sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

F. Scott, já te tenho dito que não é bonito andar a invejar

Numa bonita esplanada parisiense, há 50 anos atrás, deram-me a ler "Head and Shoulders", um grande conto de F. Scott Fitzgerald que vale muito a pena ler e que se pode encontrar aqui.

Há muito mais a discutir no conto do que aquilo que vou aqui, apenas brevemente, mencionar, mas não deixa de ser interessante que "Head and Shoulders" verse sobre um pequeno génio, uma criança sobredotada, que cresce e acaba por casar com uma corista - ele, o génio, seria a cabeça daquela união, e ela, a corista que o sustenta, os ombros (que, precisamente, sustentam a cabeça). Acontece que, por reviravoltas do destino, é a corista que acaba por publicar um romance, elogiado pelo seu estilo vernáculo, à "Huckleberry Finn", próximo do povo, ao passo que o marido, o génio intelectual, é descrito como um trapezista inconsequente. Isto causa uma certa inveja ao marido.

Não pude deixar de me lembrar do próprio Fitzgerald, casado com a bela Zelda Fitzgerald (este nome arrebata-me), uma rapariga próxima das heroínas oitocentistas, branca como a neve, dissipadora, alcoólica, e convenientemente doida, de tal forma que F. Scott a encerrou num hospital psiquiátrico - acção que, aliás, lhe saiu do esforçado corpo e da ainda mais esforçada mente, que ele bem teve de escrever e vender histórias para pagar as contas do dito hospital. Consta que Zelda escrevia belíssimamente (nunca li nada dela). Consta também que F. Scott se terá sentido um tanto ou quanto invejoso, e que por isso a relação se deteriorou.

A inveja é a coisa mais azeda do mundo. Destrói as pessoas e, normalmente, brota sem qualquer espécie de justificação ou suporte racional, parece apenas nascer do nada, como uma erva daninha. Que razões teria Fitzgerald, um enorme, gigantesco escritor por direito próprio, para invejar a mulher? Por seu lado, que razões teria Zelda, que tudo indica ser igualmente uma inteligente e dotada escritora, para invejar Fitzgerald? A insegurança destes génios é aflitiva.
Pens'que (a la Cristiano Ronaldo) a inveja, por acaso, não é coisa que me aflija muito. Tenho, e posso até confirmar isto através de assinatura autenticada pelo notário se preciso for, uma lista absolutamente interminável de defeitos, é que tenho mesmo, admito, mea culpa, estou a tentar melhorar, mas felizmente a inveja não tem encontrado terreno fértil na minha pessoa. Ao menos isso.

Não era bem isto que eu queria dizer acerca de "Head and Shoulders", que adorei. Fitzgerald continua, definitivamente, a ser cada vez mais importante nas minhas leituras e na minha vida, e isto sim, queria escrever aqui, além de outras coisas muitíssimo inteligentes e interessantes relativamente a "Head and Shoulders", mas esta noite é ingrata, não vai dar.

Gajo com pintarola: Johnny Cash

Vou deixar o vídeo falar por si. Este concerto em Saint Quentin é o máximo! Merece ponto de exclamação e tudo.





Também deixo aqui uma das minhas absolutas favoritas de Johnny; não deixo o vídeo porque é imensamente foleiro, cheio de celebridadezinhas a quererem ser "fixes" e a fingir que cantam a música, para ver o seu nome associado postumamente a Johnny Cash. Deixo só a lindíssima, épica canção que reza "tell them that God's gonna cut them down" (a letra é de uma sonoridade, de uma imagética espantosa, acho eu - I've been down on bended knee, talking to the man from Galilee, he called my name and my heart stood still, for he said, John, go do my will).









Gods Gonna Cut You Down - Johnny Cash

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Hello Kitty vs Dartacão

Como claramente se ilustra aqui, a vontade de escrever no blog aumenta proporcionalmente ao trabalho que se tem, de modo que aqui estou eu hoje, furiosamente a escrever no meu blog dedicado ao ócio, quando deveria estar a escrever, sim, mas coisas daquelas importantes, daquelas de trabalho.

Mas não estou. E o que me traz aqui é uma coisa importantíssima, verdadeiramente fundamental, que se prende com algo que me irrita muitíssimo e que a minha pobre cabeça não compreende, que é:



Mas o que é isto?! Mas o que é que se passa com as pessoas (não apenas miúdas, peço desculpa. Mulheres crescidas, também, é vê-las nem que seja com uma carteirinha foleira, um bloquinho de notas horroroso, uns penduricalhos com a Hello Kitty, bllllleaaaagh), dizia, o que se passa com as pessoas e esta gata?! Em primeiro lugar, o nome absurdo, Hello Kitty. Depois, faz-me espécie (expressão que adoro) que esta gata não seja um desenho animado, não seja uma BD, não seja um filme, não seja nada, apenas um desenho rudimentar de uma gata com um parvo lacinho que ostenta na "orelhinha". Além disso, não tem boca. Não tem. Como é que isto é possível? Pura e simplesmente, não pode falar, nem rir, nem sorrir apenas, nem chorar, nem transmitir valores de espécie alguma às criancinhas. Não sabemos se está bem disposta, se está mal disposta, não sabemos o que pensa do mundo e do que nele se passa, nem sabemos, sequer, se prefere carne ou peixe. Esta gata tem um problema, que é: tem graves barreiras ao nível da comunicação interpessoal. É a coisa mais asséptica e anódina que já vi.
Também não compreendo, aliás, porque é que as crianças gostam de uma gata que não faz nada e que não poderia nunca falar, mesmo que o quisesse fazer (o que eu duvido). Agora, se fosse o Dartacão, isso confesso que seria a primeira a andar por aí a ostentar a merchandising, porque adoro o Dartacão, e além disso o Dartacão fala, é um cão com nobreza, defende os valores da amizade, é muito formativo e saudável para crianças e também para adultos. Agora, esta gata... plamor de Deus. Qual é a piada? Será que é por ser "fofinha"? Eu bem sabia que tinha razão em opor-me veemente a tudo o que seja "fofinho", "queridinho" e em geral termine em "-inho", porque normalmente resulta nisto, em termos de aturar estas ofensas ao bom gosto, Hello Kitty e quejandos.
Em substituição de Hello Kitty (alguém que a atire escada abaixo nove vezes, se faz favor), o que proponho é isto:




