segunda-feira, 2 de julho de 2012

O Drácula é um ser tradicional

O Câmara Clara de ontem foi o meu preferido até hoje, a par daquele em que a Alice Vieira foi entrevistada.
O convidado do programa de ontem foi, então, Francisco Vaz da Silva, que tem investigado profundamente contos orais tradicionais e que organizou recentemente um colóquio sobre os Irmãos Grimm. Foi um programa delicioso e assustador, em que se falou da violência comum a este tipo de contos que, curiosamente, os Grimm aliviaram bastante. Não sendo originalmente contos para crianças, estas histórias tradicionais foram "depuradas" (como se disse até à exaustão no programa) para que se tornassem matéria infantil mais própria. Se ainda hoje estes contos nos parecem tão violentos, o que seriam na sua forma original - uma verdadeira crueza brutal, ao que parece, repleta de relatos de canibalismo, abusos, mutilações. 
A história do Capucinho Vermelho, por exemplo, conta com várias versões, uma delas rezando que, no momento em que a Capuchinho chega a casa da Avó, já o Lobo comeu parte desta última, armazenou o sangue numa garrafa de vinho e reservou suculentos nacos da senhora para conservar na salgadeira. Diz o Lobo ao Capuchinho, com todo o desplante, "vem descansar para a cama comigo, mas antes prova este vinho revigorante e sacia-te com estes suculentos nacos de carne", sugestão que Capuchinho aceita de bom grado antes de ir para o descanso, também ele bastante carnal, com o Lobo, e o resto a gente já imagina (ou não). Este canibalismo descarado, contado de uma forma tão normal, faz lembrar uma outra personagem que conhecemos bem e que também tinha uma mania, canibalesca e um bocado bruta, de corromper as suas vítimas ao fazê-las beber o seu sangue. Essa personagem é o Drácula - a forma de vitimizar as presas não passava só por beber o seu sangue, mas também por fazê-las beber o sangue dele próprio, Drácula, consumando assim a corrupção total da vítima. Ao beber o sangue de Drácula, o incauto inicia um processo de transformação vampiresco, e se insistir na beberagem, acaba mesmo por se tornar  vampiro e nada a fazer. É quase o que acontece à personagem de Mina (na obra de Bram Stoker, diga-se), que Drácula seduz e a quem dá a beber o seu sangue milenar. Lixado, este Drácula. Rancorosozinho.
Bom. Numa outra versão de Capuchinho Vermelho, a menina transforma-se em loba para, de igual para igual, lutar com o Lobo e matá-lo, dispensando a figura masculina do Lenhador. O mesmo se passa com Drácula - ao transformar-se em seu igual, a vítima deixa de ser vítima e reúne a força e o conhecimento necessários para o destruir. Assim o confirma Mina que, depois de ter bebido o sangue do vampiro, mantém com ele uma espécie de laço espiritual, telepático, etc., conseguindo adivinhar-lhe o paradeiro, os desejos, as necessidades, e tornando-se fundamental para que Drácula seja localizado mesmo a tempo, estaca no coração ao nascer do sol, cortar a cabeça e está feito. 
De onde se conclui que isto anda tudo ligado e que as histórias que povoam a nossa cabeça são, no fundo no fundo, as mesmas, o que também quer dizer que a nossa cabeça é, no fundo no fundo, a mesma. Faz lembrar a carruagem que leva a Cinderela ao baile - consegue ser ofuscante na sua sofisticação e brilho, mas não deixa de ser uma abóbora, que é abóbora desde o princípio dos tempos e abóbora permanecerá até ao fim dos tempos. 
Fim.

