segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Algo está podre nessa maçã

Tinha uma amiga que dizia que não gostava de namorar com nenhum homem que se risse muito. Não gostava de ver elementos do sexo masculino sempre a sorrir e a mostrar a dentuça, fosse esta última bonita ou feia - era uma idiossincrasia que ela tinha.
Dizia esta minha amiga que rir muito era piroso, ainda por cima num homem. Um homem tinha de ser sério e armar-se em difícil, o chamado "strong silent type", quase à Clint Eastwood nos westerns do Sergio Leone. Escusado será dizer que a mesma amiga se queixava muito - e porque é que não resultava, e porque é que ele era tão difícil, e porque é que nunca tinha a certeza, e porque é que nunca se resolvia a nada, e etc. e etc.
Há esta ilusão de que temos de nos "fazer difíceis" para conquistar os outros, porque nada na vida é fácil, as melhores coisas dão sempre mais trabalho, e argumentos semelhantes. É uma ilusão, acho eu. Uma pessoa que se faz difícil está apenas a demonstrar que é uma pessoa difícil que talvez deva ir viver com os pais, os únicos que terão alguma obrigação de aturar as suas birras. A não ser que se seja adepto daquilo que o meu pai às vezes diz, e que é "se as coisas podem ser complicadas, porque é que a gente as há-de fazer simples", não percebo porque é que as pessoas têm esta atracção por tudo o que seja homens ou mulheres "difíceis". Ah, é porque o fruto proibido é o mais apetecido - sim? Pois, não me parece. O fruto proibido é sempre o que dá mais trabalho e mais chatice - não é, de todo, o que sabe melhor, de modo que não deverá ser o mais apetecido. Mas enfim, cada um é como cada qual, e se o nosso desejo é a maçã que não se pode comer, então que se vá à luta, mesmo que a maçã tenha bicho (e tem de certeza).
Não há seres humanos perfeitos, do mesmo modo que não há maçãs perfeitas. Se o ser humano ainda se arma em difícil, para além de todos os defeitos que com certeza tem, não estou a ver grandes augúrios de felicidade. A minha querida amiga, hoje em dia, aprendeu que é muito bom viver com um homem que sabe rir, que é bem-disposto e que tem mais que fazer do que ser estratega e não decidir o que quer. E está muito mais feliz do que há dez anos atrás, em que ainda pensava que a maçã perfeita não admitia sorrisos.
Eu, como sempre gostei de quem se ri muito, nunca tive o mesmo problema. Terei outros, mas para os descrever não há engenho e arte, de modo que acabo aqui, nesta nota optimista, que às vezes faz falta. Mais um bocadinho e ponho aqui um smile.

1 comentário:

sara a. costa disse...
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