Tenho tantas saudades do querido (não "queridinho", atenção) Dartacão, que fala, e luta contra os maus, e tem amigos, e defende "um por todos, todos por um", e faz coisas em geral, que até deixo aqui em baixo a música e tudo (o Dartacão também tem a sua própria música, outra coisa que a desgraçada da Hello Kitty não tem, além de não ter boca, safa, que impressão!). O Dartacão marcou indelevelmente a minha infância, com aquele genérico épico onde se lia "esta série, baseada no romance de Alexandre Dumas, " Os Três Mosqueteiros", pretende, através de suas divertidas personagens, ressalvar duas virtudes que nunca se devem olvidar: a Honra e a Amizade"! Assim é que é, ainda hoje me emociono com isto, se alguma vez a Hello Kitty diz estas coisas maravilhosas (pois é, não tem boca). Volta, Dartacão, volta, volta, ao menos em DVD.






DArtacao e os Tres Moscaoteiros -

I loooooove Serge


Depois de tanta conversa de café, o meu fidelíssimo ipod, que eu às vezes acho ter uma mente independente, foi parar ao Requiem pour un Con, de Gainsbourg. O que me fez lembrar este maravilhoso disco, "Monsieur Gainsbourg Revisited", que, em minha opinião, é: tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom...

Já escrevi aqui sobre a versão de Jarvis Cocker (I just came to tell you that I'm going), e como a acho mais insensível do que a original, mas não deixa de ser uma versão belíssima, de que gosto imenso e que ouço muitas vezes; l'Hotel, por Michael Stipe, está excelente, assim como o dueto de Cat Power e Karen Elson em Je t'aime, moi non plus; assim como os The Kills, em I Call it Art; assim como Boomerang 2005, com a Feist; assim como Requiem for Anna, Portishead; assim como Those Little Things, Carla Bruni; assim como o álbum inteiro.

Ouço este álbum e, embora sabendo que o que vou dizer é estúpido, tenho imensa pena de não fumar. Tenho uma querida, grande amiga que, quando fumava (agora já não fuma, tornou-se saudável, mas não graças a mim), e quando falávamos de Gainsbourg, dizia, a expirar o fumo do cigarro, toda femme fatal, "I looooooove Serge". É nestas situações, quando falamos de Gainsbourg e isso, que um cigarro dá um imenso jeito. Como também já disse antes, sou tísica, não posso fumar, que chatice (oh, nunca serei cool. Chuif, chuif).


Conversas de café - II

- O meu filho entrou para a faculdade este ano, olhe, e foi um problema, porque, como é que ele ia para a faculdade? É que ele só tem 17 anos, não pode tirar a carta, andava todo triste, porque os amigos iam de carro, ele tinha de andar à boleia, olhe, coitado do miúdo.

- Ah, e como é que fez?
- Até foi fácil, decidimos comprar-lhe aqueles carros pequeninos, eléctricos, daqueles dos reformados, sabe? É que para esses não é preciso carta e ele pode andar com o carro até fazer 18 anos. E até foi bom para nós, porque parece que esses carros valorizam imenso, de modo que olhe, comprei-lhe um carrinho assim e pronto, agora ele já tem maneira de ir para a universidade.

- Pois é, resolveu-se o problema.

Que giro, quando ouvi esta conversa percebi que há pessoas que não sabem para que servem autocarros. Devem olhar para eles e pensar "ah, lá vão aqueles veículos grandes, com tanta gente lá dentro, aquilo será para quê? Será que vão levar imigrantes até à fronteira com Espanha e deixá-los lá? Deve ser isso, deve"

Conversa de café

- Olha a D. X! Há tanto tempo que não a via, tá tão gira!

(esforçando-se por exarcebar a falsa modéstia, mas não enganando ninguém relativamente ao contentamento que o elogio lhe provocou) - Tou gira? Ai, não percebo como, o cabelo a precisar de ser arranjado, todo despenteado, com o vento... mas já é a segunda pessoa que me diz que eu tou gira, não sei com'isso é... (sorrisinho disfarçado)

- Pois. Também não vinha cá há tanto tempo, se calhar é isso...

- É, mas eu gosto de cá vir, vir cá ver vocês.

- Pois.

- Tive uma manhã tão complicada, ai.

- Ah...

- Então, convida-me uma colega para ir com ela ali à Junta de Freguesia, qu'ela tinha qu'ir tratar dum cartão pá filha. E eu disse, vamos lá, então. Chegamos cá abaixo, vai ela, vê que são horas de almoço, mete-se no carro e diz-me assim, ó X, olha, eu agora não te posso ir levar lá acima!

- Ah, teve de ficar cá em baixo... olha...

- Pois é, fiquei cá em baixo! Mas isto tem algum senso? É que eu acho que não, não tem senso! Para mim não tem senso, né.

-Pois. Oh, também deixe tar, fique aí a almoçar.

