terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Abril é o mês mais cruel

Aquele primeiro verso de The Wasteland merece todas as conversas mais ou menos intelectuais, inteligentes, pretensiosas ou simples, que se travaram sobre ele: April is the cruellest month.
E depois continua: ... breeding lilacs out of the dead.
Lembro-me de ter lido isto e de o impacto sonoro ter ficado a ecoar - April is the cruellest month, April is the cruellest month, e depois imaginar o roxo dos lilases, lilases misturados com cadáveres, a despontar de cadáveres, que coisa tão impressionante - breeding lilacs out of the dead.
Era o que eu imaginava, e imagino, quando leio Wasteland. E é verdade que Abril é um mês cruel. O confronto com a renovação, o renascimento, saber que o mundo continua independentemente de nós - e se formos nós os cadáveres? É que, se fizermos parte do renascer da esperança, está tudo muito bem. Mas, de facto, se os lilases crescem por cima de nós, indiferentes à nossa presença, enfim - se formos nós os mortos, o que fazer?
É que os cadáveres, podemos ser nós. Podemos mesmo. E a Primavera enterra-nos sob o esplendor que traz consigo, aquela exibição exuberante da vitalidade de tudo. E nós mortos, a olhar para aquilo, a ver os lilases que nos rebentam das mãos e dos pés e por todo o lado.
Eu sei que este post parece uma tentativa muito fraquinha de arremessar à chamada "prosa poética", mas não é nada disso. Eu estou mesmo a tentar ser muito realista. Só porque agora Abril não é cruel para mim, não quer dizer que não tenha sido, que não possa ser, que não seja. Quando se diz "em Abril, águas mil", estas águas podem ser muitas coisas, podem ser os sôbolos rios que vão e podem ser as águas que às vezes a gente tem de chorar.
A vida é assim porque, como canta a grande Amália e o grande Camões talvez tenha escrito, "triste quero viver pois se mudou em tristeza a alegria do passado". A gente nunca sabe com o que pode contar. É ir aguentando. Aproveitar a felicidadezinha que se tem, quando ela chega.

2 comentários:

Fado Alexandrino disse...

A minha Mãe sabia quase tudo o que ela não sabia, sabia o meu Pai.
E por isso o verdadeiro provérbio é "Abril águas mil, caibam todas num barril" ou seja para a agricultura, e é disto que estes provérbios falam, deve chover muitas vezes pouco, exactamente o contrário do que o amputado provérbio diz actualmente.
Acredito que a sua Mãe também deve saber isto.

Rita F. disse...

Fado, obrigadíssima por me dizer! Não fazia ideia nenhuma, nenhuma, nenhuma de que o provérbio tinha continuação. Apesar de invalidar tudo o que escrevi, é um provérbio lindo e feliz. Agora terei de repensar toda a minha filosofia de café sobre o mês de Abril. :)