quinta-feira, 14 de julho de 2011

Coisa que não compreendo: usar a faca da refeição para descascar fruta

Eu vou confessar que gosto de regras pequeninas. Regras de grande dimensão, aquelas que a sociedade nos obriga a cumprir, como por exemplo ter de fazer declarações de IRS, ter de fingir que trabalhar é saudável e isso assim, não gosto nada e desprezo. Mas de regras pequeninas, aquelas que servem para dar uma organizaçãozinha a uma vida individual, gosto.
Por exemplo: na excelsa máquina Nespresso, que me ofereceram, há dois botões. Um é para o café normal, outro é para o chamado "lungo", que leva mais água. Estes últimos não me atraem muito, mas o Corto Maltese, por exemplo, adora lungos, de tal modo que põe uma cápsula à toa na máquina e carrega no botão lungo e eu, quando o vejo nestes propósitos, digo-lhe, "Corto, enganaste-te, essa cápsula não é de lungo, pára já a máquina!", apenas para receber um olhar empedernido e indiferente que me diz "mas o que foi, tens medo que venha a polícia?", e lá continua ele a escolher uma cápsula à toa e a carregar no botão do lungo. O que, quanto a mim, não está bem.
É como não pôr o garfo do lado esquerdo e a faca do lado direito. Há pessoas que põem estas duas peças no guardanapo, porque acham que não vale a pena pôr um de cada lado, assim como assim temos de pegar neles de qualquer maneira e "aqui ninguém faz cerimónia"  - é o que dizem sempre. Não é uma questão de fazer ou não fazer cerimónia, é a regrinha. A regrinha que é a base - é a basezinha, como o latim.
É como ter um copo à mesa e beber vinho ou sumo e depois beber água sem lavar o copo, sujeitando-se a pessoa a beber água deslavada, com sabor a restos, só porque tem preguiça de pôr o devido número de copos na mesa, ou de os lavar entre as bebidas. É desagradável, e sempre a mesma desculpa - "mas aqui ninguém faz cerimónia!" 
O desvio da regra que mais espécie me faz é descascar fruta com a faca que se utilizou na refeição. Conspurcar o fresco doce da frutinha apenas porque, mais uma vez, se tem preguiça de utilizar outra faca. Porquê desrespeitar a regrinha e comprometer o agradável final de uma refeição? Não compreendo. E depois, visualmente, é algo desagradável - as pessoas pegam na faca, limpam-na ao guardanapo sujo, ou esfregam a lâmina na bordinha do prato, e é só restos de comida mastigada por todo lado sem limpeza nenhuma, porque a faca continua suja e, por seu turno, suja também a casca da pêra ou da maçã que se vai descascar. Depois, a própria fruta fica a saber a segundo prato, a arroz frio, a salada fria, e isto amolece a maçã, atenua o sabor da pêra, estraga a sobremesa. Uma maçada. Mas qual é o problema de usar outra faca?! Ah, não é preciso, escusamos de estar a sujar loiça. Ah, não é preciso, aqui ninguém faz cerimónia.
Pois. E, devido a estes argumentos, lá fico eu com a minha fruta a saber a ranço. 
As regras pequeninas foram feitas para a pessoa poder gozar de algum conforto na vida. E eu gosto do meu conforto. De modo que, normalmente, e uma vez que ninguém faz cerimónia aqui, eu solicito sempre uma faca limpinha para a minha fruta, se calha não estar em casa para poder decidir a minha própria dinâmica alimentar. A regra é a base.
Sem a basezinha, não se vai a lado nenhum. 


6 comentários:

Jamil P. disse...

Basezinha está para base assim como etiqueta está para ética. Tais pequenas regras a que você se refere compõem o que podemos chamar de "etiqueta à mesa". Procuro sempre observá-las e estou plenamente de acordo com você, cara Rita.

Dulce disse...

Nem mais, é tudo uma questão de etiqueta à mesa..! Também me 'faz espécie' todas essas manias... mas a pior de todas é aquele barulho que certas pessoas fazem no fim da refeição, uma espécie de «palito de saliva», expressão que roubei ao J. L. Peixoto :)

Ninguém disse...

Concordo.
Nunca eaquecer como explicou o marchand d'arte José Castello-Branco que o talher depois de usado deve ser colocado na posção 4:20.
Isto faz a diferença em qualquer sítio onde estejam a comer.
Dá classe.

Joana disse...

Por acaso já experimentou comer uma maçã com casca? Ou isso é demasiado badalhoco para si? Maça sem casca é que é finório, não é?

Isso não é regrinha, é mesmo etiqueta do tempo das princesas. "sem a basezinha, não se vai a lado nenhum". Espero que com isto não esteja a querer dizer que uma pessoa que não meta os 25625 copos devidos na mesa é menos do que alguém que põe.

antuérpia disse...

Aí está um tema divertido. O amor à pequenina regra é o amor ao pormenor, àquilo com que as mentes supostamente muito ocupadas com assuntos(ainda que só para si) verdadeiramente transcendentes se recusam a perder tempo. Mas fazem mal:o pormenor é lúdico, é saboroso e atencioso para com os outros.
[também gosto de maçãs com casca; só não percebo o que é que uma coisa tem a ver com a outra, desculpe, Joana].

Mónica disse...

100% de acordo. Talheres diferentes para "tarefas" diferentes, copos idem (e copos de pé alto para o vinho, que uso mesmo quando estou sozinha em casa...). No entanto, pior que tudo isso que descreve é, para mim, haver (ainda!) pessoas que levantam a mesa (depois do prato principal e antes da sobremesa) e vão despejando, à mesa, os restos de comida para um dos pratos. Não dá. Perco logo a vontade de continuar à mesa...