quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Stella!


Outro livro, por acaso também drama, que li este Verão foi, finalmente, o Streetcar Named Desire.

Como já falei muito sobre o filme, que segue a peça, não tenho muito a dizer, para além do óbvio, que é o facto de a Stella, na versão cinematográfica, ser mais decidida e politicamente correcta, aparentando livrar-se do marido abusador, ao passo que no livro já não é bem assim. A pobre Stella prefere acreditar que o seu Stanley é incapaz de abusar de uma alma desprotegida como a Blanche e permanece, mais ou menos alegremente, casada com ele.

No fundo, pode pensar-se que Stella é fraca e alienada, mas ela talvez seja uma sobrevivente. Acredita no que tem de acreditar para se sustentar, a si e ao filho. E, na falta de outros meios, um marido violento e abusador, que ela quer acreditar ser gentil e forte, é o seu único sustento.

Quando vemos nas notícias casos imperdoáveis e incompreensíveis de violência doméstica, é fácil pensar "que tipo de mulher fica com um homem destes, se fosse eu pegava nas malas e era divórcio e polícia na hora, etc, etc.". Não me passa pela cabeça vir para aqui adiantar qualquer tipo de explicação para estes casos, que não compreendo e espero nunca vir a compreender. Mas, por vezes, as pessoas fazem aquilo que consideram ser a única alternativa possível.

E portanto, talvez a Stella do Eléctrico Chamado Desejo, no final da peça, corresponda mais à figura de sobrevivente do que de fracalhota. A sobrevivência nunca é assim muito bonita, e a decisão da Stella também não.

4 comentários:

José disse...

É um belo post, também comprei a peça há uns dias, para ler antes de ver o espectáculo no Dona Maria II. Depois quero ler aqui os seus pareceres sobre a mesma, também, e assim ficará o trio completo: filme, texto e espectáculo. Isso é que era.

Fado Alexandrino disse...

Ainda bem que volta a escrever sobre este filme pois há dois ou três pormenores a acrescentar.
Primeiro e que explica um soberbo desempenho
Vivien Leigh, who suffered from bipolar disorder in real life, later had difficulties in distinguishing her real life from that of Blanche DuBois.
Segundo o que explica que estamos em todo o lado
The poetry quote, " ... and if God choose, I shall love thee better after death", is from "Sonnets from the Portuguese, No. 43" by Elizabeth Barrett Browning (1850).
E terceira, a peça no teatro do Diogo Infante está a vender como pãezinhos quentes. Dizia num site um leitor entusiasmado " vou pela primeira vez ao teatro e nem preciso de explicar porquê".
Eu também quero ver se consigo bilhete e aposto que vou lá pelo mesmo motivo daquele.
As citações são do IMDB que está de cara lavada e vale bem não um cavalo mas sim uma manada inteira.

Con Franco eto no pasaba... disse...

por Sanjurjo... menudo Cantimpalo!

Rita F. disse...

Zé, por acaso vou de facto ver o espectáculo e conto escrever sobre ele, se tiver que dizer.

Fado, eu tendo a duvidar das comparações entre a vida e a arte... embora se diga que a primeira consegue ser mais rebuscada do que a segunda, e a verdade é que nunca se sabe. :)