4 euros à hora

Bom. Eu ia escrever um post sobre um determinado assunto, mas li agora uma notícia no Público que anuncia que os enfermeiros deste país estão a ser contratados por 4 euros à hora.
4 euros à hora.
4 euros à hora. 
4 euros à hora.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Coisa que não compreendo: as pessoas que, mal chega o calor, vão logo para a praia

Não compreendo, mas não é que não apoie, muito pelo contrário - eu gostava de ser como estas pessoas, esta gente que, no primeiro dia de sol e calor, já está prontíssima para ir para a praia e vai mesmo, bastando um dia para adquirirem um bronze resplandecente, como aquele que eu nunca tive nem nunca terei. Aliás, o meu médico já me admoestou, devido a todos os escaldões que apanhei, dizendo-me para desistir, que eu era pessoa sem melanina e que vivesse com isso. Não é verdade, é claro que tenho melanina, mas pronto, tenho uma melanina que é fraquita.
Continuando. Eu, para ir à praia, tenho primeiro de me preparar psicologicamente. Ver se o biquini do ano passado ainda está decente, porque se não estiver tenho de ir comprar outro, e demoro sempre imenso tempo a escolher um biquini que não seja ridículo. Detesto comprar bikinis ou sequer pensar em bikinis, detesto. Depois, tenho de me lembrar onde pus as toalhas de praia do ano passado, o saco, os chinelos. A seguir, tenho de ir comprar um bom protector solar, porque diz que não se devem usar os de anos passados, que perdem propriedades. Segue-se a preocupação com o cabelo, se vou à praia não vale a pena ir ao cabeleireiro porque o cabelo estraga-se todo de qualquer forma, mas a verdade é que está mesmo a precisar de um jeitinho, e portanto talvez seja melhor ir. Depois é procurar roupa de praia, uma tshirt, uns calções, e escusado será dizer que nunca tenho nada disso no armário.
Se consigo chegar à praia depois de todas estas tarefas, há que escolher cuidadosamente a hora do dia, se não quero sair de lá que nem lagosta escaldada, semelhante aos ingleses de tronco nu nas esplanadas, ou até pior. Depois, arranjar um sítio com sombra, e isto partindo do princípio que as outras tarefas a que uma mulher tem de se dedicar, tipo livrar-se do pêlo esteticamente feio, já foram tratadas. 
Dir-me-ão, como já me disseram antes: 'és mesmo parva, pá, queres ir à praia vais e pronto!'. Sim, é verdade que não consigo ir para a praia a correr porque a minha cabeça está cheia de censores mentais, mas também não consigo dar um mergulhito a saber que não percorri todas as etapas que deveria ter percorrido. A verdade é que não gosto assim tanto de praia, e que até a prefiro no Inverno, o areal deserto, o mar desgovernado, uns pontinhos escuros aqui e ali que marcam a silhueta de alguns corajosos surfistas, ninguém à volta a chatear. 
Mas isto não impede que não inveje profundamente quem está prontíssimo para ir para a praia em cinco minutos, tudo no lugar, e regressa depois com aquele tom dourado e saudável de um bom raio de sol. Não sei como é que estas pessoas fazem. Começam a tratar das coisas com antecedência porque o boletim metereológico lhes diz que dali a uns dias vai estar sol? Ou andam o ano inteiro em dietas, em depilações, em isto e aquilo para estarem perfeitas quando finalmente o primeiro dia de Verão se anunciar? Não sei. Sei que eu não sou assim porque, com alguma pena, preciso de preparação psicológica para tudo. 

