sexta-feira, 1 de abril de 2011

Longe da vista, perto do coração

As pessoas são sempre contra namoros à distância - ah, não resulta. Ah, as pessoas fartam-se, ah, as pessoas arranjam outro, ah, longe da vista, longe do coração.
Eu discordo disto tudo. É evidente que uma relação à distância que implique que as pessoas só se vejam de três em três meses durante anos talvez não resulte. Agora um namoro à distância que permita alguma regularidade só tem vantagens:
- as pessoas não têm tempo para discussões ou, se as têm, esquecem-se delas porque têm muitas saudades
- devido às saudades, cada vez que se vêem aproveitam ao máximo e passam os minutos num enleio apaixonado de lua-de-mel permanente
- quando o outro está longe, só se lembram das qualidades dele ou dela e esquecem-se dos defeitos
- há tempo para fazer tudo o que se tem de fazer sozinho, sem ter de coordenar horários com o outro, coisa que normalmente só dá chatice
- quando estão juntos, tudo sabe ainda a novidade e há tempo para actividades interessantes, ao invés de se deixarem abater pela rotina trabalho - casa - rabo no sofá - trabalho - casa - rabo no sofá.
Em geral, sou a favor de relações à distância porque as pessoas não se habituam muito ao outro e vêem-no sempre como "especial". No dia em que tiverem de conviver com ele/ela todos os dias, a magia desfaz-se necessariamente e as pessoas são cilindradas pela rotinazinha que são obrigadas a viver, começam a engordar, a ver muita televisão, a ir para o trabalho tipo zombies e a voltar ainda pior, e de repente o Corto Maltese já não é o Corto Maltese, é apenas um tipo qualquer gordo e mal vestido que está sempre cansado, deixou de ter tempo para ler o que quer que seja, nunca quer fazer nada e só sai de casa se for para ir à Worten olhar para televisores novos. Subitamente, a linha que separa o amor do hábito esbate-se e a pessoa já não consegue distinguir um do outro. Talvez porque o primeiro tenha sucumbido, dando lugar apenas ao hábito - não sei. 
Acredito que o amor seja como o direito consuetudinário, que está lá embora não precise de estar escrito, mas também acredito que o "costume" vença todos os obstáculos, inclusive o amor, sendo por isso capaz de sujeitar tudo o resto à rotina que impõe. Por isso é que é importante que o Corto Maltese permaneça o Corto Maltese - volta a casa, vai-se embora, volta a casa. Não há tempo para costumes ou hábitos. E longe da vista, sempre perto do coração.
Também podia dar aqui o exemplo do Woody Allen e da Mia Farrow, que viveram sempre em casas separadas, mantendo a sua vida independente e estando juntos ao mesmo tempo. Mas, por qualquer razão estranha, sinto que isto não será um bom exemplo. É só uma sensação que tenho.

4 comentários:

Brandie disse...

Eu até concordo com esses argumentos, no entanto, as pessoas são tão insatisfeitas que quando estão afastadas só idealizam estarem juntas. É como namorados que só pensam em casar para ficarem juntos e viverem na mesma casa. Tudo acaba na televisão a mais como referes, mas toda a gente quer o que não tem.

Wiwia disse...

Tenho um par de amigos - ela em Bruxelas, ele em Trier - que podes juntar aí ao rol das provas vivas. São um dos casais mais amorosos e saudáveis que conheço. 6 anos de casamento. Aposto que bastaria viverem no mesmo país para já não se entenderem tão bem.

"So much phone and so little sex", diz a maioria. Mas eu acho que é o medo.

Fado Alexandrino disse...

Não vou comentar o post que aliás está carregado de verdades q.e.d.
Já experimentei as duas versões, com uma dei-me mal e divorciei-me com a outra ainda foi pior nunca consegui sequer beijar a Nicole Kdman a distância foi sempre enorme e desisti.

Sobre amor (vários amores)e já que fala no Woody vi um dos últimos filmes " You Will Meet a Tall Dark Stranger" que é fantástico (como diz o Futre).

Anónimo disse...

Ouve la, o que é isto???? Não sei se gostei. Não temos de arranjar argumentos para nos convencermos de certas realidades, há que aceitá-las e saber tirar benefício das mesmas. Mas vamos-nos deixar de extremismos. Beijos distantes :)