domingo, 19 de setembro de 2010

Um Eléctrico Chamado Desejo - a peça no D. Maria (SPOILERS)


A primeira coisa que gostava de dizer é que, indubitavelmente, gostei do espectáculo - dos actores, do cenário, do guarda-roupa, da encenação. Gostei também de ver a Alexandra Lencastre num palco, e não nos dejectos da TVI por onde andou a perder tempo, e ainda por cima num papel tão exigente como é o de Blanche Dubois. Não é apenas a Alexandra Lencastre que está bem - todos os outros elementos do elenco são sólidos, e Pedro Laginha no papel de Mitch surpreendeu-me particularmente. Stanley Kowalski interpretado por Albano Jerónimo também não desilude nada. É evidente que Stanley tem de ser corporizado não apenas por um bom actor, mas também por um actor bonito, e a mim parece-me que Albano Jerónimo reúne muito bem estes dois predicadozinhos.
No entanto, e isto é problema meu e não da peça, eu penso que tinha demasiadamente presente tanto o filme como o texto da peça, uma vez que a li há pouco tempo e conheço muito bem o filme, de o ter visto tantas vezes. Quem vai ver a peça na mesma situação do que eu não se consegue esquecer de Vivien Leigh nem do impossivelmente magnífico Brando, passando o tempo a pensar, "ah, no filme o Brando também faz este gesto", "ah, no filme a Vivien também se debruça assim", "ah, no filme o Brando também diz isto assim e assim", e por aí fora. É irritante, mas não é defeito da peça, é defeito meu. Daí que eu ache que quem já viu o filme há muito tempo ou pura e simplesmente não está familiarizado com a peça tem muito mais condições para se deleitar verdadeiramente com o espectáculo, ao evitar uma postura demasiadamente analítica, que, acho eu, foi o que me aconteceu e não teve piada.
No entanto, a peça no D. Maria chamou-me a atenção para outras leituras possíveis da peça que nunca me tinham ocorrido. Há um certo elemento cómico em Stanley Kowalski, na sua brutalidade, na sua masculinidade tirânica, que no filme não é revelado e que, nesta interpretação de Albano Jerónimo, é saliente. Nunca me tinha passado pela cabeça que o Streetcar desse para rir, mas a verdade é que há elementos na interacção entre Stanley e Blanche, um tão exageradamente bruto, e a outra tão exageradamente coquette, que de facto fazem rir, ou por outra - podem fazer rir, dependendo da leitura do texto. Eu nunca o lera sob esta perspectiva, e portanto Stanley e Blanche sempre me haviam parecido intensos, desgraçados, soturnos, perdidos num jogo de poder cruel e trágico. Sem obliterar esta evidência, a encenação de Diogo Infante consegue ressalvar a potencialidade cómica do texto de Tenessee Williams, que a mim nunca tinha ocorrido. E constatar que a riqueza expressiva do mesmo texto é ainda superior àquilo que inicialmente pensei foi bastante bom, ou por outra, foi "profícuo", para dar nível aqui ao postezeco.
Pus-me a pensar no que seria se fosse a Cornucópia, por exemplo, a levar à cena o Streetcar. Seria, com certeza, bastante diferente, e o meu palpite é que, precisamente, a interpretação aqui recairia mais na intensidade trágica de Blanche e Stanley do que no potencial cómico destes dois. Por acaso, ao lembrar-me disto, fiquei com vontade de ver a mesma peça encenada pela Cornucópia, que sempre que fazem qualquer coisa, fazem-no epicamente. Seria interessantíssimo comparar, depois, as duas produções e verificar como o mesmo texto poderia sofrer alterações expressivas muitíssimo diferentes. Mas isto sou só eu a especular.
Alguns excertos do diálogo foram, não percebi bem porquê, eliminados. Não me pareceu que a sua falta afectasse o impacto da peça em geral, mas de qualquer forma tinha muita curiosidade para ver traduzida e representada a seguinta fala de Stanley Kowalski:

Listen, baby, when we first met — you and me — you thought I was common. Well, how right you was. I was common as dirt. You showed me a snapshot of the place with them columns, and I pulled you down off them columns, and you loved it, having them colored lights goin.' And wasn't we happy together? Wasn't it all okay till she showed here? And wasn't we happy together? Wasn't it all okay till she showed here, hoity-toity, describin' me like a ape?

Na peça em cena no D. Maria, Stanley interrompe a fala, se bem me lembro, na parte do "how right you was". A tal questão das colunas não fica resolvida. Na famosa cena da varanda - de que por acaso receei não conseguir gostar por apenas me conseguir lembrar de Brando, e que, afinal, está muito bem representada e ainda bem - a súplica de Stanley a Stella (don't ever leave me, sweetheart, baby) é igualmente eliminada. Também estava à espera desta fala, de modo que continuei mesmo sentada à espera. Mas, como disse, o impacto geral permanece.
Em resumo, e para acabar a composição, gostei muito do espectáculo, dos actores e de tudo, e vale muito a pena ir ver. É preciso é despachar com os bilhetes, que até Outubro só há lugares de visualização reduzida, e a partir de Outubro sabe-se lá. É peça blockbuster sem dúvida, e quanto a isto nada a fazer. Mas a ir, com muita veemência, que é uma grande peça.

3 comentários:

José disse...

Curioso. Connections minhas (muito fiáveis) disseram-me que o Diogo Infante quis que os actores não vissem o filme sequer, porque a ideia era fazer outra coisa, daí que estranhe dizeres-me que está muito próximo.
Gosto imenso da Alexandra nas novelas, pelo que devo amá-la nos palcos. Acho que ela é uma boa actriz, embora se tenha perdido um bocado naquelas coisas todas. O Albano Jerónimo, enfim, tu sabes. E pronto, tenho que ir ver, que tenho tido preguiça para comprar os bilhetes. Sou cá um parvo, jesus!
E no fim de Outubro vai estar a gaivota do Tchékhov no Maria Matos! Ai que maravilha! Wooo oooo!

Rita F. disse...

Zé, eu não achei assim tão próximo - o que eu não consegui deixar de fazer foi estar sempre a comparar. Mas sim, certas posturas, gestos, fizeram-me realmente lembrar muito o filme. Mas isso também pode ser porque, afinal, o texto e as indicações cénicas são as mesmas.
Também gosto da Alexandra e sempre gostei dela como actriz, principalmente no cinema, de modo que tive pena de a ver nas novelas. Pena é como quem diz, porque, como diz o meu pai, a pena que a gente tem por quem tem conta no banco recheada é sempre necessariamente relativa.
Ainda bem que me avisas disso da Gaivota, que desconhecia. A ver se não me esqueço.

Fado Alexandrino disse...

Vou dia 15, depois colocarei a minha opinião que uma vez que aqui já foi tudo dito se irá basear nas "socialities" e respectivos vestidos que aparecerem nesse dia.
Já agora penso que a peça termina em Outubro.