quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

"Isso dos nazis, eu não tenho nada contra..."

A estação dos Correios onde eu costumo ir é muito pequena e só tem duas pessoas a atender. É patusca e nunca me desilude - é fonte constante de entretenimento. Por detrás do balcão estao um rapaz novo e uma senhora aí de uns 50 anos, que se tratam por tu e inventam conversas para afugentar o tédio. Estão tão habituados a falar um com o outro que até se esquecem dos clientes que ali estão a ouvir tudo o que eles dizem, de modo que é possível chegar lá e, por exemplo, ouvir a senhora de 50 anos a tentar ser espirituosa e fazer jogos de palavras com o número "três", que é um número que ela ainda detém e bem, ao que o rapaz lhe responde "olha, só se for nos ouvidos", e há que dizer que este pequeno diálogo dá logo muita vontade de rir, assim revisteiro.
Bom. No outro dia, tive de ir outra vez à pequena estação de Correios e lá estava o rapaz de um lado, a senhora do outro, embrenhados em conversa e mal olhando para mim, mas eu também estava ocupada a preencher a papelada toda que se tem de preencher quando se envia essa entidade sofisticadíssima que é a chamada "carta registada com aviso de recepção". O que preocupava o rapaz nesse dia era uma senhora que tinha passado por lá e que tinha dado ao filho o nome de Adolfo. O rapaz comentava, "ah, é que isso dos nazis, quer dizer, eu não tenho nada contra, mas... dar ao filho o nome de Adolfo, quer dizer... pronto, eu não tenho nada contra, mas..." e reticências e discurso entrecortado, até finalmente rematar com a magnífica expressão "cada um é como cada qual".
Devo dizer que adoro esta moderaçãozinha, esta contençãozinha, que as pessoas às vezes acham que devem adoptar. "Isso dos nazis, não tenho nada contra" - ah, sim? Olhem que posição tão respeitável. Que boa educação exemplar. Somos todos iguais, "cada um é como cada qual", pois claro, portanto não há que discriminar ninguém com base nessa coisa muitíssimo respeitável que é a "opinião",  qualquer que ela seja. Qual é o problema se a minha opinião for a favor dos nazis? Nenhum, claro. Não há que ter nada contra.
As reticências são dos sinais de pontuação que mais me irritam. A insinuação vaga que deixam no ar, a falta de incisão, o refúgio que permitem, a falta de compromisso - "eu não tenho nada contra, mas...", este "mas" deixado assim no ar sem concretizar o argumento.
Quanto a mim, tenho tudo contra. Se cada um é como cada qual, o problema é deles. Não os torna respeitáveis, ou por outra - podem ser respeitáveis, a opinião deles é que não é. O rapazinho dos Correios devia pensar menos em reticências e mais em pontos finais. É a minha opinião.

5 comentários:

Rui Almeida disse...

O rapaz dos Correio de certeza q respeita muito a tua opinião, qualquer q ela seja, e eu acho q devias era aproveitar e insultar logo a família toda dele até à 5ª geração.
Quanto a dar o nome de Adolfo a um petiz recém-nascido, eu também não tenho nada contra, mas... se o apelido for Dias, é capaz de soar um 'cadito mal.

Rita F. disse...

Mas eu não queria insultar o rapaz dos Correios, coitado! Muito menos até à 5ª geração. Cada um é como é. :)
Adolfo Dias - muito bom, ah ah!
Agora que penso nisso, quando era pequena conhecia um menino que era o Adolfo, só que nessa altura nem eu nem as outras crianças estavam cientes do peso do nome. Nunca mais vi este Adolfo, coitado, o que lhe terá acontecido?

Rui Almeida disse...

Olha... por falar nisso, há um senhor, nascido em 1943(!!), cujo 2º nome é Adolfo e q parece q era (ou ainda é...) muito amiguinho do Kadhafi (ou Gadafi? ou Khadaffi? ou Cadafi? - devias abordar este assunto tão premente).
Só uma pista: é o presidente da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal.

Misófilo compulsivo disse...

Cartas c aviso de receção?...
A menina tem qui pro quos com a justiça? É que isso é mais erótico que o Café comBlogues da Almedina...

disse...

geralmente o "não tenho nada contra mas.." é sinónimo de que se tem medo de ferir susceptibilidades por se saber ignorante em matérias básicas da sociedade, como um "eu acho que é suposto dizer isto, mas posso estar completamente errado".

claro que quando o tema são os nazis, provavelmente é porque que sabe bem do que se fala e até se concorda parcialmente, sobretudo se se associar a solução final aos pretos, e se tem bem consciência de que há quem não concorde e tenha mais capacidade de argumentação.

no fundo é falta de coluna vertebral e possivelmente de cérebro.