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Vamos ser amigas

Ai, meu Deus. Eu ando muito entristecida, a sério que ando. De coração partido. E porquê? Ao contrário do que seria normal, não se deve ao Corto Maltese (felizmente), mas antes às pessoas do meu próprio sexo, às mulheres em geral.
E a pergunta repete-se: porquê? Porque não compreendo esta necessidade ininteligível que as mulheres têm (ou, pelo menos, algumas têm) de se digladiarem até à morte em vez de, como dizia Germaine Greer, que também pode não ser grande exemplo mas às vezes dá jeito, se unirem num verdadeiro espírito de classe, tipo o proletariado ou os mineiros ou assim. Se uma mulher faz plásticas - velha, gaiteira, feia. Se tem filhos e deixa de trabalhar - preguiçosa, comodista, atrasada. Se tem filhos e trabalha - desgraçada, cheia de filhos e a ter de os deixar no horror indesculpável que é a creche. Se não tem filhos - egoísta, estúpida, incompleta. Se é casada - podia ter arranjado melhor. Se não é casada - solteirona, desesperada, gorda. Se tem dinheiro - dondoca. Se não tem dinheiro - vai acabar na má vida, Intendente ou pior. Se é tagarela - galinha. Se não é tagarela - arrogante, antipática. 
Estes exageros poderiam  continuar, mas não é preciso. Já todos os ouvimos, de uma forma ou de outra, e proferidos à descarada pela boca de certas mulheres.
Na verdade, a minha motivação para escrever este post é este artigo que li, daqui resultando que tenho de parar de ler jornais - essa cidadã exemplar que é a Cherie Blair (e este comentário em nada se relaciona com o marido da senhora, já que a mesma não precisa do marido que tem para ser muitíssimo exemplar, dada as histórias em que se enredou), continuando, a Cherie Blair acha que as mulheres que vão para casa e deixam de trabalhar dão muito mau exemplo à sociedade. Eu, em grande ingenuidade, pensei que o artigo arrastaria um sem-número de comentários a descompor a dita Cherie, mas não - ah, pois é, que vergonha, depender do marido é um atraso de vida, é medieval, é quase prostituição e assim e assado. 
Chocante. Tudo isto é chocante porque, se hoje em dia se fala tanto em respeitar estilos de vida e opções alternativas, não deveria existir tanto alarido se alguém, homem ou mulher, decide ir para casa, tratar dos filhos e viver como bem entende, independentemente de depender do cônjuge ou de um qualquer patrão. Este tipo de calinadas, ainda por cima proferidas por alguém influente como infelizmente é a Cherie Blair, parecem-me muito perigosas. E parecem-me perigosas porque, se o feminismo lutou por alguma coisa e andou a queimar soutiens, foi por licenças de maternidade pagas,  o direito a manter o emprego mesmo quando se tem filhos, o direito a ter um emprego (não a obrigação) e a possibilidade de finalmente sair do jugo da família e do marido. Esse jugo não tem nada a ver com ficar em casa com os filhos não por obrigação, mas por opção, assim como o feminismo nada tem a ver, quanto a mim, com ser forçada a trabalhar num emprego da treta, chegar a casa e ainda ter de fazer o jantar, passar roupa a ferro e enfim, viver duas vezes escrava, duas vezes proletária. Quando se criticam mulheres que preferem ficar em casa e se anuncia a obrigação de toda a gente trabalhar, ainda por cima de forma leviana, abre-se o precedente não para uma escolha livre e informada, mas sim para, mais tarde ou mais cedo, o atropelamento de certos direitos conquistados à custa de muitos sacrifícios ('se não precisa de ficar em casa a tratar dos filhos, também não precisa de uma licença de maternidade tão longa - pague-a você', por exemplo. O 'você', aqui, é propositado). 
A verdadeira liberdade é poder escolher em consciência, sem ter de aturar juízos de valor deturpados, moralizadores. Sim, porque é tão moralizador e conservadorzinho criticar uma mulher por ir trabalhar como criticar quem escolhe ficar em casa. São opções. 
E, no interesse da imparcialidade, devo declarar que eu não estou em casa, mas que alegremente irei para casa no dia em que considerar que esta é a melhor opção, e nem olho para trás. 
Tenho um emprego e trabalho, e desejo apenas que todas as mulheres que querem ter um emprego o consigam encontrar - um bom emprego, onde sejam respeitadas e não tenham receio de ser prejudicadas por terem, ou quererem ter, filhos. E também desejo que aquelas mulheres que escolhem ficar em casa, porque para elas é a opção mais certa, sejam respeitadas e reconhecidas no trabalho que fazem (tratar de uma casa e de filhos é trabalho, e é difícil).
De modo que o meu desejo em geral é: mulheres de todo o mundo, uni-vos. 

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Dois temazitos que andei a evitar, mas que agora discuto e não volto a falar disto. Bem haja pela atençãozinha.

