrimo mesmo, do cinema; quando os actores passavam do cinema para a televisão, era sinal de que a carreira estava no último fôlego, como aliás se vê pela pobre Mira Sorvino, excelente actriz que depois do Óscar passou a filmes de cinema da treta, depois a filmes de TV da treta e hoje ninguém sabe dela. Eu, pelo menos, não sei.
Hoje em dia (isto também está mal, é? Se "há anos atrás" é erro, porque é que "hoje em dia" também não é? Não se devia dizer só "hoje"? Pois, pois.), dizia, nos dias de hoje (melhor), a televisão está melhor do que nunca, com séries irrepreensíveis, direcção de actores impecável, narrativas complexas, muitíssimo bem escritas. É claro que isto não se passa com todas as séries de televisão, mas passa-se com muitas, a saber Sopranos e o Wire (deve haver outros exemplos mais recentes, mas eu continuo fixada nestas duas séries, em respeito maravilhado). Enquanto o cinema americano se embrenha em filmes inanes e adolescentes a 3D, a TV recompensa o adulto cota. Como dizia Pedro Mexia na sua crónica sobre a morte do querido James Gandolfini, há umas semanas atrás, os Sopranos trazem-nos a televisão adulta, complexa. Por acaso, esta crónica de Pedro Mexia está bem interessante, principalmente quando fala da tristeza que Gandolfini trazia à personagem de Tony Soprano, aquela sensibilidade magoada que às vezes víamos no seu olhar e que nos fazia gostar dele. Coitado do homem, quero lá saber se ele é padrinho da Máfia, ele até é boa pessoa, pensava eu. Até pensava mais - ele é mesmo boa pessoa. 
E, quanto a mim, o grande triunfo da televisão americano é precisamente este - o de criar personagens tão bem concebidas, intrincadas numa narrativa tão desenhada, que, durante aqueles 40 minutos em vemos o episódio, acreditamos que elas são mesmo pessoas, e não o produto de uma qualquer imaginação para vender a série e ganhar dinheiro. A força da personagem é cada vez menos conseguida no cinema, penso eu, e cada vez mais conseguida na televisão. As duas personagens maiores, para mim, são Tony Soprano e, principalmente, Omar Little do Wire. O Wire é uma série num tom muito mais documental (o próprio criador da série, David Simons, disse estar muito mais interessado no género do documentário do que no da série), de modo que a vida íntima das personagens, as suas redes familiares, de afectos, as suas tormentas mentais, são pouco exploradas, ao contrário do que acontece nos Sopranos, herdeiro mais directo da telenovela e que retirou deste género todas as vantagens, livrando-se de todas as desvantagens. No entanto, a força da personagem está bem presente no Wire, de Avon Barksdale a este magnífico, avassalador Omar Little, justiceiro, traficante de droga, gay, orgulhoso da sua vida de crime, seguidor fiel do código de valores que cria para si próprio (nunca envolver "civis"), absolutamente arrasador no seu longo casaco de abas ao vento, espingarda ao ombro, a entoar um assobio que faz com que toda a gente corra para casa para não se deparar com ele. Nunca vi coisa mais épica em televisão. 
E é assim, às vezes vale mais a pena ver uma série do que ir ao cinema, infelizmente. Digo "infelizmente" porque, apesar de tudo, cinema é cinema e nada se compara. 