- Tá bem, mas agora tenho de ir a pé lá p'ra cima, vou chegar atrasada e tudo...
A D. foi traída pela amiga. Está mal. As pessoas não têm sensibilidade nenhuma. Mas, pelo menos, a D. X ficou a saber que os senhores do café acham que ela é gira, o que talvez compense ter ficado apeada porque a amiga se pirou de carro.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Songs for Drella



Estou hoje a escrever não para me pronunciar sobre Obama e respectiva tomada de posse, mas antes para me pronunciar sobre este Songs for Drella, um dos meus álbums preferidos. Interessei-me por ele numa altura em que gostava mesmo muito de Andy Warhol, e sendo Songs for Drella (mistura de Dracula e Cinderella, alcunha de Warhol) uma "ficção" musicada sobre a vida do senhor pelos grandes Velvet Lou Reed e John Cale, ouvi-o do princípio ao fim. Agora, que o meu interesse por Warhol é já mais limitado, gosto deste álbum apenas e só pela música que, diga-se de passagem, não é exactamente uma "ficção" - desde o nome dos gatos de Warhol, até ter levado com um tiro da Valerie Solanis, passando pelas maleitas de que era acometido e onde vivia em Nova Iorque, está aqui tudo.

Há verdadeiras pérolas, neste álbum. A mais preciosa é, para mim, Open House, uma canção linda sobre a solidão (um privilégio e um tormento, ao mesmo tempo). Está disponível no Youtube, quem não conhecer e quiser conhecer pode ir procurar.


A segunda é este Small Town, vídeo infra, que narra a infância mediana do pequeno Warhol em Pittsburgh. Tem um verso de que sempre gostei - "When you're growing up in a small town, you say no one famous ever came from here. There's no Michelangelo living in Pittsburgh". Isto era, mais ou menos, o que eu pensava acerca de Portugal quando era pequena - "porque é que todas as pessoas conhecidas nunca são portuguesas?". Se calhar foi isso, inclusivamente, que me traumatizou, ser de um país relativamente ao qual o resto do mundo parecia ser indiferente. E ainda é, pelos vistos, com grande pena minha.

A canção é muito engraçada, tem também referências a Truman Capote (outro que veio da parvónia e se tornou "famoso", e que Warhol admirava), e algumas observações sensatas, como por exemplo "if they stare, let them stare at New York City", coisa com a qual eu concordo. No fundo, Small Town é uma reflexão sobre a fama, sobre querer que o mundo repare na nossa genialidade (o que, aliás, Obama deve perceber bem, para puxar um bocadinho o assunto do dia - a grande operação de marketing que montou e que o aproximou de uma rock star, com aquele Yes We Can, musicado por uma data de celebridades, não será inocente). O John Lennon disse, numa entrevista, ter sentido algo semelhante quando era pequeno. Ele sabia que era um génio enquanto criança; porque que é mais ninguém reparava? Felizmente, e no caso de John Lennon, as pessoas perceberam a tempo.
Há outras canções muito boas (gosto muito do Style It Takes, por exemplo), verdadeiras reflexões sobre a mistura entra a vida e a arte , mas estas duas são preciosas.

E é isto, hoje não tenho grande coisa a dizer, nem a escrever e nem a pensar. As terças-feiras matam-me.



segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

All you need is love...


... num cinema perto de si.

Personagens literárias mais cool de sempre - II

And the Oscar goes to:

James Kaatz (aka Jay Gatsby), directed by F. Scott Fitzgerald in The Great Gatsby

For his brilliant rendering of a man torn between a shallow life of parties and public acknowledgement and a hidden, secret love which ultimately leads to his destruction and shatters his identity; for being mysterious, loyal, dedicated and ultimately a "poor son of a bitch", the Academy is proud to present the nominee for Best Male Character in a Leading Role: Jay Gatsby








Medea, directed by Euripides in Medea

For her strength and defiance of common moral values, for her resillience in a men's world, for her constant pursue of revenge and standing up against her despicable husban Jason, for giving a whole new meaning to the "women's lib" movement, the Academy is prepared to look beyond Medea's murder of her children and proud to present the nominee for Best Female Character in a Leading Role: Medea




Edmund, directed by William Shakespeare in King Lear

For his brilliant rendition of a ravishing looking man who stops at nothing, for whom the world is his oyster, who defies his social position with daring impetus, the Academy is proud to present the nominee for Best Male Character in a Supporting Role: Edmund (I grow, I prosper. Now gods, stand up for bastards!)


Bertha Manson, directed by Charlotte Bronte in Jane Eyre


For her unconditional love for a man who was ultimately too weak and too conventional to fully embrace her devotion, for her complete and utter madness, for being the eternal "foreign", the Academy is proud to present the nominee for Best Female Character in a Supporting Role: Bertha Manson






É só votar.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Woke up this morning, got yourself a gun, got yourself a gun...


Tanta cobiça.
Tão pouco "tempo".

Tempestade no Chapitô



Três actores levam Tempestade à cena, num espectáculo físico e visual impressionante. Às vezes, chega quase ao splastick, pelo menos foi o que me pareceu, de tal forma a expressividade física dos actores (rosto, movimentos) é importante. A forma como os três tomam a seu cargo todas as personagens da Tempestade é fabulosa. Mais uma vez, é a imensa expressividade do espectáculo, e a sua impressionante simplicidade (luzes, um livro, um pano negro) que me ocorre.