Bom. Tenho evitado estes assuntos, mas hoje vou mesmo falar deles, porque há certas opiniões que me perturbam.
O primeiro tema é a amamentação. Esta capa da Time gera converseta, polémica, ai que nojo, dizem uns, ai que formidável, dizem outros. É espúrio defender tanto uma coisa como outra. A questão da amamentação, a haver sequer questão, é para ser resolvida pela mãe, que se quiser (nem sequer é se puder - se quiser) amamenta; se não quiser, não amamenta. A não ser que haja um problema de saúde grave que precise de intervenção médica, não me parece que sequer os médicos possam tomar esta decisão. A mãe informa-se, pesa vantagens e desvantagens e, acima de tudo de acordo com a sua sensibilidade, decide.
É evidente que hoje em dia qualquer pai e mãe são bombardeados com a longa lista de benefícios que a amamentação produz no bebé. Óptimo. Mas o âmago da questão é sempre o mesmo - se a mãe não quiser, porque não pode ou porque pura e simplesmente não lhe apetece, não amamenta, ponto final. Sabemos de muita gente que nunca foi amamentada e que hoje em dia são indivíduos vigorosos, inteligentes, nem uma constipação apanham, portanto não há que recear.
O acto de amamentar, ou não, parece-me simples de resolver, e por isso a verborreia associada a este tema perturba-me um tanto ou quanto. Perturbam-me as pessoas que defendem que todas as mulheres devem amamentar, como me perturbam ainda mais as pessoas que se incomodam muito ao ver mães a amamentar em locais públicos. Vivemos em sociedade e, apesar de todos os pós modernos, continuamos a ser mamíferos. Aprendam a viver com isso.
O segundo tema é a questiúncula (porque me parece uma questiúncula) acerca de ter ou não ter filhos. Agora vêm-se por aí uns artigos, alguns com mais sustentação intelectual, outros um chorrilho de disparates quase chocante, sobre as pobres criancinhas e se estas devem ou não vir ao mundo. Sim, a população crescente do planeta é um problema, os recursos são limitados, e há que pensar nestas coisas. Mas, na ordem natural das coisas, a reprodução é necessária à espécie humana - também é um facto. Deste modo, enquanto uns quiserem e tiverem filhos, sendo contrabalançados pelas pessoas que não querem nem têm, está tudo bem. Quem quer tem, quem não quer não tem. Porém, e da mesma forma que me parece injusto criticar quem quer que seja por não ter filhos (principalmente mulheres, que se anunciam que não querem ser mães são quase apunhaladas pelo olhar de estranheza dos outros), também me parece um tanto ou quanto grotesco criticar quem quer ter. Estamos a falar de bebés, de crianças, seres humanos com tanto, ou mais, direito ao mundo que os adultos. Mais uma vez, esquecer os pós modernos por um tempinho e voltar a certas regras básicas da natureza - certas pessoas têm filhos, da mesma forma que certos animais têm crias. Ponto.
Quem não quer ter filhos, seja por que razão for (é verdade que as crianças conseguem ser uma grande seca; percebo perfeitamente quem não os quiser aturar), tudo bem também. Presta o seu serviço à sociedade ao evitar ser um mau pai, ao passo que quem tem filhos presta serviço ao ser boa mãe e bom pai (maus pais e más mães não prestam serviço nenhum, a meu ver). 
E assim é. Cessem do Grego e do Troiano, que estas questões estão resolvidas.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Coisa que não compreendo: "não tenho tempo"

Sei que por vezes é efectivamente verdade, mas o facto é que esta desculpa do "não ter tempo" soa apenas a isso mesmo, a desculpa. E daquelas muito esfarrapadas.
Considero estranho que, subitamente, as pessoas deixem de ter tempo para ler, ou sair um bocadinho, ou ir a uma exposição ou uma coisa qualquer assim que as faça descontrair. A gente pergunta, "ah, já viste o filme tal", e a resposta é quase sempre "não, ainda não tive tempo", ou pior, "não, nunca tenho tempo". E depois argumentam com o trabalho ou com os pobres dos filhos que, já percebi, são sempre responsáveis por todos os enfados, cargos e falta de tempo dos pais. "Desde que os meus filhos nasceram que eu não leio um livro como deve ser" - estou sempre a ouvir esta frase tenebrosa. "Não tenho tempo para ler o jornal por causa dos putos", e etc. e etc.
Além de ser uma injustiça para com os ditos putos, não percebo porque é que as pessoas pura e simplesmente não admitem a causa natural das coisas, que é não a falta de tempo, mas sim a falta de vontade. Pronto, admitam que preferem passar o pouco tempo livre (não duvido que seja pouco) que têm no Óbidos Vila Natal e/ou Feira do Chocolate, ou de pijama em casa, ou a dormir, ou envolvidos em qualquer outra actividade insuportavelmente entediante. Ninguém tem nada a ver com isso, e apesar de eu ter acabado agora mesmo de emitir um juízo de valor, não o devia ter feito porque, como igualmente afirmei, não tenho nada a ver com as escolhas de cada um. Cada um é como cada qual.
Mas não é a falta de tempo que nos estraga a vida, é mesmo a falta de vontade. Acho eu.

