terça-feira, 24 de maio de 2011

Quem anda à chuva molha-se, mesmo se usar chapéu

Em Inglaterra, o equivalente ao Ministro da Justiça disse, de forma eminente e sábia, que o crime de violação pode variar em grau, sendo que há violações "menos sérias" do que outras e que, como tal, podem beneficiar de um descontozito se, por exemplo, o criminoso se der como culpado desde início. Sábio, de facto. Para esclarecer ainda mais, caso tal fosse necessário, este adorável raciocínio, especialmente provindo do Ministério de Justiça do UK, um deputado do Partido Conservador veio dizer que sim senhora, há diferença pois claro, já que se uma mulher for para a cama com o namorado e, depois do fogo atiçado, quiser deitar água na fogueira, a culpa não é bem, bem do namorado em pólvora se o tal fogo não se apagar assim sem mais nem menos. Tudo dito aqui. 
Eu concordo com esta posição. É evidente que há diferença, é evidente que sim, como qualquer vítima de violação poderá facilmente atestar. Aliás, de certeza que, se perguntarmos a estas vítimas, que contam com conhecimento por experiência própria, o que será preferível - ser violada no meio de um parque a meio da noite ou na cama com o namorado? - de certeza que elas nos dirão que, sem sombra de dúvida, a última opção é sempre a melhor, aliás, nem se tratará exactamente de um crime. É um azar, pronto, daquelas coisas que acontecem. Quem anda à chuva molha-se, não é o que se costuma dizer?
É terrível e triste e ofensivo constatar que este tipo de afirmações é ainda proferido de forma descarada, sem vergonha na cara - são afirmações terríveis, tristes e ofensivas porque claramente lhes subjaz aquele pensamento insidioso a que poucos de nós escapamos e que, no fundo, no fundo, considera que, em "certas" violações, a vítima estava a pedi-las. Que este pensamento esteja ainda tão entranhado na sociedade ocidental ao ponto de transparecer naqueles que foram eleitos para se encarregarem da justiça de um país é verdadeiramente assustador.
E não acredito que a mentalidade seja muito diferente em Portugal. Cada dia que passa em que uma mulher ouve um piropo nojento de um homem e sente que tem de se calar, porque não vale a pena dizer nada, confirma-o. Infelizmente. 
Ainda há muito caminho a percorrer para as mulheres e para os homens. Mas, pelo menos, que este triste caso em Inglaterra sirva para nos indignarmos.

2 comentários:

Fado Alexandrino disse...

Este assunto é demasiado complexo para poder ser discutido em palavras sem se ter a pessoa na frente.
Quero deixar dois apontamentos.
O mundo é feito para os homens e com regras escritas por homens e basta ver as Grandes Reuniões nas televisões para isso se perceber e tenho que humilde reconhecer, não me queixo.
Tenho duas netas que adoro, gostava que elas completassem as ínfimas mudanças que outras netas já conseguiram ir fazendo e torná-lo mais justo.

Rita F. disse...

É verdade, também acho que maior parte do mundo continua de homens para homens - no pior sentido, principalmente quando as próprias mulheres o consentem e reforçam. Veja-se o caso atroz, horroroso, incompreensível da senhora grávida violada no consultório do psiquiatra, pelo próprio, tendo sido este absolvido. Um dos juízes era uma mulher que foi favorável ao médico. É triste demais, este caso. Não consigo escrever muito mais sobre ele, dá-me mesmo vontade de chorar.