segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

A conclusão a que cheguei desde que me apresentaram ao George Clooney:

As pessoas falam de determinados rituais de passagem que marcam a vida adulta, ou marcam uma determinada idade, como deixar de usar fraldas (ou passar a usar fraldas), deixar de usar chupeta para adormecer, começar a sair à noite, começar a tomar café, começar a comer ensopado de borrego e gostar realmente de semelhante prato, deixar de achar piada aos Caça-Fantasmas, começar a tomar café, casar, ter filhos, comprar carro, preencher a primeira declaração de IRS, em geral, aburguesar. E isto está tudo muito bem, cada um é que sabe quais são as suas prioridades.
Por exemplo, uma das minhas prioridades é tomar café. Desenvolvi este gosto relativamente tarde, porque só iniciei seriamente a minha carreira como bebedora de café quando precisei de ficar acordada para estudar para os exames. Vai daí, comecei com umas três bicas por dia e nunca mais parei. Agora até já bebo café sem açúcar e tudo, o que é sinal de sofisticação entre as pessoas que bebem café, penso eu. E estes pequenos sinais da vidinha confortável, de uma certa burguesiazinha, o café sem açúcar, o ir ao café, o quentinho do café, digamos que me aprazem bastante.
Ora acontece que, recentemente, e por via de amigos queridos, eu passei ao nível seguinte da carreira de um bebedor de café. E qual é o nível seguinte? É ter uma máquina de café em casa. E qual é o nível ainda mais elevado? É a máquina ser Nespresso. Sem comentários, não é?
Atenção - não venho para aqui fazer publicidade, e mais, apesar de considerar o George Clooney um indivíduo de grande potencial e interesse estético, sei muito bem quando me estão a enganar. E sim, considero que de certa forma a máquina Nespresso engana as pessoas, até foi por isso que eu, quando fui à loja registar a máquina, disse ao senhor "olhe, eu compro-lho o café, que é bom, mas eu sei que isto é uma operação de marketing muito bem montada. É só para saber que eu sei", ao que o senhor respondeu, "é verdade, mas de facto o café é bom", ao que eu repliquei, "pois é, é mesmo bom". E foi assim. Acho que quem ganhou foi o senhor, mas pronto.
A verdade é que agora ando por aí com um cartão Nespresso na carteira, que nem tem o meu nome nem nada, mas que me dá acesso ao "clube" nas lojas da dita marca, e dá para eu comprar o café todo que eu quiser, fraco, forte, colombiano, brasileiro, decaf, expresso, longo, curto, cozido e assado, proveniente de uma máquina lindíssima, aquelas linhas elegantes, uma pessoa vê aquilo na cozinha e pensa "mas realmente, eu para ter este design na cozinha devo ser mesmo uma pessoa bem-sucedida". É que não dá para pensar mais nada.
Dantes, a vida burguesa era feita, talvez, dos episódios da vida romântica que o Eça descreve nos Maias, os cafés, sim, as bengaladas no Chiado, as modistas, as burguesinhas arrasadas de romance ou, mais recentemente, de telenovelas, uns sapatos novos nos anos ou no Natal, uma Coca-Cola em dias de festa; hoje em dia, a vidinha burguesa aumentou de volume, tornou-se complexa, "pós-moderna", "cosmopolita" - para quê um simples leitor de mp3 quando se pode ter um ipod, para quê comprar um jornal quando se pode ler as notícias no ipad, tão mais prático, para quê dizer "comes e bebes" quando se pode perfeitamente dizer "food and beverage", para quê ter uma máquina de café qualquer quando se pode ter uma Nespresso e viver confortavelmente rodeado deste sinais consoladores de gratificação pessoal. 
E eu, o que tenho eu a dizer de tudo isto? Primeiro, que não descobri a pólvora nem escrevi nada de novo e que não se saiba já e segundo, que gosto tanto da máquina Nespresso. É que o cafezinho é tão bom, e vem com espuma, e é tão quentinho e consola tanto de manhã. Devo ser mesmo uma pessoa bem-sucedida. Pois é.

5 comentários:

josépacheco disse...

Ah, Mariana, durante o Natal e assim andou, realmente, por um mundo paralelo. Já estava com saudades do humor e do brilho que reencontro neste post que, claro, adorei (e «adorei» não era uma palavra boa para a palavra da década?)

Eu disse...

Bom, folgo em saber que há determinadas prendas que mudam a vida de uma pessoa, ainda por cima quando essa mudança vem acentuar a sofisticação. Nada me podia deixar mais contente que este discurso de agradecimento dos novos momentos mais quentes, mais saborosos e cremosos! Um beijo!

moço disse...

Pôr açúcar não se faz. Devia haver esse sinalzinho à porta de certos cafés, ao lado daquele que proibe fumar (embora goste do fumo): o da saqueta de açúcar com um traço vermelho.

Fado Alexandrino disse...

Um post muito saboroso.
Mas minha senhora/menina ainda está na Idade da Pedra do Nespresso.
Não vou agora dar aqui todos os segredos que só o tempo e muita cafeína a ajudarão mas o primeiro conselho é vital.
Nunca se fala de um café mas sempre de um (conforme o gosto) Vivalto Lungo, Ristretto, Dulsão do Brasil etc.
É assim.

Membro do Clube 1726XX

Mónica disse...

Pois eu tenho em casa, desde que foi lançada, uma máquina Nespresso a ganhar verdete. Por mais Vivaltos ou Ristrettos que inventem, nunca chegarão aos calcanhares de um BOM café expresso tomado na rua (que, diga-se em abono da verdade, também é cada vez mais difícil de encontrar).