terça-feira, 17 de maio de 2011

"Não vi o livro mas li o filme"`*

Há coisas que só funcionam de determinada maneira e ninguém sabe bem porquê. Hoje, por exemplo, estava a lavar a louça e a pensar, "este detergente é bom, não seca a pele e não descasca o verniz", e deste pensamento espúrio passei, também muito espuriamente, para livros e filmes e bons livros que dão bons filmes e vice-versa (isto é, livros maus que dão bons filmes. Era o que eu queria dizer).
Há livros magníficos que só funcionam mesmo como prosa e que, por qualquer razão que eu não consigo inteiramente compreender, falham redondamente quando transformados em filme. Lembrei-me disto ao pensar no Freedom, do Jonathan Franzen, que me agradou muitíssimo e que, quando saiu, foi bombardeado por uma onda imensa do chamado "hype", Obama et.al. embrenhados na leitura do livrinho. Eu estava precisamente a pensar que um best-seller que agradou a tanta gente tem tudo para dar um bom filme. Mas, curiosamente, acho que Freedom resultaria num péssimo filme, independentemente dos actores, do realizador e do argumentista. Acho que não seria melhor do que um dramalhão pretensioso, falsamente inteligente e com aspirações a profundidade intelectual e psicológica à semelhança do Closer, aquele filme com a Julia Roberts e o Jude Law, que é dos piores filmes que já vi. Não sei porque é que tenho esta ideia do Freedom como um completo fiasco no cinema, mas tenho.
Costuma dizer-se que raramente há filmes tão bons como os livros que lhes dão origem. Eu tendo a concordar. Lembro-me apenas de um único exemplo em que, para mim, o filme é tão bom como o livro, e mesmo assim tenho a certeza de que muitas vozes discordarão - Lolita versão Kubrick. Mas é um caso único.
Também há casos em que um mau livro dá origem a um filme bom ou, pelo menos, um filme razoavelzito - não sou grande fã das Horas, por exemplo, mas acho convictamente de que o filmito é superior à bodega do livro. 
É interessante pensar em como certos "media" não se transferem facilmente para outros "suportes" (brrr, esta converseta com estes termos modernos não é agradável) - um bom livro não dá necessariamente um bom filme, uma peça de teatro não dá necessariamente um bom filme (raramente dá, a julgar pelos exemplos de que me consigo lembrar), e os livros cinematográficos que normalmente vendem às catadupas, já formatados para resultar em filme (ie Código Da Vinci) são normalmente perdas de tempo, paupérrimos, paupérrimos. 
De modo que, em geral, acho que se deve tomar cada coisa como cada qual - o livro é o livro e o filme é o filme, um absolutamente independente do outro. 
E isto para dizer o quê? Não sei bem, a minha ideia inicial, quando estava a lavar a loiça, era um bocadinho mais interessante. 

* não fui eu que inventei esta frase, li não sei onde. Acho que é o título de um livro que vi não sei onde, não sei quando.

3 comentários:

José Bértolo disse...

O título do post penso vem de um livro organizado pelo Mário Jorge Torres. Mais informação aqui: http://www.comparatistas.edu.pt/publicacoes/act/act-17---nao-vi-o-livro-mas-li-o-filme.html
Gosto muito do Closer, acho muito melhor e muito menos esquemático do que se diz por aí.

Rita Maria disse...

Eu acho que o Morte em Veneza filme é tão maravilhoso como o Morte em Veneza livro e acho o Quarto com Vista sobre a Cidade filme uma pequena delícia, enquanto o livro não me convenceu por aí além.

Fado Alexandrino disse...

Lolita tinha tudo para ser melhor que o livro. Por muito bem que o autor escrevesse ver a Sue Lyon a pintar as unhas dos pés não pode ser posto em palavras.
Há, mas não vou agora armar-me em intelectual peças de teatro que deram excepcionais filmes, por exemplo A Streetcar Named Desire este aliás depois conseguiu dar um peça de teatro sofrível aqui em Lisboa onde até cortaram a última fala.
Outro foi o Who's Afraid of Virginia Woolf? que por sorte vi num teatro que havia ali para a Rua do Operário e antes e depois em cinema.
Há mais mas deixo para outros os acrescentos.