quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Colégios internos


Há uns mesitos, vi um documentário sobre Enid Blyton num canal qualquer. Os livros da sua autoria de que eu gostava mais eram o Colégio das Quatro Torres, em que a personagem principal era a Diana, que tinha muito mau génio, e as Gémeas no Colégio de Santa Clara. Tudo o que se passasse em colégios internos ingleses, porém com professoras de francês que eram as Mademoiselles, piqueniques à meia-noite e refeições que incluíssem rosbife com pickles, eu adorava. Isto já para não falar de aulas de natação em piscinas naturais, desportos que eu ignorava por completo como se jogavam, como o lacrosse, e o maravilhoso sistema hierárquico e quase militar em que as meninas mais novas, caloiras reles, tinham de ir às salas de estar que as alunas mais velhas partilhavam com as suas melhores amigas à frente da lareira, e limpavam tudo e engraxavam sapatos. Nunca tendo eu gozado do direito de ter alguém para me engraxar os sapatos, queria muito ir para um destes colégios internos, esquecendo-me convenientemente de que entraria como caloira e estaria, literalmente falando, feita ao bife.
A mania dos colégios internos passou-me, e passou-me definitivamente depois de ver o If, que narra precisamente a história de um rapaz (o mesmo da Laranja Mecânica, o impecável Malcolm McDowell) que, tendo passado a vida num colégio sofrendo violências físicas por parte de alunos mais velhos e professores, decide reunir um grupo de revoltados como ele e matar toda a gente à metralhadora. Sei que não parece, mas há alguma beleza nisto.
De modo que a mania de colégios internos, efectivamente, já não tenho, e além disso esta minha mania antiga não se relaciona de modo algum com os propósitos deste post, que têm antes a ver com aquilo que concluí depois do tal documentário sobre a Enid Blyton e ao esforçar a memória para me lembrar das historietas das Quatro Torres e de Sta Clara - todas as meninas tinham uma melhor amiga, já se sabendo que a menina y era a "pertença" da menina x, envolvendo normalmente um elemento dominador, que falava mais e tomava mais decisões (a menina y, por exemplo) e um elementos mais passivo (a menina x). Nada mais óbvio do que a relação entre Diana e Celeste, na série das Quatro Torres, amiguinhas, amiguinhas, sendo a Diana um vendaval de mau génio e a Celeste uma certinha querida. Complementam-se, portanto.
Não era só de amizade que estes livros falavam. A conclusão que eu retirei disto tudo era que se estava na presença de verdadeiros casais. Depois fui ler coisas à Wikipedia e vi que tinha razão, e portanto contra os factos da Wikipedia não há argumentos.
É só isto, peço desculpa se estavam à espera de outra coisa.

8 comentários:

Maariah disse...

Nunca li o Colégio das Quatro Torres mas lembro-me bem das Gémeas no Colégio de Santa Clara. Descobri e li uma edição mais antiga que era da minha prima mais velha. E também eu sonhava em ir para um Colégio Interno. Devo dizer que mais tarde tive uma experiência muito semelhante à de estar num Colégio. Mas o que queria dizer era que vi há pouco tempo uma nova edição à venda na Fnac e andei a ver o livro. Acho que o vou comprar para oferecer à minha prima mais nova.

Anónimo disse...

Por acaso andava por ali a organizar os meus livros que estavam na maior confusão e lá estavam eles...O Colégio das Quatro Torres, as Gémeas, os Sete, O Mistério...curiosamente quando chegou a idade de a minha filha os ler, não lhes achou graça nenhuma.
O que foi uma pena...Lembro-me que o primeiro livro que li foi o dos Cinco na Ilha do Tesouro, lembro-me perfeitamente que estava tão ansiosa pelo meu primeiro livro a sério, que quando a minha mãe me mandou tomar banho e ir para a cama, eu enchi a banheira, agitei a água e vesti o pijama mesmo assim toda porquita porque mal podia esperar para o começar.
Ainda são edições do tempo da minha mãe
Susana

Fado Alexandrino disse...

É um post de meninas para meninas sobre meninas, mas vou meter uma colherada.
Ainda hoje me recordo com extrema saudade de " O Tigre de Mompracém" do fantástico Sandokan (aqui era muito novinho) depois cresci e nunca mais me esqueci da Tulipa Negra, do Mandrake e do Fantomas.
Netas e netos agora só querem saber onde é que se faz "play".

José disse...

Não acho que seja post de meninas e para meninas. Essa ideia de nas relações haver sempre um elemento passivo e um activo tem muito que se lhe diga. O Fassbinder amava-a. O mais giro é que, por vezes, o passivo - se for esperto - acaba por ser o activo. Nunca li essas histórias, mas é claro que à Celeste, por ser queridinha, basta ser um bocado esperta para se pôr constantemente à frente da outra, cujo nome esqueci. Tudo sem que alguém dê conta. Não se trata de ser malévolo, mas de saber usar a sua «posição no mundo». Eh, eh.

Rita F. disse...

Maariah, espero que a prima goste. São bons livros para lermos numa certa idade, e depois já não achamos piada.

Susana, a história do pijama está tão gira. Eu, por acaso, dos Cinco não gostava muito devido ao pai da Zé, que era um bruto que nunca lhe ligava nennhuma. Fazia-me impressão.

Fado, lá está, Sandokan para mim era muito à rapaz. Isso de ser o Tigre não sei de onde não me atraía muito, mas do filme gostei bastante. Acho que era com o Errol Flyn, será possível? Também acho que escrevi o nome do actor mal, mas agora não vou ver. No entanto, tinha uma banda desenhada do Mandrake, que depois também apareceu nuns desenhos animados que eram os Saviours of the Earth, e foi o meu herói preferido durante muito tempo.

Zé, concordo consigo, para não variar. O passivo, se for esperto, acaba por mandar no activo. É porque o passivo tem mais tempo para pensar, e o activo não, é convencido, pensa que o poder se mantém para sempre. Mas não mantém, não, e o activo devia mas era ler Maquiavel. Não concorda você? Quanto a Fassbinder, não me posso pronunciar porque enfim, ainda não cheguei lá, mas acredito no que diz, pois com certeza.

José disse...

Concordo perfeitamente com você, e agradeço a referência a Maquiavel, que agora fiquei com vontade de ler. O que recomenda?

Rita F. disse...

Na verdade, a única coisa que li foi uns excertos do Príncipe, há muito tempo. Também para voltar a dizer a verdade, não gostei muito, mas lembro-me da citação que estava na capa, e que era "o bom Príncipe prefere ser temido a ser amado, porque o amor quebra-se, mas o medo mantém-se"
Continuando na verdade, isto do Maquiavel era mais impressionar do outra coisa, mas com você não resultou, descobriu-me a careca! :D

ecila disse...

Li os dois colégios e ainda tenho essas coleccoes, livros pequeninos que devorei com tanta avidez :)

O que nao me impediu, claro está, de gostar do Mandrake, do Fantasma (The Phantom), da Red Sonja e do Conan, etc. Bandas desenhadas oferecidas por pessoas de outros tempos, a quem muito agradeci (e agradeco) e a quem devo horas de aventuras na cabeca.