sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Personagens literárias mais cool de sempre e que eu não me importava de ser (num universo alternativo, talvez)

Holden Caulfied, Catcher in the Rye, evidentemente. A personagem mais cool de sempre. Se eu fosse o Holden, sei lá o que é que eu faria... fumava muitos cigarros, sentava-me à chuva a olhar para o meu irmãozinho mais novo e a sentir-me feliz apenas com isso. Saberia, amarga e sarcasticamente, que o mundo é hostil e sem esperança, era uma rebelde sem causa, mas, no entanto, correria sempre atrás de uma causa, a ajudar pessoas no centeio, a tentar que as coisas fizessem sentido, e mesmo que não fizessem, eu ficava ali no centeio, a fumar, a ser cool e a apanhar pessoas, logo, a ser útil.



Philip Marlowe, The Big Sleep, outro cool a valer. Se eu fosse o Philip Marlowe, aí é que fumava sem parar e teria um diário sempre bem actualizado, para escrever coisas assombrosas como she approached me with enough sex appeal to stampede a business men's lunch. Her smile was tentative but could be persuaded to be nice, e outra coisas similares. Passava o dia a investigar crimes, com o calo amoral que a experiência me daria, e expirava o fumo do meu cigarro na cara de senhoras tipo Veronica Lake, ou então de pessoas com nomes de sonoridade exemplar, como Regan Sternwood. Elas depois começavam a tossir e eu ia-me embora, toda convencida (convencido, aliás, esqueci-me de que sou o Philip Marlowe - já agora, convencido e também gingão).

Catherine Earnshaw, Wuthering Heights. Esta mulher, para mim, é o máximo. Gostaria muito de ser a Catherine, porque para já casava-me logo com o Heathcliff, nunca com o Edgar Linton (apesar deste último ser bonzinho, o que é uma coisa muito positiva). O Edgar ficava livre para procurar outra pessoa com quem ser mais feliz, e eu ficava com o Heathcliff, no meio do vento e da tempestade, os dois muito intensos, a viver uma vida muito intensa. Também evitaria morrer cedo, à semelhança do que aconteceu à Catherine, para poder desfrutar desta tal intensidade com alguma qualidade de vida.

Há muitas mais personagens literárias que admiro e que não me importaria de ser (por alguns dias, para experimentar). Mas, por enquanto, consigo lembrar-me destes três grandes catitas.

Candle Chant, DJ Krush. Porreiro, pá.

As línguas do mundo são uma coisa impressionante.
Não percebo nada do que se diz nesta canção, mas gosto tanto dela. Consiste apenas numa pessoa a falar (japonesa, tanto quanto sei), e numa melodia simples por trás, mas basta para que a canção seja bonita, quanto a mim. E o japonês, aqui, soa muito bem.
Quando não se percebe nada de uma determinada língua, parece que os sons são pronunciados apenas para enfeitar, pelo seu valor estético, não pelo significado. O significado imaginamos nós.
Bem giro.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Bataille, Fnac, coisas em geral