Vale mesmo muito a pena. Grande encenação, grande trabalho de representação. O próprio Shakespeare gostaria deste espectáculo, acho eu. De facto, ver Shakespeare encenado é perceber verdadeiramente a razão pela qual este dramaturgo é grande (o maior) entre os grandes. A universalidade, a versatilidade, a beleza das peças são uma constatação, um sofisma inegável, e este espectáculo, visual, físico, é disso demonstração. Em Shakespeare, de facto, está tudo: o teatro, a ilusão, a vida (curiosamente, é em Tempest que Prospero declara o verdadeiro e belo we are such stuff as dreams are made on; and our little life is rounded with a sleep - estará ele a falar da vida, do teatro ou dos dois?).

sábado, 17 de janeiro de 2009

Exílio


Uma das coisas que me atraiu para Heart of Darkness foi saber, antes sequer de ter lido o livro, que Conrad era polaco e só aprendeu inglês aos 21 anos (!). Não percebendo bem o que leva uma pessoa a escrever numa língua que aprendeu relativamente tarde na vida (a relação que temos com a nossa língua materna, para mim, é das coisas mais pessoais que se podem ter), atirei-me de cabeça para Heart of Darkness, obra que me deslumbrou, de tal modo aquela linguagem pictórica, enérgica e forte de Conrad é poderosa. Para mim, a explicação para alguém escrever daquela forma numa língua que não é a sua explica-se apenas através de genialidade profunda, que com certeza Conrad tinha, e que responde um pouco à pergunta que sempre fiz, que é "Se Conrad conseguiu, porque que é que eu não consigo". Porque não és o Conrad, bebé.
Esta semana, assisti a uma conferência muito interessante na FLUL com Gillian Beer, que falava da memória, do exílio e do regresso, e num breve apontamente, Gillian disse que, da mesma forma que podemos emigrar para um local diferente, também podemos "emigrar" para uma língua diferente, e que é isso que Conrad faz. No fundo, Conrad não é apenas um exilado geográfico; é-o também linguisticamente. Achei esta ideia muitíssimo interessante.

Este exílio linguístico, isto é, a possibilidade de podermos escrever e falar bem numa determinada língua e preferi-la, até, à língua materna, não será apenas um exílio, mas igualmente uma liberdade. Estando, infelizmente, muito longe de ser escritora, tenho no entanto alguma experiência de ter de exprimir emocções, pensamentos, teorias e abstracções numa língua que não o português, mais precisamente o inglês, e, por vezes, constatei que a tarefa era bem mais facilitada nesta língua do que em português. Tenho muitos amigos que me repetem que seriam incapazes de escrever as suas teses na sua língua materna ao invés do inglês, por exemplo, porque a língua estrangeira obriga a mais disciplina de pensamento, mais concreção, menos dispersão - tudo o que dizemos em estrangeiro é mais científico, e tudo o que dizemos na nossa própria língua é mais emocional, vem do coração (Chomsky explica isto com a sua gramática generativa - a linguagem nasce connosco). Aquilo que dizemos na língua estrangeira parece mais lógico e racional porque a ligação afectiva com a língua é menor, e, pelo menos no meu caso, isto confirma-se não com exemplos intelectuais de teses, mas antes com o exemplo dos palavrões, que me soam mal em português (apesar de os utilizar de vez em quando; por exemplo, porra), ao passo que em inglês me soam bem, sendo que sou muito mais mal criada em inglês do que em português porque, precisamente, os expletivos em inglês não me parecem assim tão "fortes". Não parecem tão fortes pois, como diz Chomsly, a nossa faculdade da linguagem inata que justifica o "instinto natural" para a língua, e que é tão evidente na língua mãe, desaparece, ou é fortemente atenuado, na língua estrangeira, onde o mesmo instinto só se manifesta, se é que se manifesta de todo, após anos de aprendizagem, prática, fluência. O que também quer dizer, por exemplo, que certas coisas são mais fáceis de dizer em estrangeiro, porque o coração não as sente da mesma forma, e por isso sentimo-nos mais livres para dizer o que quisermos.
Daí a minha sempre renovada admiração por Conrad, esse perpétuo e magnífico exilado in more ways than one (o inglês tinha de vir aqui parar). Porém, parece-me que Conrad conseguiu uma coisa que eu sempre julguei impossível, e que foi, precisamente, vencer o exílio e apropriar-se do inglês como se fosse a sua língua mãe, com ou sem instinto natural que o auxiliasse, e escrever do coração, emocionalmente. Incrível.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Duas coisas insignificantes que me irritaram levemente

Dantes, conhecia algumas pessoas que se chamavam Maria João. Agora, só conheço pessoas chamadas apenas "Maria".

Ontem vi um bocado do programa da Oprah. Devo confessar que vi de propósito para me irritar, porque às vezes tenho estes instintos sado-maso. A Opra entrevistava a Tatum O'Neal, filha de Ryan O'Neal, que pode ser um actor respeitável, mas parece que, como pai, foi um desastre. Bom, estava então Tatum O'Neal a falar da sua toxicodependência e do seu sofrimento e como custa largar a droga e isto e aquilo, e a grande sentença da Oprah, que sabe sempre tudo e é a salvadora do mundo e ai de quem a contradiga, diz-lhe assim sem mais nem menos, "pois, aquilo por que tu passaste foi uma humilhação. Foi uma humilhação e foi uma decadência. Era o que estavas a precisar na altura, não era?" Perante este absurdo de que, quando as pessoas passam por situações de vida humilhantes ou decadentes, é porque "estão a precisar", a Tatum O'Neal olhou para a Oprah e respondeu, brilhantemente, "sim". A Tatum também não deve ser muito esperta, coitada.
Esta Oprah, como se diz em brasileiro, "tira-me do sério" com a mania que Deus a colocou na Terra para fazer sei lá o quê. Parece-me ser uma mulher com a mania que encerra em si a sabedoria divina, preocupada em mostrar ao mundo o quão boazinha é, graças ao poder imenso que a televisão lhe dá e que lhe permite a auto-glorificação constante. É um perigo.
Acho que a Oprah devia ler a Justine, do Marquês de Sade, para aprender de uma vez o que se ganha em ser-se muito boazinha, coitadinha.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

The time has come to talk of many things: of shoes and ships and whether pigs have wings (post parvo)


