quarta-feira, 7 de julho de 2010

Eu posso gostar de Sims3 mas ainda sou pessoa

Pode ler-se, no Y da semana passada, uma entrevista com Alberto Manguel em que este diz que dantes as pessoas tinham vergonha de dizer que eram estúpidas, que só se interessavam por moda ou por jogos de computador, e que hoje em dia já não; hoje em dia, destrói-se "o valor do acto intelectual" e já ninguém tem vergonha de ser estúpido - pelo contrário, é, às vezes, motivo de vanglória.
E a razão para, em geral, haver mais gente estúpida é porque há muito dinheiro a ganhar com gente estúpida e pouco dinheiro a ganhar com gente inteligente. Pois é.
Nota para dizer que, depois de ler esta entrevista, senti-me muitíssimo mal por ter escrito aqui que gosto de jogar Sims3. Se tivesse lido isto antes, nunca teria admitido tal coisa em público. Agora é tarde demais.
Continuando, que isto foi só uma espécie de declaração de interesse, muito honesta, e isso é de louvar. Dizia-se, então, que há mais dinheiro a ganhar com a estupidez do que com a inteligência. Sim. Mas também há um argumento falso de que os media e o consumo promovem a estupidez porque "é isso que as pessoas querem".
Os media e a sociedade de consumo promovem a estupidez porque é mais fácil ser estúpido do que ser inteligente. Não acredito muito que sejam as pessoas que procuram a estupidez. Ah, mas as pessoas vêem o Big Brother, e lêem o 24 Horas (agora já não - faz falta aqui o Nelson, dos Simpsons. Favor confirmar http://www.youtube.com/watch?v=AzSnk3Rbkgk) e gostam das telenovelas da TVI. Pois é. Mas também gostam de outras coisas. Ou poderiam gostar. A gente habitua-se a tudo.
De modo que a estupidez parte, de facto, dos media e deste apelo desenfreado ao consumo (cada vez tenho menos respeito pelos meios de comunicação social, especialmente porque reconheço a sua importância fundamental; vê-los insistir em trilhar um caminho de estupidez fácil e de pouco rigor é que é inaceitável). Sim, quem vai na conversa tem a sua parte de estupidez. E talvez haja gente mesmo estúpida. De facto, há. Mas eu tenho uma inefável, estranhamente optimista sensação de que são uma minoria.
Wishful thinking.

4 comentários:

lenor disse...

Nada é puro ou total: nem a estupidez nem a falta dela.
Ó aqui pra mim!
:)

Luís Filipe Cristóvão disse...

é de facto uma ideia muito certeira, a que mede o fazer dinheiro a partir da estupidez ou da inteligência das pessoas. faz-me lembrar que nenhuma (ou quase nenhuma)publicidade sugere ao cliente uma compra inteligente, mas uma compra tout-court.
pensar é o primeiro passo do não comprar.

ainda assim, não acredito que as pessoas possam ser estúpidas ou inteligentes, ponto. todos nós somos estúpidos em determinadas ocasiões e temos momentos de inteligência noutras. o pior disso é que não os podemos escolher. quase nunca podemos dizer "agora vou ser estúpido ou inteligente de propósito". até porque isso pareceria estúpido.

enfim...

Rita F. disse...

Lenor, Luís - concordo, concordo, concordo. Ninguém é completamente estúpido nem completamente inteligente.
E porém. Talvez uns sejam inteligentes com momentos de estupidez e outros sejam estúpidos com momentos de inteligência.
É que há gente admirável.
E também há gente execrável.
"Pensar" nisto.

Rui disse...

"...porque é mais fácil ser estúpido do que ser inteligente."

Eu acho que é aqui que está o problema.
Façamos uma analogia com a comida: se, no final de uma refeição mais ou menos controlada, eu tiver de escolher entre uma peça de fruta ou uma malga de doce, dificilmente eu resisto a esta última, mesmo sabendo que normalmente os doces me estragam a refeição e a digestão.

Por outro lado, a lógica de mercado aplicada aos meios de comunicação social tem como natural consequência o terem de responder à pergunta: o que é que as pessoas vão comprar, a fruta ou o doce? Como a resposta é óbvia, disponibilizar-se-ão muito mais doces do que fruta. Depois as pessoas enjoam claro, mas isso é outro problema; só que muito antes de isso acontecer já os que vendem só fruta fecharam as portas...