Cenas que ficarão comigo para sempre #3


E esta, para complementar:


Cenas que ficarão comigo para sempre #2

Às vezes penso que o Kurosawa devia ter realizado o Exorcista. Fantasmas e espíritos é com ele.

Cenas que ficarão comigo para sempre #1

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Post essencial com imensa profundidade





É que gostava imenso que me fosse ofertado este presentinho. Assim um miminho de Verão.
Qual saloiada da Birkin, qual quê.

Quando se está em crise é quando vêm mais disparates à cabeça.

Coisa que não compreendo (nem quero): despedidas de solteira

Em boa, e toda, a verdade, eu só fui a uma despedida de solteira. Vi fotografias de dezenas de outras e nunca me entusiasmaram.
As despedidas de solteira que eu conheço são sempre a mesma coisa, ou eram (há algum tempo que os meus amigos se deixaram de casar, agora ou divorciam-se ou têm filhos), continuando, as despedidas de solteira são sempre a mesma coisa. Um jantar não sem onde com presentinhos atiçados em forma fálica, e seguidamente uma ida a um bar ranhosíssimo não sei onde com homens depilados e oleados que dançam e se esfregam na noiva. E mulherio aos gritos.
Eu, como mulher, tenho todo o respeito pelas outras mulheres, ainda que estas procedam de uma forma que, digamos que, a gente tem alguma dificuldade em respeitar. Mas respeita à mesma. Se há mulheres que acham graça a um homem depilado (enfatizo, reitero e repito: depilado) em certos propósitos, enquanto as amigas batem palmas e gritam muito, ao som de uma música daquelas inanes, tudo bem. 
Eu confesso uma coisa - se estes homens depilados fossem o Joaquin Cortés em novo, obviamente não depilado, aí sim, eu achava graça e até participava, acho eu. Ou teria participado. Mas dado o modus operandi que é, não percebo bem onde está a graça. Um homem bem apessoado é um homem bem apessoado, e eu gosto de boa estética como qualquer outra pessoa, mas aquela chungaria toda é demais para mim. 
No entanto, o que não percebo fundamentalmente é o frenesim em querer comemorar a vida de solteira como se se estivesse a perder o melhor dos mundos possíveis. Se a pessoa gosta assim tanto de ser solteira, talvez seja melhor continuar nesse belo estado civil e ignorar o casamento. 
Mas enfim, sinceramente tanto me faz. Na verdade, não tinha mais nada para escrever e lembrei-me disto. Obrigada pela atenção. 

terça-feira, 29 de maio de 2012

Vermelho, e não encarnado

Ando em busca de um baton vermelhão, daqueles mesmo vermelho, à starlet. Não é um baton encarnado - é mesmo vermelho.
Experimentei uma vez um da MAC, a senhora garantiu-me que aquilo era vermelhão, vermelhão, mas quando me aplicou nos lábios para eu ver, não passava de um rosazito pálido. Não é isso que eu quero. Também já andei a ver nas perfumarias, mas nunca encontro o vermelho que eu quero. Ou é escuro demais, ou é claro demais, ou enfim, não é o vermelho à starlet. É encarnado, e eu não quero encarnado, quero vermelho.
Pessoal que ainda lê isto, se houver recomendações, caixa de comentários em podendo. A girência agradece.
É que o vermelho, sendo a cor que é, é tão estranhamente esquiva.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Javardo

