
DArtacao e os Tres Moscaoteiros -



James Kaatz (aka Jay Gatsby), directed by F. Scott Fitzgerald in The Great Gatsby


Hoje estou imensamente musical, e por isso não me posso esquecer de falar aqui da grande PJ, que eu adoro, adoro, adoro.
É muito engraçado descobrirmos pormenores na música ou nos livros de que gostamos, e que nos fazem gostar ainda mais deles. Por exemplo, já escrevi antes de que uma das razões pelas quais gosto muito, muito, muito de Measure for Measure, de Shakespeare, é o facto de Claudio, condenado à morte, replicar à irmã com um simples "Death is a fearful thing", ao tomar conhecimento que Isabella, a sua irmã, tem hipótese de o salvar se se oferecer carnalmente ao governador da cidade.
Este post serve dois propósitos.
Holden Caulfied, Catcher in the Rye, evidentemente. A personagem mais cool de sempre. Se eu fosse o Holden, sei lá o que é que eu faria... fumava muitos cigarros, sentava-me à chuva a olhar para o meu irmãozinho mais novo e a sentir-me feliz apenas com isso. Saberia, amarga e sarcasticamente, que o mundo é hostil e sem esperança, era uma rebelde sem causa, mas, no entanto, correria sempre atrás de uma causa, a ajudar pessoas no centeio, a tentar que as coisas fizessem sentido, e mesmo que não fizessem, eu ficava ali no centeio, a fumar, a ser cool e a apanhar pessoas, logo, a ser útil.
Este livro é estranhíssimo. Li-o há uns meses e ainda estou a decidir se gostei, se não. Há livros assim, que nos fazem demorar algum tempo a formarmos algo que se possa designar por "opinião". Agora, que a"História do Olho" tem partes que me interessaram muito ao nível da escrita, isso é inegável, principalmente aquelas descrições obsessivas e muito físicas de ovos e glóbulos... interessante, sem dúvida.
Há alguns dias, vi na televisão um documentário sobre John Ford, onde Steven Spielberg participava numa pequena entrevista. Disse Spielberg que conheceu Ford quando ainda era um adolescente já aspirante a realizador. John Ford concedera-lhe 1 minuto do seu precioso tempo e mandou Spielberg olhar para uma série de quadros (acho que de Turner, como um destes que pus aqui, mas não tenho a certeza; o outro quadro que figura aqui é de Renoir) e perguntar-lhe o que tinha a dizer daquilo. Spielberg fico algo atrapalhado, e Ford mandou-o olhar para a linha do horizonte em cada quadro que via. "Onde é que está a linha do horizonte neste quadro? Em cima, a meio ou em baixo?", perguntou o velho realizador, que já na altura, ao que parece, era irascível e intimidante. "Em baixo", respondia Spielberg, ou "em cima". Não havia nenhum quadro em que a linha do horizonte estivesse a meio.Eu acho que as pessoas, às vezes, não gostam mesmo nada de mim.
Disse, há horas atrás, a uma amiga minha que em geral não costumo apreciar grandemente filmes sobre histórias de amor (excepção feita a Woody Allen). Ficou a olhar para mim, horrorizada. Também fica a olhar para mim com expressões de repulsa quando eu lhe repito que gosto muito do Exorcista. Uma vez disse a outra amiga que não tinha gostado nada d'As Horas, nem do filme, e muito menos do livro, e também lhe meti nojo. E outra vez também disse a uns amigos que não ia nada, mas é que mesmo nada, à bola com Sigur Rós e aí, bem, caiu literalmente o Carmo e a Trindade, e deixaram de me falar e ostracizaram-me e "baterem-me" (quer dizer, isto sou eu a exagerar, mas ficaram a olhar para mim como se eu fosse uma má pessoa).
A verdade é que as pessoas, todos nós, e eu também, temos ideias pré-concebidas e muito formatadas daquilo que se deve gostar e do que não se deve gostar. É algo semelhante às "duas culturas" que C.P. Snow distinguia - a científica e a humanista, sendo que os que pertencem a uma nada sabem da outra, e depois é um problema e uma vergonha. A nossa vida social também se divide em duas, ou talvez mais, culturas, a cultura caviar das coisas de que se deve gostar, e a cultura parola daquilo de que não se deve gostar (ou então, de que só se deve gostar de forma muito secreta, porque senão é uma vergonha. Os chamados "guilty pleasures"- o inglês dá tanto jeito, não consigo evitar) - como todos sabemos, esta cultura parola rege-se por estereótipos como ir a centros comerciais ao fim de semana, música pimba, Paulo Coelho, ao passo que os esterótipos que me ocorrem para a cultura caviar é dizer que se vai ao King três vezes por semana, ou, de forma mais extrema, descrever o "Branca de Neve" de João César Monteiro como um filme belíssimo (aqui, não posso mesmo concordar. Gosto de muitos filmes de João César Monteiro, mas ouvir as pessoas a dizer, ao sair de "Branca de Neve", que o filme era "extraordinário"... bem). Episodicamente, há elementos que passam de uma cultura para a outra, e, por exemplo, quando o filme português "Aquele querido mês de Agosto" saiu, de forma óbvia apelando à cultura caviar, havia muita gente da mesma cultura a dizer, condescendentemente, que achavam muita gracinha à música pimba.
A princípio pensei que não fosse capaz de responder ao desafio simpático da S.M., mas acho que afinal até consigo. Tenho de revelar oito sonhos para 2009, embora seja uma tarefa mais complicada do que parece. Mas vou tentar.
Espero não estar a infringir nenhum direito de autor ao transcrever parte da entrevista a Herman José incluída no DVD do Tal Canal:
Aquilo que eu tenho a dizer às pessoas que passam a vida a suar no ginásio, convencidas que estão a praticar uma boa acção, é: