terça-feira, 22 de março de 2011

Da filosofia barata que pode existir no acto de levantar cedo

Como dizia o Kafka, levantar cedo é a coisa mais degradante que existe - levantar cedo deixa a pessoa estúpida, como constata o sr Samsa ao acordar transformado em barata (conclusão espectacular). A pessoa a querer enterrar a cabeça na almofada fofinha, nos lençóis quentinhos, e a porcaria do despertador a tocar, a tocar, a tocar, a lembrar que há um mundo lá fora.
O que mais custa quando a gente se levanta cedo é precisamente isto - a constatação de que o mundo continua, com todas as suas obrigações e tarefas e fretes, independentemente do nosso sono descansado. E depois esta exigência permanente todas as manhãs é uma coisa irritante - levanta-te, vai produzir, vai trabalhar, vai fazer coisas. E se não houver coisas para fazer? Vamos imaginar isto, vamos imaginar que nos levantamos e pura e simplesmente não temos nada para fazer. É assim tão terrível? Qual é o problema? Mas não, não pode ser, o mundo não deixa que não se tenha nada para fazer, porque lança um tal estigma sobre o chamado "ócio" que toda a gente se sente mal se não estiver a fazer alguma coisa. Nem que seja limpar a casa.
No entanto, a verdade é que, dia após dia, raramente se faz alguma coisa de jeito. Temos a mania de que, se cumprirmos a rotina, levantar, ir trabalhar, almoçar, voltar a casa, deitar, etc., dizia, se cumprirmos isto, temos uma vida a sério e somos "úteis". Não estou a ver como. Úteis a quem, para quem? A não ser que trabalhemos numa missão humanitária, passamos a vida a fazer coisas que não interessam a ninguém na ilusão conveniente de que, desta forma, "produzimos". Pois, mas não. 
E portanto eu não penso que se deva reconhecer autoridade ao mundo para nos arrancar da cama todos os dias de manhã. Ainda se fosse para alguma emergência, um caso de vida ou morte, tudo bem. Mas raramente é esse o caso. E, no entanto, voltamos ao mesmo todos os dias, como a minha vizinha, que às oito da manhã já está a percorrer a casa toda, toc, toc, toc, os saltos altos a martelarem o chão, a afinar a garganta para berrar com os filhos, tão alto que eu já sei que ela tem pelo menos um Daniel e um André, depois põe a máquina da roupa a centrifugar, faz uma barulheira, sai de casa, para voltar ao fim do dia e repetir a azáfama toda. O marido de vez em quando também berra, e parece-me que só são felizes quando o Benfica ganha. Aí, gritam, mas pelo menos é de felicidade (digo eu). 
E sim, são todos muito úteis, somos todos muito úteis, fazemos todos coisas importantíssimas. O Kafka tinha razão, assim como Mário de Sá Carneiro, que volto a citar - "Noite sempre plo meu quarto. As cortinas corridas,e eu aninhado a dormir, bem quentinho - que amor...". Como dizia outro grande poeta, não há mais metafísica que isto, pois não?
Ai, ai. Bom. A pequena vai comer chocolates.

3 comentários:

Jamil S.P. disse...

A rotina de levantar cedo pra trabalhar, estudar, etc, é louvável quando se vislumbra algo de maior que a própria rotina, fora dela. Assim é, p.ex., quando pensamos nos nossos descendentes. Lembro-me de algumas vezes - apenas algumas, porque em geral eu estava dormindo, era ainda muito criança - em que percebia meu pai sair de madrugada para ir trabalhar; não fosse por ele, em cumprir paciente e voluntariamente a sua rotina, hoje provavelmente eu não teria metade do conforto de que desfruto, inclusive poder de vez em quando dormir até mais tarde.

disse...

há uma altura em que a vida passa a ser curta e dormir é uma perda de tempo. e nessa altura continua a saber bem dormir, mas sabe melhor estar acordado. posso garantir que depois de me deitar às 2h me custa a acordar às 7h, mas passados 10 minutos sou o gajo mais feliz do mundo. já sei, deve ser irritante acordar ao meu lado.

À atenção do "SIS" disse...

Sabendo que Vªs Excelências escutam os 300 sítios mais visitados da internosfera Portuguesa, tenho a informar que quando encontrar qualquer dos seguintes elementos na Baixa de Lisboa

Belmiro de Azevedo
o gajo quer preside a CIP
Passos Coelho
Paulo Portas ( invectivação verbal apenas)
Eurico de Melo
Nobre Guedes
qualquer Presidente da RTP
Proença de Carvalho
Almeida Santos e família
Fátima Felgueiras ( cuspe na face apenas)
Dias Oliveira
Amiga Olga
Isabel Wolmar
Artur Agostinho
Serenella Andrade
Júlia Pinheiro
FátimaLopes

qualquer destes elementos encontrados no Rossio,Colombo, ou qquer imediação pública enfiar-lhes-hei umpunho na têmpora.

Tirei 17 a Biologia e estou ciente do impato fisiológico de tal investida.

suscrevo-me

Leo Ferré