Como hoje está frio e chuva, ouvi em repeat Alice, de Tom Waits, cujo primeiro e bonito verso é it's dreamy weather, que eu acho que se aplica muito a dias de chuva. Adoro esta canção. Este álbum de Tom Waits, intitulado precisamente Alice, é a banda sonora que Waits fez para a peça de Bob Wilson, intitulada precisamente Alice, e baseada, como se adivinha, precisamente em Alice in Wonderland, de Lewis Carrol, que esteve precisamente no CCB em Lisboa, precisamente há uma data de anos. Não consegui bilhetes, ou melhor, não pedi à minha mãe a tempo que me arranjasse bilhetes, porque eu naquela altura vivia do dinheiro parental e não tinha dinheiro nem para mandar cantar um cego, e hoje continuo a não ter, a questão é que agora tenho de trabalhar para não ter dinheiro para mandar cantar o tal cego, seja lá onde for que ele se encontra.
A Alice (in Wonderland e Through the Looking Glass) é daqueles livros fundamentais de que toda a gente gosta, e ainda bem. Eu gosto muito, principalmente da parte com Tweedledee e Tweedledum, em Through the Looking Glass, onde John Lennon se inspirou para escrever o fabuloso I am the Walrus. Mas o que gosto particularmente neste capítulo é da discussão que a Alice trava com os esquisitos irmãos Tweedledee e Tweedledum a propósito do sonho do Red Kind, profundíssima discussão em que os irmãos relativizam a realidade - nada existe, ou como saber que as coisas existem? como saber se o que pensamos e fazemos é real e não apenas um sonho? podemos ser todos fragmentos do sonho de alguém e nem sequer sabemos - ao passo que Alice afirma que sim, que ela sabe que existe, recusando admitir que os irmãos podem ter razão (o diálogo segue abaixo, ligeiramente comentado por mim). No fundo, a Alice só tem a sua própria vontade e crença que lhe asseguram a existência. Ela acredita que é real, mas não consegue responder quando Tweedledee e Dum lhe perguntam como é que ela pode ter a certeza de que as suas lágrimas são reais. Muito à Schopenhauer. Alice sofre, solipsista, encerrada em si, sem saber se existe ou não, porém sabendo que tem vontade de existir.

E foi esta conclusão brilhante que retirei de um tão simples acto cometido num dia chuvoso, que foi ouvir Alice de Tom Waits, e que demonstra igualmente que, nos dias em que insistimos em escrever posts apesar de não termos nem uma única ideia de jeito nem nada para dizer, inventamos as parvoíces mais maribolantes para que saia qualquer coisa do teclado. Desculpe qualquer coisinha.

He's dreaming now,' said Tweedledee: `and what do you think he's dreaming about?'
Alice said `Nobody can guess that.'
`Why, about YOU!' Tweedledee exclaimed, clapping his hands triumphantly. `And if he left off dreaming about you, where do you suppose you'd be?'
`Where I am now, of course,' said Alice.
`Not you!' Tweedledee retorted contemptuously. `You'd be nowhere. Why, you're only a sort of thing in his dream!'
`If that there King was to wake,' added Tweedledum, `you'd go out -- bang! -- just like a candle!'
`I shouldn't!' Alice exclaimed indignantly. `Besides, if I'M only a sort of thing in his dream, what are YOU, I should like to know?'
`Ditto' said Tweedledum.
`Ditto, ditto' cried Tweedledee.
He shouted this so loud that Alice couldn't help saying, `Hush! You'll be waking him, I'm afraid, if you make so much noise.'
`Well, it's no use YOUR talking about waking him,' said Tweedledum, `when you're only one of the things in his dream. You know very well you're not real.'
(rio-me sempre com esta afirmação peremptória de Tweedledum, como se estivesse a dizer uma coisa muito normal, do estilo, "sabes muito bem que tens de ir à escola" ou algo semelhante).
`I AM real!' said Alice and began to cry.
`You won't make yourself a bit realler by crying,'
("a bit realler", outra pérola) Tweedledee remarked: `there's nothing to cry about.'
`If I wasn't real,' Alice said -- half-laughing though her tears, it all seemed so ridiculous -- `I shouldn't be able to cry.'
`I hope you don't suppose those are real tears?' Tweedledum interrupted in a tone of great contempt.
`I know they're talking nonsense,' Alice thought to herself: `and it's foolish to cry about it.' So she brushed away her tears, and went on as cheerfully as she could.
(aqui está, vontade indómita de existir; não há qualquer argumento racional e lógico para a existência, ou se há, Alice não o consegue encontrar. Descartes, dá cá um saltinho que tens de vir resolver isto).

Aproveito para dizer que a edição que tenho da Alice é muitíssimo boa, "The Annotated Alice", edição crítica de Martin Gardner, publicada pela Penguin, e com os lindíssimos desenhos originais de Tenniel. Vale muito a pena, para todos os fãs da querida Alice. A maravilha da Internet também me informou de que Tim Burton está a preparar a sua versão cinematográfica da obra de Lewis Carrol, o que me deixa em grande expectativa, uma vez que, fã de Burton que sou, não consigo lembrar-me de ninguém melhor para levar Alice ao silverscreen.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

(outra) Gaja que faz o meu estilo: PJ Harvey

Hoje estou imensamente musical, e por isso não me posso esquecer de falar aqui da grande PJ, que eu adoro, adoro, adoro.

É tão desavergonhada, esta mulher, mas no bom sentido. Quando a comecei a ouvir, a sensação que tinha é que ela dizia coisas que eu tinha vergonha de dizer, e por isso é que digo que ela é uma desavergonhada e que isto é um elogio.