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Curiosidade zoológica

Acontece em todo o lado, não é só em Portugal. Gente confortável, de vida confortável, com empregos confortáveis, provindos de família confortável de quem herdaram a casa, a conta bancária, as boas maneiras, o sotaque, gente que se pode reclinar na sua poltrona confortável, olhar pela janela, olhar o trânsito da Avenida de Roma ou Estados Unidos da América ou qualquer outra avenida em qualquer outra parte do mundo e observar tudo com a curiosidade de uma criança no jardim zoológico, o mundo lá fora, os pobres, os autocarros com pobres, a entrada cavernosa do metro, nestes dias de calor deve cheirar tão mal,  e no entanto os pobres lá andam na sua vida, não quer dizer que sejam más pessoas, nasceram assim, sempre existiram, sempre hão-de existir. Servem para alimentar a curiosidade zoológica da gente confortável, que nunca se espanta com a miséria dos outros. Talvez a lamente, mas nunca se espanta, a miséria sempre existiu, sempre continuará a existir, há pessoas assim, pessoas muito coitadas, que servem para a gente fazer alguma caridade, porque devemos sempre um pobre de estimação, como as tias do Lobo Antunes ("eu sou o pobre da menina Teresinha"), e às vezes até se pode dar emprego aos pobres, precisa-se de uma empregada e os pobres estão lá, precisa-se de um taxista e os pobres estão lá, precisa-se de um secretário e os recém-licenciados pobres estão lá, a estes podemos pagar 700 euros que para eles já é muito e até agradecem, mas nunca por nunca aceitaremos uma miséria destas para os nossos filhos.
Há muitos anos, tinha uma amiga indiana, que entretanto desapareceu da minha vida. Não faço ideia do que está hoje a fazer nem se voltou para a Índia. Ela era Brahmin e os pais davam trabalho a alguns "intocáveis" lá na casa deles, jardinagem, limpezas, etc. Uma das intocáveis roubou uma coisa e os pais da minha amiga descobriram. Não despediram a senhora, mas fizeram-na pagar o valor do que tinha roubado em prestações. "De outra forma, se a despedíssemos, o que ia ela fazer? É que eles são mesmo pobres", explicava a minha amiga. E encolhia os ombros, como se a coisa mais normal do mundo fosse existir gente "mesmo pobre", intocável de tão miserável. 
Acontece em todo o lado. 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Domingos de sol

Detestei Domingos durante anos. Domingos de sol, esses, eram terríveis. Quando está de chuva tem-se a desculpa de poder ficar em casa porque não nos queremos molhar, mas o sol relembra-nos constantemente de que temos de sair, temos de aproveitar, é o último dia sem fazer nada, amanhã é segunda-feira, daqui a bocadinho são sete  da tarde e a angústia aperta ainda mais, e etc. e etc.
E depois a pessoa tenta sair mas está tudo cheio por todo o lado, toda a gente teve a mesma ideia de "aproveitar", os cafés cheios, a praia cheia, os restaurantes cheios, se tentarmos ir ao campo também não há forma de encontrar um recanto onde não haja alguém a tentar fazer um piqueniquezito, tudo com ar muito aborrecido, um cão por ali a correr, que é o único que se deve estar a divertir, e pronto, não há hipótese. O único refrigério (bonita palavra) que fui encontrando foi mesmo ir a um museu, quando dava. Nem sempre dava.
Eu queixava-me de não valer a pena tentar sair aos Domingos, porque o mundo lá fora estava cheio de pessoas, mas esquecia-me de que eu própria era uma pessoa, e que da mesma forma que elas me incomodavam, eu incomodava-as também. Nada a fazer, o homem é lobo do homem e tal, como disse o Hobbes. 
Ora acontece que hoje em dia finalmente percebi que não vale muito a pena a pessoa pensar tanto "no que concerne" aos Domingos. Quer dizer, não vale a pensa pensar tanto em  geral. A pessoa pensa, pensa e normalmente chega a conclusões parvas.
De modo que agora saio aos Domingos, sem pensar muito. E pronto. 

