quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Uma coisa é ser mulher, outra coisa é ser senhora

Estava aqui a ler este lindo blog e deparei-me com a citação do dia, que calhou ser de Margaret Thatcher  (espero que a Lenor não se importe que eu cite aqui algo que encontrei citado no blog dela):

Being powerful is like being a lady. If you have to tell people you are, you aren't.

Isto não se aplica apenas às pessoas poderosa e/ou às senhoras. Aplica-se a toda a gente que quer ser vista de uma determinada forma e não é: quem é bonito não precisa de dizer que é bonito; quem é inteligente não precisa de dizer que o é; quem é rico não precisa de dizer que é; quem é, em geral, bom, isto é, pessoa de qualidade, não precisa de dizer que é, e de facto não diz, e etc. 
De modo que hoje já tive a surpresa do dia, que é concordar com algo que a Margaret Thatcher tenha dito, e encontro-me agora a indagar o que é isto de ser "uma senhora". Parece-me uma questão algo premente. Durante muito tempo, pensei que era não ter ouvidos, aquilo que tantas vezes me foi ensinado como única resposta digna aos comentários libidinosos que qualquer mulher, senhora, rapariga, menina, o que se quiser, tem necessariamente de ouvir, com maior ou menor frequência, só por se limitar a andar na rua. As senhoras, mulheres, raparigas, o que seja, têm de aprender cedo, neste país.
Dizia Simone de Beauvoir que não nascemos mulheres, tornamo-nos mulheres. E senhoras? Da mesma forma que se aprende culturalmente a ser mulher e homem, também se aprenderá culturalmente a ser senhor e senhora, e usar garfo e faca e flute de champanhe e etc, ou ser senhora quer apenas dizer não ser prostituta, ou quer apenas dizer que se pode ser o que se quiser, prostituta e tudo, desde que seja honesta, ou é o quê? A minha vã filosofia não alcança. 
A afirmação de Margaret Thatcher, que eu por acaso acredito que seja mulher  e além disso senhora, talvez queira dizer que ser "senhora" é uma qualidade intrínseca, da mesma forma que certos homens são "gentis homens", e que isso ou é inato ou não é. Não se pode aprender, não se pode fazer esforço para  o ser e andar por aí a dizer às pessoas, como aquele indivíduo do Little Britain, "I'm a lady, I'm a lady". 
Pois é. A questão é que esta ideia do inatismo, sobre a qual se escreveram imensos livros, nomeadamente um manual de boas maneiras interessantíssimo e tremendamente popular no Renascimento, chamado Il Cortegiano, tem muito que se lhe diga. Neste manual cortês, por exemplo, Castiglione (o autor) defendia que ser cortesão é uma qualidade inata, que no entanto pode e deve ser trabalhada, e porque não refinada, por quem nasceu com ela - mas claro, há que nascer com ela. 
De modo que a conclusão que eu retiro disto tudo é que, como dizia a Susaninha, amiga da Mafalda (a banda desenhada), "uma coisa é ser mulher, outra coisa é ser senhora".  Eu, realmente, concordo. Não vamos agora estar a confundir as coisas e a comprometer valores e princípios, os mesmos que rezam que  cada macaco tem de estar devidamente no seu galho, e é mesmo assim.
Pronto.

3 comentários:

lenor disse...

Eu também concordo com a Susaninha: há mulheres que não são senhoras e há senhoras que não são mulheres, mas olhando globalmente a questão eu acho é que as duas macacas se empoleiram no mesmo galho só que à vez.
Obrigada, Rita :)

Fado Alexandrino disse...

Um post muito interessante.
Não sou senhora, nem quero ser, mas posso esclarecer algumas dúvidas levantadas.
Para se saber se uma senhora é senhora ou não tem que haver uma senhora-padrão como aliás se usa para todas as medidas, pesos e etc.
Ora em Portugal não faltam padrões vivos e mortos e como destes não interessa falar acho que nos outros podemos encontrar, sei lá, Manuela Eanes?
Esta valeria 10 e por contraste teríamos como oposto (aqui são ás centenas de milhar as candidatas) Júlia Pinheiro a valer 1 e Carolina Salgado 0.
E prontos já temos aqui um início de tabela, os outros fieis leitores vão certamente ajudar a compor uma tabela tipo escala de Mohs e depois é só aplicar o sistema.

lenor disse...

Bem, eu sou (muito)senhora de mim. Isso chega para mim e é capaz de ser demais para a paciência dos outros; mas é a vida: sermos uns para os outros.
:)
Há muitas (grandes) mulheres ao longo da História a que ninguém se lembra de chamar senhoras. Lembras-te da padeira de Aljubarrota?
Mas uma boa comparação para se fazer é o daquelas que morreram quase ao mesmo tempo: a Lady Di e Madre Teresa.