A raiva, a frustração amorosa e existencial, o desconforto com coisas de nada, ou com coisas muito importantes, um universo meio surreal e onírico, umas coisas vindas da literatura (consigo lembrar-me, precisamente, de uma cançãozinha chamada Catherine, correcção, Wind - estas duas canções são do mesmo álbum, confundo - sobre o meu Wuthering Heights, mas toda à rock, não a coisa melosa da Kate Bush, que eu por acaso também gosto), letras como I can't believe life is so complex, when I just want to sit here and watch you undress (este verso faz-me sempre rir, acho imensa piada a isto) e um visual estranho, que consegue provar que ser feia, às vezes, é ser imensamente bonita. Da mesma forma que há homens feios bonitos, sobre os quais também já escrevi aqui, também há mulheres feias lindas, como é o caso da PJ, quanto a mim.

Continua, Polly Jean, que eu preciso de ti. E, olha, já agora, volta a namorar com o Nick Cave. Faziam um casalinho tão bonito, os dois.

Parabéns a você



Ai, ai, ai, já me ia esquecendo, parabéns, Xutos!
Hoje, o shuffle também passou por eles (Contentores, Casinha, Homem do Leme. A minha preferida continua, porém, Circo de Feras, chique a valer, como se diria n'Os Maias).
Quando era pequena, não gostava assim muito de Xutos. O meu irmão é que gostava, e uma vez obrigou-me a ouvir a sua recitação da letra de "Chuva Dissolvente", uma música que, à semelhança das músicas de Frutuoso França que fizeram a infância de Lobo Antunes e sobre as quais o mesmo escritor escreveu no Primeiro Livro de Crónicas, tem muita moral, segundo o meu irmão. Mais tarde, fomos a um grande concerto chamado Portugal ao Vivo, onde os Xutos tocaram, e foi inesquecível. É claro que para isto também contribuiu o facto de, em vez de bailarinas, terem arranjado umas strippers para abrilhantar o show e deixar toda a gente siderada, mas a música em si (sim, que os Xutos também a tocaram) foi uma animação.

Passei a gostar de Xutos. De facto, têm muita moral e estes 30 anos confirmam isso. Acho que é um bocado impossível não se gostar do Zé Pedro, do Tim, do Kalu, e do Cabeleira, que me metia medo quando eu era pequena porque tinha aquela cara enfiada que parecia o Lobo Mau, mas aposto que também é muito boa pessoa.

Bandas portuguesas que cantam em inglês e não fazem mais nada senão falar da internacionalização: primeiro, acordem e deixem de ser bimbos, que a internacionalização não vai acontecer, segundo, ponham os olhos nos Xutos, amiguinhos. Como diria o Dr Pangloss em Candide, de Voltaire, primeiro há que cuidar do nosso próprio jardim. Depois, vamos aos jardins dos outros, ok?

Pequenos, minúsculos, pormenores

É muito engraçado descobrirmos pormenores na música ou nos livros de que gostamos, e que nos fazem gostar ainda mais deles. Por exemplo, já escrevi antes de que uma das razões pelas quais gosto muito, muito, muito de Measure for Measure, de Shakespeare, é o facto de Claudio, condenado à morte, replicar à irmã com um simples "Death is a fearful thing", ao tomar conhecimento que Isabella, a sua irmã, tem hipótese de o salvar se se oferecer carnalmente ao governador da cidade.

Vinha hoje no carro com o ipod no shuffle (bem, os tempos modernos fazem-nos usar cada item lexical mais foleiro e anglófono que, para me redimir do que acabei de escrever, só umas 200 Ave-Marias e 500 Pai Nossos, aposto), dizia, vinha então com essa glória da tecnologia, que é o ipod, programada para o auge das suas capacidades cognitivas e reprodutoras, que é o shuffle de mil e tal canções (vivemos, sem dúvida, numa sociedade de excesso; um instrumento que pesa meia grama e que alberga mil e tal canções, como é que isto é possível?! como é possível conhecer-se mil e tal canções, e o que é certo é que conhecemos, e até mais), hoje estou a divagar, dizia, ipod no shuffle, e calha o mesmo ipod passar a versão de Where Did You Sleep Last Night dos Nirvana.

Gosto dos Nirvana. Quando lançaram o histórico Nevermind, estava eu em plena, pleníssima, adolescência, e, estimulada pelos gostos musicais de um irmão todo cool que passava a vida em guitarradas no quarto, comecei desde logo a ouvir Nirvana, e a discutir quem era melhor banda, se Nirvana, se Pearl Jam, talvez até Sound Garden (ná, ou Nirvana, ou Pearl Jam) e a concluir que, em geral, a cena de Seattle era, toda ela, muito boa (concluí eu e o meu irmão, do alto dos anos de adolescente, muitíssimo orgulhosos do nosso conhecimento musical). Gosto dos Nirvana porque me fazem lembrar uma altura em que a música era tudo na vida- havia que ter bandas favoritas e intocáveis, havia que saber letras de cor e decifrar o inglês, havia que discutir a qualidade musical deste e daquele, havia que decidir se o enorme sucesso dos Oasis se justicava ou não, eu, por exemplo, era mais adepta dos Blur, havia que descobrir um número infindável de bandas mais antigas e essenciais, os Led Zeppelin, os Deep Purple, os Jefferson Airplane, a Janis Joplin, a perfeição dos Beatles, havia que gostar de Doors e decidir se o Jim Morrison era ou não o Rei Lagarto, havia que ir a concertos ou ouvi-los em directo na Antena 3, havia que sentir aquela emoção genuína de ir a um concerto pela primeira vez e pensar que aquele é o momento mais importante, mais entusiasmante da nossa vida inteira, estamos mesmo na mesma sala que aquela banda importantíssima, eles vão mesmo tocar para mim, nada é melhor do que isto, comprar revistas de música, ler os pregões parvalhões do Blitz (ainda existem?) e decidir qual era o mais parvalhão, pensar no que é que os Faith no More queriam dizer com "well it's a dirty job but someone's gotta do it", ou o Lenny Kravitz com "are you gonna go my way", estavam tristes?, estavam bem dispostos?, aquilo era uma mensagem importante ou não?

