sexta-feira, 17 de setembro de 2010

E lembrei-me agora de outra coisa que, possivelmente, acrescentaria à mesma lista do "á" e que ouvi hoje no café. Passo a transcrever, de memória, o diálogo:

- Olá! Então, estás bom?
- Oh! Desculpa lá, agora não tava-te a conhecer, oh!

Devo dizer que isto me dá muita vontade de rir. "Não tava-te a conhecer", "não tou-te a ouvir", em vez de "não te estava, não te estou" é com certeza feioe medonho, mas tem o seu cariz cómico.
A culpa não é das pessoas, a culpa é da língua portuguesa, que tem exigências que não fazem sentido. Quer dizer, se a frase for afirmativa, as pessoas põem o clítico num certo sítio (tou-te a conhecer), mas basta a frase passar a negativa que já tem de se mudar tudo (não te tou a conhecer). Nesta problemática, a minha simpatia pende para o lado das pessoas e não para o lado da língua portuguesa que, sinceramente, parece daquelas cabeleireiras amantes de senhores com Mercedes de aliança no dedo que só sabem pedinchar coisas caras e depois levam os homens à falência. A culpa é toda delas, pois é. Delas e desta língua portuguesa, que nunca está satisfeita, aliás - a gente nunca consegue-la satisfazer.

3 comentários:

Rui Almeida disse...

Rita, em rigor "não te estava a conhecer" e "não te estou a ouvir" também não é o correcto, em termos estritamente gramaticais. Será antes "não estava a conhecer-te" (e aqui, o mais acertado seria o verbo "reconhecer") e "não estou a ouvir-te", q são formulações q soam mal. A mim parece-me q a língua portuguesa (e creio q as outras também, em menor ou maior grau), na sua lógica, exige muitas vezes certas cacofonias, o q, quanto a mim, justifica um ou outro atropelo à gramática na linguagem informal.

Fado Alexandrino disse...

Numa pequena pausa estava a ler a toda a mecha o post e de repente "as pessoas põem o clítico num certo sítio" até dei um salto.

Mas tinha sido apenas uma (queria muito aqui pôr o termo técnico em que as pessoas trocam palavras parecidas com sons parecidos ou qualquer coisa do género, mas não sei qual é).

Mas aquilo em que eu pensei, sim , táva mesmo a conhecê-lo.

Rita F. disse...

Rui, é claro que sim, a linguagem informal justifica o atropelo da gramática. Não só a linguagem informal - o uso da língua também. O que me parece é que não estamos aqui a falar tanto de regras estritamente gramaticais, mas mais de questões de uso da língua, pragmáticas, que inúmeras vezes contrariam a gramática. Não acertar nos proclíticos ou mesoclíticos ou etc não é violar uma regra gramatical da mesma forma que o é não acertar nas concordâncias verbais, por exemplo - e, no entanto, todos estes erros acontecem frequentemente e raramente há ambiguidades de significado, o que quer dizer que a comunicação se processa sem qualquer problema. Talvez daqui a alguns anos seja mais natural, porque o uso da língua assim o impõe, dizer "não tou-te a conhecer" do que "não te estou a conhecer" ou "não estou a conhecer-te". E, por mim, tudo bem, desde que não se percam as tais cacofonias de que falas, os tais atropelos, que dão sempre muita piada à língua.

Fado, também não tou a ver. Não tou-lhe a ver, não.