segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Não tenho título, é sobre a Leni Riefenstahl

Graças às maravilhosas benesses da "hiperligação" da internet, descobri este site com uma série de artigos de Clive James, à borlix (adoro esta expressão). Ando a ler uns quantos, e dos que li gostei particularmente do artigo (no fundo ensaio) sobre Leni Riefenstahl. O texto é muitíssimo eloquente, quanto a mim, e diz-se a certa altura:
Some spectators thought even at the time that her cinematic gift had served to legitimize a murderous ideology, but almost nobody belittled her artistic talent. She was thus able, when the Nazis lost, to invoke the principle that art trumps politics. (...) Steven Spielberg said he wanted to meet her. If he had made Schindler's List ten times, he could not have undone the portent of such a wish, because he was really saying that there can be art without a human framework, and that a movie can be made out of nothing but impressive images. 
O texto é bastante duro, até impiedoso, e tem necessariamente de ser assim, dado o objecto de estudo. O caso de Riefenstahl é curioso porque, como disserta Clive James, o talento que quase todos lhe atribuem foi completamente dividido, arrancado até, à ideologia que o permitiu, como se fosse uma entidade completamente à parte do nazismo. 
Eu já escrevi, talvez até demasiadas vezes, sobre como, quanto a mim, a arte tem de ser tomada em si mesma, e como o Bloom tem toda a razão em adoptar um critério puramente estético para o cânone, dissociado do dado social, político, até ético, mas casos como o de Riefenstahl fazem-me pensar e, acima de tudo, repensar tudo isto. Uma coisa é a gente achar piada ao Sean Penn no Sweet and Lowdown de Woody Allen, que é um ser humano execrável mas um músico sublime - além de ser ficcional, a personagem de Sean Penn nunca andou a matar gente. Outra coisa é ver o Triunfo da Vontade, por exemplo, e admirar e gabar o talento que o produziu, e que as imagens são tão bonitas e isto e aquilo, estando perfeitamente ciente da ideologia (assassina, como a qualifica James) que justificou o filme. Interessa verdadeiramente saber se Leni Riefenstahl sabia ou não dos campos de concentração (e tudo indica que sabia, por mais que o tivesse negado)? Alguns dirão que não, que isso é uma questão ética que não prejudica a beleza do filme. Eu acho que, para mim, prejudica. Lembro-me de ler um artigo no Público, há imenso tempo, precisamente sobre o Triunfo da Vontade, em que se descrevia o filme como "horrivelmente belo" e Riefenstahl como "do lado errado da história". Mas a questão do seu talento, e da validade do filme, permanecia intocável, dissociada da moral e da ética.
Não tenho a certeza de que as coisas possam ser assim. É evidente que não me passa pela cabeça vir agora dizer que os filmes dela deviam ser proibidos ou coisa do género, nada disso. Penso apenas que a "human framework" que James menciona não pode, de facto, estar ausente quando se vê algo como o Triunfo da Vontade (e concordo com ele quando insinua que o facto de Spielberg querer conhecer Riefenstahl seja no mínimo grotesco). Podemos ver o filme, podemos achar bonito - mas temos de saber, nuito claramente, que é um filme assassino. Se isso não nos incomodar, se acharmos que não influencia a forma como pessoalmente o visionamos ou, até, a recepção do filme em geral, então há algo de errado connosco. Acho mesmo que sim.

3 comentários:

Fado Alexandrino disse...

Gostaria de fazer dois apontamentos.
A personagem de Sean Penn embora fictionada tenta retratar o grande guitarrista Django Reinhardt, oir acaso não gostei muito do filme.

O Triunfo da Vontade (um majestoso filme) foi feito em 1935 e nessa altura não só não havia campos de concentração como não havia uma série de coisas que me escuso de enumerar.

Como curiosidade final é quase certo que Leni nunca tenha morto ninguém como é bem provável que Hitler também não.

E lembrei-me agora quanto a arte lá teriamos o Karajan & Muitos Outros banidos por serem bandidos por tabela.

Rita F. disse...

Fado, eu nunca defendi que se devesse banir o que quer que fosse. Não penso, e escrevi no post, que se deva banir os filmes da L.R. por defenderem uma ideologia militarista e nazi. Penso é que devemos conhecer exactamente o contexto em que foram feitos, e portanto neste caso não creio que a arte se possa dissociar da ética.
Em relação ao facto, já muito discutido, se LR sabia ou não dos campos de concentração, isso é coisa que eu penso não valer a pena estarmos a discutir. Eu acho que com toda a probabilidade ela saberia, da mesma forma que acho que os primeiros relatos sobre deportações ocorreram em 1933, mas o Fado com certeza não concordará, apresentará outros factos, e ficamos aqui num círculo vicioso.
Em relação a LR ou Hitler nunca terem matado ninguém - aqui, discordo fortemente, daí manter que estamos a falar de um filme assassino (e os que lhe seguiram também), e não estou a pôr em causa a majestade do filme. Só vi excertos, nunca o vi todo, mas não duvido que seja bonito. Isso não impede uma série de outras coisas menos boas, ou até francamente más.
Acho que em geral este é um caso em que teremos de concordar em discordar.

Fado Alexandrino disse...

Muito obrigado.
Este filme (Leni fez mais alguns incluindo o belo Impressionen unter Wasser) embora feito por uma mulher só pode ser apreciado em toda a sua beleza por um homem dado o nível castrense que ele sublima e que o torna empolgante.
Eu consigo abstrair-me do que aconteceu e ainda não tinha acontecido e apreciar a coreografia esmagadora que envolvia todas aquelas cerimónias.
Bem certo que Max Frisch escreveu "Every uniform corrupts one's character" mas aqui estou apenas a dar opinião sobre um filme.
Se um filme fizesse uma guerra, Bambi passaria na faixa de Gaza e acabavam todos aos beijinhos.