quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Quem não está bem, muda-se.

O António Variações escreveu uma canção a dizer para mudar de vida. Mudar faz bem.
O meu problema em mudar de vida é que não sei exactamente para que vida mudar. 
Por exemplo, às vezes o que eu queria era ter escrito uma coisa qualquer magnífica, daquelas que as pessoas todas sem excepção lêem e dizem "eh pá!", porque não há mais nada que se possa dizer, é de ficar de boca aberta, e depois andar por aí vestida de preto e de óculos escuros para o estilo, e ir sentar-me a um café qualquer no Chiado a fumar, coisa que me faz mal à asma e que portanto tenho de evitar mas continuando, e escrever de enfiada três ou quatro contos ou crónicas retumbantes, mais ou menos em cinco minutos (o Capote escrevia aquelas entrevistas dele em 15 minutos), beber um café, usar boina preta, ficar com ar sonhador a olhar lá para fora, depois vir alguém dizer "ai gosto tanto do que escreve, ai nem sabe, ai que me mudou a vida", lá está, mudar é importante, e eu dizer "obrigada, obrigada", numa voz super maviosa e calma, sem pressa, e depois rematar "peço desculpa, não dou autógrafos em momentos de inspiração", passar a noite a pé no Bairro Alto a beber sem cair para o lado, coisa que também não acho bem na minha vida normal mas na imaginária sim, e apanhar um táxi para o sítio muitíssimo misterioso e recôndito onde vivo, ninguém sabe com quem nem onde.
Se calhar, podia mudar para esta vida. É uma possibilidade - basta comprar ainda mais roupa preta, uns óculos mais estilizados, ir tomar mais café ao Chiado, e, claro, há o pequeno pormenor de ter escrever a tal coisa retumbante, mas isso ainda é o menos. 
E daqui se depreende que mudar de vida é relativo. Em princípio sim, todos temos a capacidade mudar de vida. Mas primeiro temos de ter uma outra vida alternativa para a qual mudar, o que  é o busílis da questão, porque a verdade é que mais vale uma vida na mão do que duas a voar.

4 comentários:

josépacheco disse...

ai gosto tanto do que escreve, ai, nem sabe, ai que mudou a minha vida [e o que não é sincero nisto, Rita, são os «ais»...]

Madalena disse...

Eheheh...eu ia escrever quase o mesmo que o comentador anterior!
É que gosto mesmo do que escreves e este post agora veio a calhar :)

Rui Almeida disse...

Eu vim aqui para escrever o mesmo q escreveu o 1º comentador, mas quando vi q ele tinha escrito, pensei em escrever o q a 2ª comentadora escreveu e q, afinal, não vale a pena estar a repetir. Portanto, o melhor é não escrever nada mesmo.

Rita F. disse...

Obrigada, obrigada, obrigada pela prenda de Natal. :)