Enfim. Todo um rol de coisas que se tornam insignificantes quando crescemos, ainda que continuemos a gostar muito de música e a ouvir muita música. Esta torna-se ócio, lazer, e não o centro do nosso universo, que passa a ser ocupado por outras coisas não necessariamente más (algumas até francamente boas, felizmente) - apenas outras coisas.

Isto para dizer que o meu ipod escolheu, aleatoriamente, Where Did You Sleep Last Night dos Nirvana, Unplugged, que eu absolutamente adoro. De todo o Unplugged, acho que a minha preferida é mesmo esta, apesar de não ser um original da banda. Entre outras coisas, gosto muito desta canção porque, para o fim, o Kurt Cobain está a cantar e solta um suspiro doloroso entre I shiveeeeeeeeeeer the whole... e night through (confirmar minuto 4:30 e seguintes no vídeo abaixo). É provavelmente um suspiro de cansaço da parte do Kurt, por ter desfeito o shiver num grito emocionado, mas o que é certo é que este suspiro, para mim, encerra a intensidade toda desta canção. Ouço-a do princípio em grande antecipação, ansiosa por chegar à parte do suspiro. Um pormenor, nada mais do que isso, mas tão importante.

Estou a sentir-me muito adolescente, hoje.

Uma pequena nota antes de terminar, quando comprei o ipod nunca pensei que fosse usar o shuffle. Pensei que era o tipo de pessoa que faria playlist atrás de playlist (oh pá, estes termos da modernidade matam-me, o shuffle, a playlist, meu Deus...), com muita personalidade, umas para ouvir de manhã, outras para ouvir à noite, outras para descontrair, outras para dar adrenalina, e que nunca recorreria ao shuffle, que isso era coisa anódina de quem não sabe o que quer ouvir. Mas a verdade é que, passado o entusiasmo das playlists, reconheço que o shuffle, de facto, dá um imenso jeito e satisfaz o nosso desejo, muitíssimo adolescente, não de requinte, mas antes de conhecer bem esta banda, e a outra, e a outra, e a outra...

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

You're living for nothing now, I hope you're keeping some kind of record

Este post serve dois propósitos.

Primeiro, dizer que gosto muito do filme aqui da fotografia, Sunset Boulevard, em português Crepúsculo dos Deuses (este título até está giro), que acho assombroso. A Norma Desmond, personagem do filme, interpretada por Gloria Swanson, também ela uma diva envelhecida e démodé na vida real, é uma velha actriz cujos dias de glória já passaram, só que ela ainda não sabe, e vive fechada em casa, nos seus delírios de outrora, convencida que o mundo ainda a adora e aguarda ansiosamente o seu próximo, e sempre adiado, e consequentemente inexistente, filme. A Norma Desmond vive, apenas e só, na sua cabeça, completamente alheada do mundo exterior, num castelo de ilusões que a sua imaginação,e a devoção do seu fiel mordomo, alimenta. E, por isso, fez-me lembrar esta frase de Famous Blue Raincoat, de Leonard Cohen, "I hear that you're building your little house deep in the desert, you're living for nothing now, la, la, la". É isto que a solitária e abandonada Norma Desmond faz - constrói a sua casa no deserto, em completo isolamento. Ela não é muito diferente de todas as pessoas solitárias, apenas leva a solidão ao extremo, a preparar-se para o seu eterno close-up, uma última vez, frente às câmaras de Cecil B. deMille. É um filme maravilhoso, este, com excertos de filmes mudos protagonizados pela própria Gloria Swanson nos tempos de celebridade. É também neste filme que esta última pronuncia aquele famoso ditado sobre o cinema moderno - "agora têm vozes; nós, naquela altura, não, só tínhamos a cara. Já não há caras no cinema, excepto talvez a de Garbo". Realmente, Garbo tinha uma grande cara. Garbosa e tudo (não resisti à piada seca, peço desculpa).

Também gosto muito de Leonard Cohen. Adoro-o, para ser mais precisa, e infelizmente, por estar, na altura, longe de Lisboa fisicamente, embora presente em espírito, perdi o seu concerto na urbe, e agora tenho de me habituar à ideia de que, com a idade do senhor, nunca o irei ver ao vivo. É tristíssimo. O que me leva ao segundo propósito deste post. A lindíssima canção Famous Blue Raincoat, para mim, pura e simplesmente, a canção perfeita, é sobre quê? Sempre pensei, e a cada audição vou confirmando a minha conjectura, que a história reza assim: o Leonard tinha um amigo que se meteu com a mulher dele (and you treated my woman to a flake of your life, and when she came back she was nobody's wife), e para seu descomunal azar, este grande amigo era Corto Maltese (well, I see you there with the rose in your teeth; one more thin gipsy thief - a mãe de Corto era uma cigana de Gibraltar; Corto é meio cigano, também); o amigo foi-se embora, porque é um solitário, um lobo das estepes, não lhe interessa estar com ninguém (you're living for nothing now, aí está), mas fez a esposa do Leonard feliz por uns tempos, porque, precisamente, era o Corto Maltese (thank you for the trouble you took from her eyes, etc), de tal forma que, ao pé dele, o próprio Leonard, poeta magnífico e perfeito, sente-se meio aburguesado; isto passa-se, e o Leonard percebe que ele nunca poderá fazer a sua mulher feliz, agora que ela conheceu o indomável Corto, e escreve ao amigo (a canção, como percebemos, é uma carta . sincerely, L. Cohen) a dizer-lhe que se vai divorciar (your enemy is sleeping and this woman is free) e que ele pode voltar à vontade (what can I tell you, my brother, my killer, I guess that I miss you, I guess I forgive you, I'm glad you stood in my way). O próprio Leonard tem muitas saudades do seu grande amigo Corto e perdoa-lhe o facto de se ter enrolado com a sua mulher Jane. Esta última, depois da partida de Corto, decidira permanecer com Leonard (I see Jane's awake, she sends her regards - ela ainda vive com Leonard à altura em que este escreve a carta), mas agora que o marido percebeu que o casamento não está a resultar, e com o regresso iminente de Corto, quem sabe?! Narrativa aberta.
Consegui tornar a canção perfeita que Famous Blue Raincoat é numa telenovela. Sou um monstro.
Aceitam-se outras interpretações.
Antes de terminar, queria só reiterar que Famous Blue Raincoat é a canção perfeita.

