segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Oxford é quando um homem quiser


Tenho para mim que há poucas coisas tão deprimentes como ver o comum dos ingleses de férias.
Há pouco tempo, tive de me dirigir a uma coisa que é o Aeroporto de Stansted, num baldio qualquer ao pé de Londres, para apanhar um voo. Acontece que este aeroporto é uma espelunca pior do que qualquer aeroporto dito "normal", muito mais se for no Verão, como era o caso. As filas eram intermináveis, e ainda por cima cheias de ingleses muito louros a gritar com os filhos. Há um nome que, quer se goste quer não, se dá a este tipo de gente e que é o "chav" - uma espécie de white trash britânico. É terrível, tudo isto é triste, tudo isto existe e nem sequer é fado.
Continuando. Há um certo tipo de ingleses que, quando grita com os filhos, não poupa nem a garganta, nem os recursos linguísticos apuradíssimos de que dispõe. Aquela ideia muito pré-concebida de que os ingleses são educados, muito reservados, muito comedidos, não passa disso, de um preconceito instituído por uma certa ideologia de classe e que raríssimas vezes corresponde à verdade. Ora tentemos viajar num qualquer autocarro em Londres que calha ter de fazer um desvio, ou não poder parar numa certa paragem por obras na estrada, e é ouvir o que têm as pessoas para dizer. Bate qualquer senhor de Alfama, e se for preciso ainda vão ter com o motorista e massacrá-lo com ternuras linguísticas de tal modo que o homem, normalmente, acaba por se encolher e calar-se. Até senhoras, normalmente já obesas do fish and chips ou das comidas de microondas (ou adolescentes, na maior parte dos casos), e com carrinhos de bebé, gritam ao disparate, a dizerem que o motorista é um "cock" porque não sabe parar o autocarro, innit.
Vejo, portanto, na tal espelunca que é o Aeroporto de Stansted, umas quantas pessoas à minha frente, e depois um inglês muito ursino, cheio de tatuagens e com uma corrente ao pescoço e, obviamente, de fato de treino. Ao pé dele estava a mulher, também ursina, mas mais loura, e atrás três miúdos, os filhos. Só se podia ter pena daqueles miudinhos. O mais velho ouvia do pai, descontrolado e aos gritos, que ou se calava ou levava um murro na merda da boca. Quando o pai se virou finalmente para a frente e decidiu deixar o rapaz em paz, vi o mesmo rapaz desafiá-lo com um movimento rápido de cabeça, que com certeza evitaria se o pai estivesse a olhar para ele. Tive pena - quem com certeza merecia um murro na merda da boca era evidentemente o pai, e o miúdo, que revelava alguma inteligência, tinha decidido calar-se ao invés de o provocar ainda mais.
Isto na fila de segurança. Chegado ao chamado "lounge", repleto de gente sentada no chão irritada porque o voo para Ibiza ou Tenerife ou qualquer outro local assim interessante estava atrasado, o espectáculo era ainda mais deprimente. Abundavam jornais excelsos como o Sun ou o Daily Mail pelo chão,Coca-Colas, os melhores fritos do McDonalds, unhas descascadas, miúdos descalços aos berros, sem saber se queriam dormir ou brincar, os pais normalmente a ignorá-los, adolescentes em grupo a carregar na maquilhagem já a sonhar com certeza com possíveis engates nas tais Ibizas e Tenerifes para onde com certeza iam, para depois poderem engrossar as já de si grossas e famosíssimas estatísticas de gravidez adolescente no Reino Unido.
Como em todo o lado e como em qualquer país, a chamada "civilização" não é para todos. É para quem, de uma forma ou de outra, conseguiu acesso. E este acesso não se faz no aeroporto de Stansted, faz-se ao transpor um certo fosso que existe e está bem escavado entre o mesmo aeroporto de Stansted e Oxford e Cambridge, por exemplo. E isto aplica-se não só a Inglaterra, mas também a Portugal, que tem muitos Stansteds e poucos Oxfords. Um Oxford para cada português, é aquilo que eu defendo.

3 comentários:

Poetic GIRL disse...

Engraçado presenciei isso mesmo quando aterrei em liverpool, tão, mas tão diferente de aterrar em Heathrow ou Gatwick... adorei o post! bjs

Rita F. disse...

Poetic Girl, eu tendo a abominar todo e qualquer aeroporto no Verão. Mas sim, Heathrow ainda se safa... têm a mania de tratar toda a gente como terrorista, mas o que é que isso interessa. Não incomoda nada.

Rui Almeida disse...

Eu nunca estive em território britânico (mentira, estive em Gibraltar há uns 20 anos...), mas posso constatar frequentemente isto q dizes, pois utilizo com regularidade o 22 da Carris, q tem paragem no aeroporto.
E pior do q bimbos na sua própria terra, é bimbos na terra dos outros convencidos de q são superiores.