terça-feira, 28 de junho de 2011

Expressão que não compreendo: "eu sou uma pessoa doente"

Apesar de não compreender, acho uma certa graça quando as pessoas dizem isto, porque normalmente não é verdade ou, se é, nunca é tão grave como querem fazer crer, felizmente para elas. Normalmente, esta expressão vem acompanhada de outras igualmente cómicas, mormente "é que eu sofro muito de isto e de aquilo"; "sabes, eu no Verão sofro de calor", "eu no Outono sofro da vista e de 'alérgias'", "eu quando vou trabalhar padeço de cansaço", e coisas assim. O verbo "padecer", já amplamente satirizado, é verdadeiramente esplêndido.
Há muitos anos, o Herman fez um sketch de uma senhora velhota que entrava no táxi e começava a queixar-se, "ah, eu sou uma pessoa doente, eu sou uma pessoa muito doente...", de tal modo que ninguém conseguia sequer ter pena dela. Vivemos num país em que a maior parte das pessoas padece efectivamente de uma maleita, e essa maleita é a hipocondria. Eu não fujo à regra, e mal denoto a mais leve mudança corporal, seja comichão no olho, seja no polegar, penso logo que apanhei uma bactéria qualquer que nunca mais vai passar. E estes vários sofrimentos de que somos acometidos explicam, talvez, a necessidade que algumas pessoas têm de se caracterizarem como "doentes". 
Nunca conheci ninguém verdadeiramente doente que anunciasse ao mundo a sua condição, e algumas delas eram, infelizmente, bem graves. Esta coisa da queixa perpétua de que estou muito doente, e como tal tratem-me com muito cuidadinho, por favor, é algo inquietante, porque caricato. Dá vontade de gozar com a pessoa,  em vez de demonstrar solidariedade e compreensão. E o que dizer dos indivíduos que começam a descrever a sua pobre condição física, e entusiasmam-se de tal modo com a dor que os aflige que ficam horas empolgados numa narração médica que mais parece um filme de acção ou coisa parecida? Isto é que é impagável - "ah, doía-me a garganta, fui ao médico, o médico disse que era uma infecção nas cordas vocais, quis ir ao especialista, o especialista disse que era um nódulo e uma infecção, receitou-me comprimidos mas não passou, já viste, e eu a pagar balúrdios, fui a outro especialista que disse que era nódulo, infecção e super-bactérias, disse que eu até podia perder a voz e tudo!, já viste, ou então que a minha voz ia ficar muito fininha à desenho animado, já viste, como é que eu posso trabalhar assim", "mas não há cura?", arrisco eu, e responde logo o meu interlocutor, com tal satisfação que parece que acabou de comer uma pratada de chouriço assado com broa, "não! Não há nada que se possa fazer, ou fico afónica, ou com voz de desenho animado!" Sorriso de comprazimento no fim.
Eu penso que algumas pessoas consideram que a doença as torna especiais. Ser objecto de pena, ou atenção, ou interesse dos outros devido "à doença" é algo que os satisfaz.
Pronto. Cada um é como cada qual. E agora tenho de ir ali almoçar, porque eu sou uma pessoa que sofre de uma doença, que é: quando não almoço, padeço de uma certa larica.

3 comentários:

Rui Almeida disse...

Nada disso... eu explico. Como sabes, melhor do q eu, há expressões q sofreram deturpações fonéticas. Assim é o caso de "cor de burro quando foge", q é corruptela de "corre de burro quando foge", ou "quem não tem cão caça com gato", distorção de "quem não tem cão caça de gato" (actualmente diríamos "de gatas").
Ora... a expressão q referes, só pode ser, como é óbvio, uma derivação de "eu sou uma pessoa do ente", nitidamente com raízes nas correntes heideggerianas, tão difundidas entre as classes populares do nosso país.

Maria Flausina disse...

HAHAHAHA! Eu tenho uma colega que assim que entra de manhã aqui na "barraca" diz: "bomdia, aiqueeu estoutãocansadaquenemconsigoabriruzólhos"! Assim de rajada, que nem temos tempo de dizer mais nada. E ao longo do dia vai desfiando o rosário de maleitas que, quase sempre, acabam com um: " o tempo vai mudar"... "Ai que me dói tanto (qualquer coisa), de certeza que o tempo vai mudar".
Eu, quando o ambiente assim o permite, já lhe disse que o corpo dela não é nenhuma estação metereológica, ela está é velha e chata!
Não há pachorra!

Rita F. disse...

Rui... que belo esclarecimento. Como é que eu não topei logo essa do Heidegger? Realmente, uma coisa tão óbvia... :D

Maria Flausina - essa da estação metereológica está óptima. :D