Estou com muita, muita vontade de escrever, embora não tenha muito para relatar.
Acho que o que me faz escrever aqui e agora é, talvez, alguma necessidade de desabafo. Acabo de ler um texto num qualquer blog que me fez imensa impressão, porque o considerei cruel, arrogante, insensível. Resvalando para o brejeiro, a palavra que me ocorre é mesmo "javardo". Era um texto javardo, que se achava dono da verdade. E foi isso que me fez mais impressão, julgo. Esta ânsia de anunciar ao mundo que o que ali se escrevia era, assertivamente, peremptoriamente, a verdade.
Os blogs que mais detesto, e que leio por motivos de sado-masoquismo que a minha alma tipicamente portuguesa não consegue controlar, são sempre assim, escritos por pessoas que se acham donas da verdade. E sim, um blogue serve para isso, para o seu autor dizer a sua verdade, mas, bolas, há maneiras de dizer as coisas. Seguramente que nem os outros são tão estúpidos nem nós somos tão inteligentes. 
Talvez por isso um dos meus blogs preferidos seja o do Tolan, que diz sempre tudo o que acha de uma forma tão graciosamente engraçada. E sensível, ele consegue ser sensível, o que também quer dizer que não escreve de uma forma agressivamente egocêntrica. Mas eu gosto do Tolan como pessoa, e isso também ajuda.
Um blogue é apenas um blogue e não vale grande coisa. Não há razão para me irritar ou para entristecer com qualquer um deles. Mas entristece-me, porque acho que isto também se passa na vida real. As pessoas acham mesmo que estão sempre certas, e vivem para se ouvirem a si próprias. É raríssimo encontrarmos alguém que genuinamente compreende que há outros à sua volta. Eu própria não devo compreender bem.
E agora tenho de parar porque, diabos me levem, às vezes escrevo cada coisa que parece uma coluna de auto-ajuda da revista Maria ou pior. E isto também me entristece. 
Suspiro. Uma boa noite, é o que desejo e, desta vez, genuinamente. 

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Eu vi um bocadinho dos Globos de Ouro, aqueles da SIC. Estava à espera que começasse a Modern Family. E no excerto que vi, assisti a um amargurado Luís Miguel Cintra anunciar que a Varanda seria o último espectáculo da Cornucópia que, por falta de verbas, corre o risco de se tornar teatro amador.
Fiquei consternada com isto. Pensei que se discutiria esta notícia, que se falaria do trabalho importante da Cornucópia e de Luís Miguel Cintra no teatro português e coisas que tais. Se tal aconteceu, deve ter sido apenas um sussurro, e não a barulheira que seria merecida.
O Público, de facto, falou nos Globos de Ouro - o melhor da passadeira vermelha. 
É o que dá viver num país pobre. Quanto mais pobre é, mais manias à Hollywood quer ter, para disfarçar a vergonha. 

terça-feira, 22 de maio de 2012

Casaquinho vintage muito esquecível

Às vezes penso no que é preciso ser ou fazer para ser daquelas pessoas inesquecíveis. Aquelas de quem ninguém se esquece. Eu não sou nada assim, eu sou esquecível. Sou tal e qual o Kevin Spacey no American Beauty, quando é apresentado pela segunda vez a um parvo de um convencido de um agente imobiliário, que não se lembra dele. E diz o Kevin Spacey, "ah, não se lembra de mim? Deixe estar, se eu fosse a si também não me lembrava de mim". Observação arguta, sardónica e muito realista. E poderíamos continuar nos adjectivos, mas agora não apetece.
Bom. Lembro-me de uma vez, há muitos anos, ainda eu era uma miúda livre que saía à noite, e de ter precisamente saído com um amigo, que ainda hoje é meu amigo, embora já não saiamos. Eu aburguesei-me, mas isso é outra conversa. Continuando, esse meu amigo apresentou-me a um outro amigo. Era alto, de brinco na orelha, cabelo encaracolado, muito simpático. Lembro-me de pensar que queria mesmo que este indivíduo ficasse com tão boa impressão minha como eu imediatamente tive dele, mas acho que o desiderato, lamentavelmente, não se concretizou. Não que eu não tivesse uma conversa interessantezinha, porque acho que até tive (quer dizer, era composta). Não porque estivesse mal vestida ou mal arranjada, porque até acho que nem estava - além de ter metade das protuberâncias rubenescas dos dias de hoje, lembro-me perfeitamente que estava a usar um casaco azul vintage, giro, giro. Mas não se deu o clique, não deu. Por mais que me esforçasse, havia ali qualquer coisa que não resultava, uma conversa mole que andava em círculos, e eu frustradíssima, e quanto mais frustrada pior a converseta me saía. Não houve nenhum escândalo nem vergonha nenhuma, apenas uma coisa derretida, sem piada, que ainda é pior. Ao menos, que a pessoa se possa entreter com uma boa escandaleira que a faça rir passado uns anos. Nem isso.
E isto é um exemplo que eu tomo como paradigmático. É como diz o Bukowski, não vale a pena tentar (a Wikipedia diz que ele disse isto). Olha, paciência. Eu, se fosse eu, também não me lembrava de mim. 
Mas o casaquinho vintage, esse sim, vale a pena recordar. Por onde será que ele anda?