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Poderzinho

A par da Clarice Lispector, de quem acabei de falar, estou também a reler a Rebecca, obra retumbante, super telenovelística, muitíssimo bem escrita, e adorável de ler. 
Eu gosto de reler livros. Muitas vezes desiludo-me na releitura, mas não faz mal. Também se aprende com a desilusão (relativamente a livros, quero eu dizer). Bom. Quando comecei a reler Rebecca, pensei, "bem, lá tenho eu que gramar com a parte inicial em que eles se conhecem em Monte Carlo, antes de irem viver para Manderley. E se eu saltasse logo para a parte de Manderley?". Mas não o fiz, por respeito ao livro (ou é para ler ou não é, e se é lê-se do princípio ao fim), e ainda bem, porque descubro agora, nessa parte inicial em que a "2nd Mrs de Winter" ainda não casou com o futuro marido, observações bem interessantes e acutilantes relativamente ao estatuto de uma certa classe de serviçal, que era o caso da personagem principal. Relata-se, de forma relativamente fria, como a dama de companhia da insuportável Mrs Van Hopper (a tal "2nd Mrs de Winter, a protagonista de quem nunca sabemos o nome próprio) era sujeita ao tratamento de indiferença, ou quase desprezo, por parte dos seus pares - o empregado de mesa que lhe servia o pior pedaço de carne, já rejeitado por alguém, a criada de quarto que nunca respondia às suas chamadas e recusava tratar-lhe da roupa ou dos sapatos, tarefas normalmente incluídas na sua rotina laboral, a modista que a quer gratificar com 100 francos porque a patroa lhe tinha encomendado vestidos. Quando a oferta é recusada, a modista encolhe os ombros e com maus modos diz que, se quiser, lhe paga em vestidos novos. E a pobre Mrs de Winter, sem perceber bem em que mundo está, é permanentemente vítima da fome de poder dos outros, principalmente daqueles que não têm poder nenhum.
É engraçado, ou por outra, tristemente engraçado, que isto aconteça. "Não sirvas a quem serviu", diz o ditado, porque normalmente quem serviu, em vez de sentir a solidariedade que seria normal para quem está em situação pior, regozija-se num exercício de poder um bocadinho insano. O poderzinho é o pior. Por acaso, a personagem que eu achei mais interessante no Django Libertado, que vi há muito pouco tempo, foi a de Stevens, o escravo negro que passou tantos anos em contacto com a tirania dos patrões brancos que se comporta de forma ainda mais cruel do que eles, contra os seus próprios pares, ainda por cima. 
O poderzinho. Aquele que toda a gente já teve de contornar, de uma forma ou de outra, nas Finanças, no trabalho e em sítios parecidos. É perigoso e, para uma coisa tão pequena, tão insignificante, estranhamente destrutivo. 

Não haver deuses

Estou a ler "Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres", de Clarice Lispector. Adoro o nome - Clarice Lispector. Acho que foi este nome enrolado e elegante que me fez ter vontade de a ler. Estou a gostar relativamente. É indubitavelmente um livro bem escrito, e elegante como o nome da autora. O estilo sentencioso não ofende, e de alguma forma faz lembrar a Agustina (a mim, faz, pelo menos), porque a meio do texto deparamo-nos com uma daquelas verdades bem urdidas, bem explanadas, bem escritas, para não conseguirmos duvidar delas. Boa técnica, sim senhora.
Mas não é exactamente sobre o estilo (que o tem) de Clarice Lispector que quero falar. Ontem à noite, foi esta frase que me deteve: 'De Ulisses ela aprendera a coragem de ter fé - muita coragem, fé em quê? Na própria fé, que a fé pode ser um grande susto, pode significar cair no abismo'.
Esta questão da "coragem de ter fé" deu-me (dá-me) muito em que pensar. De facto, parece-me que é preciso coragem para ter fé. Eu nunca tive grande fé em nada, continuo a não ter, e sempre atribuí isto a um certo temperamento (certas pessoas não são propensas à vontade de acreditar, não têm essa vontade) e, por outro lado, a uma certa cobardiazeca. Custa ter fé, porque é preciso dedicação, confiança ilimitada naquilo em que se tem fé, vontade de abandonar o racional e conseguir abraçar esse mundo de escuridão irracional de onde vem a fé. E lembro-me das eternas explicações que me davam em criança - ter fé é acreditar e pronto. É sentir que é assim.
Eu nunca fui capaz de sentir que nada é assim ou assado, e nunca fiz disto uma questão de dúvida metódica, um exercício intelectual, ou uma demanda de uma racionalidade na fé. Simplesmente sou incapaz de ter fé, porque essa vontade de acreditar é sempre combatida e deitada abaixo por um pessimismo crónico, que duvida de tudo, que evita a desilusão. Quem tem fé e depois descobre que está errado arrisca-se a desilusões fortíssimas, existenciais, cai no abismo, como diz a Clarice, e eu não quero, nem nunca quis, passar por isso, não tenho uma força espiritual deste tipo. De modo que rejeito instintivamente a fé de uma forma errada - não se deve rejeitar nada porque não queremos arriscar a perda e a desilusão. Daí eu perceber a Clarice quando fala na "coragem de ter fé". Eu não tenho essa coragem e, tristemente, penso que não a quero ter.
E porém. Há alturas em que não ter fé me consola, principalmente quando me confronto com aquilo em que os outros acreditam e em que eu não acredito, tipo Fátima ou isso. Não gostaria de acreditar no milagre de Fátima, da mesma forma que as pessoas que acreditam provavelmente gostam de o fazer. Neste caso, o não ter fé é para mim uma consolação, num mecanismo de facto muito semelhante ao das pessoas que têm efectivamente fé. Giro. O Fernando Pessoa não dizia que "não haver deuses é um deus também?". Pois é. Pois é, pois é.
Obrigada pela atençãozinha e boa continuação.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Estudos científicos mostram que

