terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Perdida


Os meus vizinhos mudaram, há pouco tempo, a porta de entrada e o tapete. Isto quer dizer que eu saio do elevador e vejo uma porta desconhecida, um tapete desconhecido e, à míngua de outros elementos de identificação, fico sem saber se aquele é mesmo o meu andar ou se, por acaso, me enganei no botão do elevador e saí no andar errado. Fico ali parada, a interrogar-me se hei-de meter a chave à porta e ter a sorte de ser mesmo a minha porta, ou se tento arrombar a porta de outra pessoa, que depois pode chamar a polícia e é uma chatice.
O caso tornou-se ainda mais grave quando pintaram os prédios do meu bairro todos de igual. Agora, fico à nora para saber qual é o meu prédio. Noutro dia, entrei num edifício que parecia o meu, com um elevador que parecia o meu, e subi para o meu andar. Pus a chave à porta, abri-a, mas quando entrei no apartamento pensei que a minha casa tinha sido invadida por extraterrestres. Da cozinha saía um cheirinho reconfortante de carne assada. Na sala, a televisão mostrava desenhos animados. A estante, em vez de livros, tinha bibelots e fotografias de criança. Havia brinquedos espalhados pelo chão por todo o lado. Da cozinha saiu um homem gorducho, com barriga de cerveja, mais ou menos da minha idade mas meio careca, que me sorriu, disse estar a fazer o jantar e que o miúdo precisava de ir tomar banho. Naquilo que era o meu escritório já não havia escritório nenhum, mas antes um mimoso quartinho de criança, com uma cama coberta por um edredon fofinho onde um menino pequeno brincava com um peluche qualquer.
Percebi logo que me tinha enganado na casa, suspirei de alívio e fugi dali a sete pés. Quando ia a fugir, com todos os meus sete pés, e até oito se os tivesse, vi entrar no prédio uma senhora mais ou menos da minha idade, sem barriga de cerveja mas com franja de cabeleireiro. Voltei a suspirar de alívio. Ainda me enganei umas quantas vezes até dar com a minha porta, mas finalmente encontrei-a. Não tenho nenhum edredon fofinho nem hábito de fazer carne assada, mas ao menos na minha casa, sei com o que posso contar. Tenho é de a conseguir encontrar.

3 comentários:

Fado Alexandrino disse...

Uma muito boa escrita surrealista com tons oníricos e alguma nostalgia de uma missão (ainda) não cumprida.
Não admira que quem escreva assim dedique um post enorme ao Synecdoche, New York.
Vi esse filme há uns tempos atrás. Mandei-o vir porque estava muito bem classificado e tem dois actores que muito gosto no caso o Philip Seymour Hoffman e a Catherine Keener e de quem já vi belas fitas.
A cerca de um terço do filme comecei a ficar cansado não estava a conseguir seguir a história desisti e vejo-o agora porquê.
Aborrecido deitei-o fora e fiquei a pensar que só grandes mentes é que podiam entrar naquilo que me parecia uma grande confusão.
E agora não sei se o que pensei estava certo ou errado, vou mais pela primeira certeza.

Rita F. disse...

Este post foi vergonhosamente "inspirado" num texto de Lobo Antunes - não o Fado Alexandrino, mas uma belíssima crónica chamada "Os Meus Domingos". O surrealismo, por mais que me custe, vem todo daí, e não de mim... eu não consigo inventar nada. :(

Fado Alexandrino disse...

Houve um fulano que disse (podia ter sido eu, mas ele adiantou-se) que o sucesso é um por cento de inspiração e noventa e nove por cento de transpiração.
No seu caso a transpiração é ajudada por uma formação base presumo que num ramo qualquer de humanísticas, e digo isto porque tenho vindo a ler, com grande agrado, o seu blog (já vou para lá de metade, ao calhas) e nota-se o dedo de quem muito tem lido e estudado sobre leitura.
Tem alguns post que são simplesmente admiráveis, autênticas peças de joalharia de escrita.
Isto apenas para lhe dizer que de entre os posts que li retenho dois filmes que parece não ter visto e que são grandes momentos de cinema.
São eles Irina Palm e o The Kite Runner .
Neste era o livro que era mencionado.