Famous Blue Raincoat

It's four in the morning, the end of December
I'm writing you now just to see if you're better
New York is cold, but I like where I'm living
There's music on Clinton Street all through the evening.

I hear that you're building your little house deep in the desert
You're living for nothing now, I hope you're keeping some kind of record.

Yes, and Jane came by with a lock of your hair
She said that you gave it to her
That night that you planned to go clear
Did you ever go clear?

Ah, the last time we saw you you looked so much older
Your famous blue raincoat was torn at the shoulder
You'd been to the station to meet every train
And you came home without Lili Marlene

And you treated my woman to a flake of your life
And when she came back she was nobody's wife.

Well I see you there with the rose in your teeth
One more thin gypsy thief
Well I see Jane's awake --

She sends her regards.
And what can I tell you my brother, my killer
What can I possibly say?
I guess that I miss you, I guess I forgive you
I'm glad you stood in my way.

If you ever come by here, for Jane or for me
Your enemy is sleeping, and his woman is free.

Yes, and thanks, for the trouble you took from her eyes
I thought it was there for good so I never tried.

And Jane came by with a lock of your hair
She said that you gave it to her
That night that you planned to go clear

Sincerely, L. Cohen

Saiba tudo o que sempre quis saber. Os Beatles respondem.

A este desafio, é impossível de resistir. Responder a algumas perguntinhas típicas daqueles testes de personalidade da Internet com letras de canções. À semelhança da Tia Sócrates, também escolhi os Beatles, muito obviamente, porque sempre achei que tudo o que há para saber está na música dos Beatles. É ouvi-los com atenção, pois. Qualquer pergunta, eles respondem, como aliás este desafio prova.

1. És homem ou mulher? Her Majesty
2. Descreve-te: I am the Walrus
3. O que as pessoas acham de ti? Lovely Rita (optimisticamente falando)
4. Como descreves o teu último relacionamento? A Hard Day's Night
5. Descreve o estado da tua actual relação: You never give me your money
6. Onde querias estar agora? Strawberry Fields (Forever)
7. O que pensas do amor? A Day in the Life
8. Como é a tua vida? Fool on the Hill
9. O que pedirias se pudesses ter um só desejo? Please please me
10. Escreve uma frase sábia: Tomorrow Never Knows

domingo, 11 de janeiro de 2009

Este post é um lugar comum (centros comerciais, consumismos e quejandos)

No espaço de poucos dias, tive a oportunidade de observar não uma, mas duas, criancinhas, que se queixavam aos respectivos pais de que estes nunca lhe compravam nada. Uma chorava, gritando, na caixa de supermercado, "mas tu há uma semana que não me compras nada!", ao que a mãe, empedernida, respondia "pois, temos pena". O outro, ligeiramente mais velho, e desta vez nas escadas rolantes de um centro comercial (foi onde me cruzei com ele), pedinchava "mas compra lá! porque é que não me compras, são só 25 euros. Ó mãe, são só 25 euros!".
Numa tentativa vã de evitar discursos conservadores e perfeitamente estéreis como "quando eu era pequena, ninguém ia tão longe quando pedinchava aos pais, embora pedinchássemos", às vezes imagino as décadas futuras como dominadas por hordas de pequenos monstrinhos desempregados, a clamar, qual Oliver Twist (mas com mais determinação e petulância, coisa que o pobre Oliverzinho não se podia dar ao luxo de ter), please, sir, can I have some more, sir, now sir!, em inglês e tudo, não porque tenham lido o Oliver Twist, mas antes porque agora toda a gente fala inglês logo na primária, portanto o que será daqui a 10 ou 20 anos. Mas isto são apenas fragmentos da minha imaginação, nada que, espero eu, seja minimamente realista.
Quando a peça Shopping and Fucking, de Mark Ravenhill, estreou no CCB, há uns quantos anos, o encenador português que a levou à cena dizia que Portugal, no início do século XXI, atravessava aquilo que o Reino Unido atravessara no fim dos anos 80 e também na década de 90, consumismo desenfreado consequência do liberalismo desenfreado thatcheriano, além de frágeis relações humanas, amoralidade, etc. Talvez sim, talvez não. Gostando muito de Sara Kane, essa sim, que escreve peças tão cruas que custam a ler, e que faz parte da mesma escola de Ravenhill, , o in yer face theatre, devo dizer que não gosto particularmente deste Shopping and Fucking. Já se sabe que as relações humanas são muito vazias e tal, não é de agora. Olha o Hamlet, que teve de aprender isso duramente, e que viveu há que séculos atrás. O Hamlet não teria um centro comercial para destilar frustrações, mas tinha uma caveira e tinha a Ofélia, vai dar quase ao mesmo, porque desde que se destilem frustrações para algum lado, é o que importa.
Bem. Já me esqueci do que queria dizer. Acho que era só mesmo mencionar que, apesar da minha queda para as compras, que a tenho e bem, agora com os saldos então (eu própria sou produto do thatcherismo, liberalismo, capitalismo, etc., tudo muito desenfreado) aquelas criancinhas, já tão cientes de que 25 euros, pelos visto, não é assim tanto, me fizeram um bocadinho de impressão.