Eu gosto de "estudos", principalmente porque o argumento mais vazio, e curiosamente mais eficaz, que se pode brandir numa discussão é o famigerado "há  estudos que dizem que". E normalmente o oponente fica sempre um bocado vacilante, quase a derrocar, de boca aberta, "ai, há estudos? Quais estudos?", "estudos científicos", é a resposta pronta. E assim se ganha uma discussãozinha. 
Eu própria cedo a este argumento dos estudos - "mas tu não sabes que há imensos estudos que dizem que pôr isso no microondas provoca cancro?!". Não, não sei. "Está provado que sim". E sob este argumento da "prova" (provado por quem, e como?, poderia eu pensar para mim própria, mas nestas alturas nunca penso) cede toda a minha certeza. Ah, realmente é melhor não pôr no microondas e aquecer no fogão muito menos tecnológico (que, por acaso, até é a chamada "placa". Nunca ninguém se queixa desta placa, curiosamente, nem ninguém se preocupa em saber se emite ou não misteriosas ondas cancerígenas/alienígenas e quejandas ondas terminadas em "ígenas"). 
E vem isto a propósito de dois estudos engraçados sobre os quais li recentemente. Um giríssimo que diz que a reforma faz mal ao cérebro - a pessoa fica sem fazer nada e muito propensa a depressões. Super chato. O problema da reforma é de facto fazer muito mal ao cérebro, nem é o facto de os futuros reformados da Europa poderem contar com, provavelmente, um euro de reforma por mês ou coisa que o valha. Sob este prisma, até é bom não haver reforma para ninguém e toda a gente permanecer nos seus saudáveis postos de emprego, ou na sua salutar luta constante por um emprego, até à hora da morte. Sim, parece-me bem.
Outro estudo também giro é aquele que diz que as mães trabalhadoras podem trabalhar à vontade, pois não há qualquer prejuízo para os seus filhos, isto é, para crianças pequenas tanto faz as mães trabalharem como não trabalharem. Ainda bem que este estudo foi feito, porque até agora as mães que trabalham não sabiam disto. Agora, em vez de se sentirem culpadas por irem trabalhar (o artigo diz que as mães sentem muita culpa), podem sentir-se culpadas por ficarem em casa. A culpa é assim, quando a queremos encontrar com muita, muita vontade, ela emerge triunfalmente.
O que, porém, considero mesmo, mesmo giro nestes estudos é a forma como o "trabalho", e o valor que lhe damos, é tão facilmente manipulado para ilustrar o que quer que seja que nos dê jeito. A mim, por exemplo, dá-me jeito culpar o trabalho pelas minhas eternas insónias, má-disposições, enfim, pelo "spleen" em geral, para manter a minha (in)estabilidade mental com um certo nível. Um certo chique. Como exemplarmente cantam os GNR, faz-me impressão o trabalho. 
E, por mais que me esforce, não consigo encontrar conclusão de jeito. Há muito tempo que não escrevo. Para a única pessoa que vai ler isto: tire "você" a conclusão, e perdoe a deselegância.