Some spectators thought even at the time that her cinematic gift had served to legitimize a murderous ideology, but almost nobody belittled her artistic talent. She was thus able, when the Nazis lost, to invoke the principle that art trumps politics. (...) Steven Spielberg said he wanted to meet her. If he had made Schindler's List ten times, he could not have undone the portent of such a wish, because he was really saying that there can be art without a human framework, and that a movie can be made out of nothing but impressive images.
O texto é bastante duro, até impiedoso, e tem necessariamente de ser assim, dado o objecto de estudo. O caso de Riefenstahl é curioso porque, como disserta Clive James, o talento que quase todos lhe atribuem foi completamente dividido, arrancado até, à ideologia que o permitiu, como se fosse uma entidade completamente à parte do nazismo.
Eu já escrevi, talvez até demasiadas vezes, sobre como, quanto a mim, a arte tem de ser tomada em si mesma, e como o Bloom tem toda a razão em adoptar um critério puramente estético para o cânone, dissociado do dado social, político, até ético, mas casos como o de Riefenstahl fazem-me pensar e, acima de tudo, repensar tudo isto. Uma coisa é a gente achar piada ao Sean Penn no Sweet and Lowdown de Woody Allen, que é um ser humano execrável mas um músico sublime - além de ser ficcional, a personagem de Sean Penn nunca andou a matar gente. Outra coisa é ver o Triunfo da Vontade, por exemplo, e admirar e gabar o talento que o produziu, e que as imagens são tão bonitas e isto e aquilo, estando perfeitamente ciente da ideologia (assassina, como a qualifica James) que justificou o filme. Interessa verdadeiramente saber se Leni Riefenstahl sabia ou não dos campos de concentração (e tudo indica que sabia, por mais que o tivesse negado)? Alguns dirão que não, que isso é uma questão ética que não prejudica a beleza do filme. Eu acho que, para mim, prejudica. Lembro-me de ler um artigo no Público, há imenso tempo, precisamente sobre o Triunfo da Vontade, em que se descrevia o filme como "horrivelmente belo" e Riefenstahl como "do lado errado da história". Mas a questão do seu talento, e da validade do filme, permanecia intocável, dissociada da moral e da ética.
Não tenho a certeza de que as coisas possam ser assim. É evidente que não me passa pela cabeça vir agora dizer que os filmes dela deviam ser proibidos ou coisa do género, nada disso. Penso apenas que a "human framework" que James menciona não pode, de facto, estar ausente quando se vê algo como o Triunfo da Vontade (e concordo com ele quando insinua que o facto de Spielberg querer conhecer Riefenstahl seja no mínimo grotesco). Podemos ver o filme, podemos achar bonito - mas temos de saber, nuito claramente, que é um filme assassino. Se isso não nos incomodar, se acharmos que não influencia a forma como pessoalmente o visionamos ou, até, a recepção do filme em geral, então há algo de errado connosco. Acho mesmo que sim.










