quinta-feira, 2 de junho de 2011

A verdade de uma capa

A livraria com a qual mantenho um love affair intensíssimo, a Foyles, tem um blogue engraçado onde alguém discute a problemática da capa dos livros, começando pelo provérbio anglo-saxónico que diz "you can't judge a book by its cover" ou, como dizemos nós em português e bem, as aparências enganam. Quer dizer, o provérbio em inglês não equivale exactamente ao português, que nem sequer é provérbio, é mais uma espécie de "dito",  mas enfim, percebe-se a ideia, e a ideia é dizer que a verdade não está na aparência. Explica-se o imbróglio aqui. 
Eu concordo em absoluto com o autor do post, que basicamente afirma que uma má capa de livro é o maior turn off de sempre e pode conduzir a que o leitor desista de ler o mesmo livro. É uma pena imensa, mas é verdade, e não se compreende como é que as editoras escolhem, por vezes, certas capas que não lembram ao Diabo, sendo que a agravante é quando os autores já morreram e não se podem defender, coitados. Nem sequer precisamos de mencionar aqui aquelas capas antigas da Europa-América, que só davam vontade de forrar o livro todo com folha de alumínio, se preciso fosse; e também não será necessário mencionar casos como este, em que o horrível da capa se coadunará na perfeição, especulo eu, com o elevado conteúdo:



As capas da Nora Roberts são sempre do melhor. Alguns dos seus livros até vêm dentro de um saquinho cor-de-rosa com fitinhas, tão mimosinho. Espectacular.
Estes casos, como dizia, não são para considerar. O que é de considerar é a injustiça de uma má capa e um bom autor, por exemplo:



Aaaaaah... assim a cara escarrapachada, ainda por cima só metade... sei lá, não é elegante. Se eu não soubesse quem é o Lobo Antunes, olhava para o livro e dizia, "olha, isto deve ser daqueles livros foleiros de um tipo qualquer que venceu a droga, ou o vício do jogo, ou tem uma grande lição de vida para dar que eu dispenso inteiramente, e é uma espécie de livro de auto-ajuda com conselhos igualmente foleiros e inúteis para a felicidade ou assim". O que vale é que a gente conhece o Lobo Antunes, porque a capa não faz jus à qualidadezinha do livro.
Quando, por exemplo, as capas do livros vêm com imagens de filmes para ajudar a vender mais, é uma grande tristeza. Esta capa, por exemplo:


Que coisa tão confusa, a cara da Audrey muito grande, e depois as imagens agitadas de Nova Iorque. Mais uma vez, não é elegante. Não sou fã da Audrey, mas era uma actriz muito elegante que, apesar de tudo, daria uma capa melhor. Ainda por cima, este livro é publicado pela Penguin, cujas capas mais antigas são sóbrias e bonitas, acho eu. Depois, deu-lhes para a modernice e começaram a enveredar por caminhos mais espalhafatosos.
A capa de um livro é algo importantíssimo. Uma capa bonita, macia, aumenta o prazer da leitura - olhamos para o livro e suspiramos de satisfação, que bom companheiro para levar para todo o lado, que bom poder abrir aquela capa bonita, que é nossa.
Uma capa feia entristece. Não é que não se leia o livro, claro, mas enfim, como tantas outras coisas na vida, é um turn off. Não vale a pena traduzir este termo para português, que também é feio.

4 comentários:

Fado Alexandrino disse...

Excelente assunto espero que tenha muitos comentários.
Vou dizer só duas coisas; primeiro que é de um atrevimento extremo imprimir sobre uma capa (que é sempre um trabalho de autor) coisas do género de 2ª edição ou 50,000 exemplares vendidos.
Segundo que sempre me interroguei porque razão as capas do Saramago na Caminho são aquele desconchavo, faria parte da idiossincrasia do autor que como o Siza Vieira queria uma marca só dele?

Rita F. disse...

Concordo, Fado. Não gosto de ver aqueles números todos na capa, 300ª edição, milhares de exemplares vendidos, etc. Só falta dizer "compre já", como os saldos do Conde Barão. Vá já ao Conde Barão! E o que aconteceu ao Conde Barão? Pois é.

Maria Flausina disse...

O hábito não faz o monge.

Dulce disse...

Confesso que já comprei livros pela capa (vá, também li a sinopse!)... Uma boa capa é sem dúvida meio caminho andado para uma pessoa se deter no livro, mesmo que não conheça o autor.

PS - Nunca li Nora Roberts (nem tenciono ler), mas se gostasse desse tipo de leitura forrava as capas nem que fosse a papel de cozinha..!!!