segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Gajo que faz mesmo o meu estilo: Anthony Bourdain

Comecei a ver o programa deste senhor, "No Reservations," na SicRadical, e a princípio achava aquilo um bocado parvo, porque este Tony tem a mania de que é um rebelde mal comportado, drogas e tal, ex-portador de brinco na orelha e cigarro ao canto da boca, e tudo se conjugava para que eu o considerasse um bocado falso, ou com a adolescência mal ultrapassada. Depois percebi que ele é mesmo assim - é o chamado "cool". E , ainda que de facto insista demasiadamente na sua veia de rebelde com pouca causa, este homem é mesmo um fixe. Viaja e come com um prazer que me parece sincero, e interessa-se genuinamente pelos sítios que visita, pela comida que prova. Aprecia tudo, mesmo comida rápida, desde que seja boa. Uma vez, vi-o a provar uma sanduíche gigante, com meio quilo de bife, queijo derretido, salsichas, ketchup, salada, tudo lá para dentro, e, enquanto a degustava, dizia: "Este é o antídoto para a Alice Waters". Lindo.
Portanto, tudo o que seja delicodoce, levezinho, e chato como tudo, o Tony não gosta. A comida é para a gente gostar. Sempre que me vêm falar de comida assim e assado, ah, porque é mais saudável assim, ah, porque é mais "bio", ah, porque tem muito sal, eu respeito, sim; respeito, e levo a sério, porque, por exemplo, há determinados assuntos, como o tratamento que se dá aos animais que depois consumimos, que devem ser também levados a sério. No entanto, a onda da comida asséptica e queridinha tipo Jamie Oliver (e eu gosto do Jamie Oliver, a sério que gosto) irrita-me. Acho que só pensa em comida como se fosse uma mercadoria qualquer da moda quem nunca comeu verdadeiramente bem - e isto facilmente explica a proliferação de programas culinários fofinhos na televisão inglesa (atenção ao adjectivo gentílico), ele é Jamies, ele é Nigellas, ele é Gordon Ramsays, uns que cozinham na natureza com produtos biológiocos, outros que vão à caça, outros que fazem desafios culinários a ver quem cozinha mais depressa e melhor, tudo como se a comida, ou o acto de comer, fosse uma espécie de cristais Swarovski, não propriamente diamantes, mas algo que convém usar, ou ter em acessórios ou "bibelot" porque dá aquele toque de classe, um certo je ne sais quoi - em vez de vinagre Cristal, um balsâmico; em vez de mozarella, que também já cansa, um queijinho burrata, nome deslumbrante; em vez da tasca da esquina com bebida+prato+café a cinco euritos, porque não um gourmet low cost, onde se come alheira à mesma, mas assim como assim é mais caro, ainda que low cost - é a beleza da coisa. E é bom, em podendo, uma pessoa marcar bem o seu lugar na sociedade - a comida serve também para isso, e por mim está tudo bem, afinal, se passámos por uma ditadura, depois por uma revolução, e por tantas amarguras, já ganhámos o direito a ser finalmente burgueses, toca a aproveitar.
No entanto, tenho para mim que quem gosta de comer bem  identifica-se com certeza com o Tony, que gosta de qualquer prato desde que seja bom. Se é ou não vegetariano, se é ou não saudável, ou gourmet, disso ele já não quer saber, e pelos vistos tem-se dado bem, porque basta olhar para ele e ver que é um indivíduo todo jeitoso. Além disso, o Tony vai aos sítios, a países diferentes, e tem um olhar bem mais interessante, e bem mais profundo, do que o dito Jamie Oliver, que de vez em quando também viaja e acaba sempre por cozinhar a mesma coisa, sem grande esperteza para aprofundar costumes ou peculiaridades da região. Por exemplo, uma vez foi à Grécia e cozinhou bife de atum (!) na praia. É que me deu logo vontade de ir ali à Madeira, por exemplo, onde têm uma coisa mais ou menos parecida (só mais ou menos) e parecendo que não, sempre sai mais em conta do que ir agora apanhar avião para ir experimentar essa iguaria rara e super-grega, aliás, tipicamente grega, que é o bife de atum.
Mas não vou bater mais no ceguinho, ou como quem diz, no sopinha-de-massa, que o Jamie Oliver tem muito mérito, não é pretensioso e preocupa-se com aquilo que os miúdos comem nas cantinhas e tal. No fundo, o meu propósito era apenas e só dizer isto: gosto muito do Tony Bourdain porque, tendo sido chef profissional, tem autoridade na matéria e gosta de qualquer comida pelo prazer que a comida dá (além disso, escreve bem; estou agora a ler um dos seus livros, Kitchen Confidential, e estou a gostar bastante). 
Não me parece que a comida deva ser mais ou menos do que isto - um prazer da vida. 

8 comentários:

Olívia Palito disse...

Costumo ver esse programa e acho o máximo. Mistura o sabor de várias culturas na confecção e preparação dos pratos. Ficamos a conhecer sempre algo novo em termos gastronómicos. Muito bom. :)

esse gajo é o Boucherie Mendes da coulinária: um retarded com ar de cool disse...

devia De ser

Impalado

num cactus seco

e deixado

a morrer ao Sol.

mais um atrasado disse...

o Aznavour chorava a comer picanha há meio século.

a história não se copia, é fractal.

Tânia Serra disse...

ena ena

este blog anda meio esquizo

o jamie é fofo, era capaz de engolir o seu sémen.

Fado Alexandrino disse...

Por favor concentremo-nos em comida mais natural e deixe-nos de alfinetes de peito.

Lisboa Antiga Av. Gomes Pereira 40 Benfica-Lisboa ás segundas cozido à portuguesa com um EA tinto.

Se não gostarem digam que vão da minha parte qu eu pago.
Se quiserem ser minhas convidadas favor contactar o e_mail.

If you ever get caught between the Moon and Teatro S. João no POrto disse...

be sure to check the crowded snack-bar on the street to your right.

until 23hoo they serve Kobe beef and koBE CHEESE sandwiches

(nail in a bun, as locals call it)

the best in town

Rita F. disse...

Nail in the bun! :D

Desde que seja sem cheese, by mim is tudo bem. I like very much.

Drª taberneira disse...

ando numa fase em que o meu programa favorito é ir comer fora, conhecer novos restaurantes e comida. deve ser da idade, não sei.