quarta-feira, 2 de maio de 2012

O Tony em Lisboa

No sentido de escrever um post um bocadinho mais alegre, vinha por este meio dizer que o programa do Tony Bourdain sobre Lisboa já se encontra disponível por essa internet fora. Eu vi ontem, e é evidente que gostei considerando que o tema era Lisboa. Acho sempre que o Tony acaba por arranjar coisas interessantes para dizer nos programas dele, e em Lisboa não foi excepção, principalmente quando foi a uma casa de fados passar tempo à conversa com Lobo Antunes. Só por isso, valeu tudo o que ele deixou de fora.
Tentem encontrar, que o programa está giro. Quem não gostar do Tony, eh pá, paciência. Como se diz na nossa magnífica língua, deviam de gostar.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Esta é a ditosa pátria, minha amada

Vivo perto de um Continente e de um Pingo Doce.
Os parques de estacionamento de ambos estão a abarrotar desde as nove da manhã.

Feliz 1º de Maio.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

"Respeita!"

Detesto quando me dizem "respeita". Respeitar o quê? Opiniões que não têm nada que ser respeitadas? Se eu tiver a desgraça de conhecer um neo-nazi, tenho de respeitar a opinião dele? Ou tenho apenas de respeitar, forçosamente, o ser humano que ele (lamentavelmente) é?
A minha querida D., que é um baluarte de sensatez e meiguice, está sempre a dizer-me isso. "Ai, que horror, respeita!". Por acaso, a última vez que me disse isto, estávamos a tomar café num estabelecimento com televisão ligada na VH1, e começou a passar aquela música do Time of My Life, do famigerado Dirty Dancing,  sobre o qual, acaso dos acasos, já escrevi aqui e já anunciei que não é película que me entusiasme.
Acontece que a D. adora este filme, da mesma forma que eu gosto de outras bodegas que me fazem lembrar a juventude. Se eu a deixasse, a D. tinha começado a dançar logo ali no meio do café, e para a próxima até a incentivo, porque a D. dança bem como tudo. Mas, naquele preciso momento, não o fiz, e comecei a discursar, "ó D., como é que tu gostas deste filme, olha para este velho que está a cantar a canção, explica-me quem é este velho, nem o vídeo da canção se aproveita, olha para a rapariga a passar férias no Inatel" e blá blá blá, até que a D., fartíssima de me ouvir, exclamou, exasperada, "olha, respeita!".
Respeita. Respeita. O Dirty Dancing? Lamento, mas não.
Eu tento respeitar toda a gente. Mas não faço esforço nenhum para respeitar opiniões que me parecem obtusas (já não estou a falar do Dirty Dancing, bem entendido). Quando leio os comentários do Público (sei que tenho de deixar de o fazer) a aplaudir decisões como cortar  o orçamento para a Cultura, porque "não temos dinheiro", ou a insultar os Gregos, que têm a culpa de tudo o que está a acontecer à Europa, ou mais recentemente, quando ouvi na rádio um senhor emigrante, português, que tinha um cafezinho, ia receber a visita da Marine Le Pen (!) e estava orgulhosíssimo porque ela não estava contra ele, emigrante trabalhador, estava, sim, contra todos os emigrantes preguiçosos, e contra eles também se indignava o tal senhor, dizia, quando sou confrontada com tudo isto, tenho de "respeitar"?
Pois, não me parece. É a minha opinião. Respeitem. 

Nota para fazer justiça à minha querida D. - a música até é gira.