Este livro é estranhíssimo. Li-o há uns meses e ainda estou a decidir se gostei, se não. Há livros assim, que nos fazem demorar algum tempo a formarmos algo que se possa designar por "opinião". Agora, que a"História do Olho" tem partes que me interessaram muito ao nível da escrita, isso é inegável, principalmente aquelas descrições obsessivas e muito físicas de ovos e glóbulos... interessante, sem dúvida.
O que queria realmente ler de Bataille agora são os ensaios, mas devo dizer que nunca os vi em nenhuma livraria. Talvez a falha seja minha, mas espanta-me aquilo que as livrarias não têm. Há obras fundamentais que qualquer livraria deveria ter. Uma coisa que me deslumbra e que ao mesmo tempo me entristece é que qualquer livraria em Inglaterra (não apenas em Londres - passa-se o mesmo em livrarias da "Inglaterra profunda") tem um pletora de clássicos (e, também, de contemporâneos) impossível de encontrar em qualquer livraria portuguesa, grande ou pequena. Do ensaio do século XXI aos clássicos gregos, encontramos de tudo, a vários preços, de várias editoras, em várias traduções. Sei que em Portugal as coisas não poderão nunca ser da mesma forma, mas de qualquer modo não me parece que uma livraria como a Fnac, que se farta de fazer dinheiro neste país, e isso é bem sabido, tenha qualquer desculpa para a paupérrima secção de Gregos que apresenta, e em geral a paupérrima secção de certos géneros canónicos e essenciais. Nem Fernando Pessoa têm em condições. Nem literatura portuguesa ou lusófona em geral. Também é sabido que as coisas melhoram sempre um bocadinho por alturas do Natal, em que há mais selecção, mas mesmo assim o panorama geral é um bocadinho pobre. E não é só na Fnac que isto acontece. Recuso-me, pura e simplesmente, a compreender quaisquer razões que impeçam a Bertrand do Chiado a não ter disponível qualquer obra que seja do Fitzgerald, que é um clássico, é canónico; se não têm Fitzgerald, têm o quê?! Espero que a situação já tenha melhorado e que a Bertrand do Chiado já tenha corrigido esta grave lacuna.
Por mais que digam que há alternativas à Fnac, em livrarias mais pequenas e que tentam ter uma selecção mais apurada, ou mais alternativa, ou o que seja, fico sempre supreendida que seja difícil encontrar Gregos, que seja difícil encontrar ensaio, que seja difícil encontrar um acervo básico de livros que, para mim, enquanto leitora, qualquer livraria deveria ter. Mas percebo, ou pelo menos desconfio, que haverá razões financeiras subjacentes a esta falta de selecção no caso das pequenas livrarias, e o meu coração e cartão multibanco estarão sempre, indubitavelmente, com elas (o coração, sempre; o cartão multibanco, enquanto me for possível. Não é, porém, por reconhecer a pequenez de mercado deste país, ou o que quer que seja que explica estas lacunas, que a situação me entristece menos.
De qualquer modo, serve este post não para vilipendiar a Fnac, onde vou muitas vezes e continuarei a ir, e onde sou detentora do recentemente famigerado cartão Fnac e continuarei a ser, mas antes para dizer que gostaria de encontrar, e quiçá até comprar, os ensaios de Bataille. Quem os vir à venda, se tiver a gentileza de me informar, um grande bem haja antecipado (bem-haja é uma alternativa super-catita a obrigado, acho eu).

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Linha do horizonte

Há alguns dias, vi na televisão um documentário sobre John Ford, onde Steven Spielberg participava numa pequena entrevista. Disse Spielberg que conheceu Ford quando ainda era um adolescente já aspirante a realizador. John Ford concedera-lhe 1 minuto do seu precioso tempo e mandou Spielberg olhar para uma série de quadros (acho que de Turner, como um destes que pus aqui, mas não tenho a certeza; o outro quadro que figura aqui é de Renoir) e perguntar-lhe o que tinha a dizer daquilo. Spielberg fico algo atrapalhado, e Ford mandou-o olhar para a linha do horizonte em cada quadro que via. "Onde é que está a linha do horizonte neste quadro? Em cima, a meio ou em baixo?", perguntou o velho realizador, que já na altura, ao que parece, era irascível e intimidante. "Em baixo", respondia Spielberg, ou "em cima". Não havia nenhum quadro em que a linha do horizonte estivesse a meio.
"Quando souberes a diferença ente colocar a linha do horizonte em cima ou em baixo, e não ao meio, serás um grande realizador", foi a avisada e peremptória sentença de Ford a Spielberg. Está mesmo muito boa, esta, achei eu. Fui ver uma data de quadros, e tenho prestado atenção à linha do horizonte nos filmes que vejo, e de facto está mesmo bem visto.

Guns of Brixton (o título não tem nada a ver com o post, mas sinceramente este é o melhor título de canção de sempre)

"A good many times I have been present at gatherings of people who, by the standards of the traditional culture, are thought highly educated and who have with considerable gusto been expressing their incredulity at the illiteracy of scientists. Once or twice I have been provoked and have asked the company how many of them could describe the Second Law of Thermodynamics. The response was cold: it was also negative. Yet I was asking something which is the scientific equivalent of: Have you read a work of Shakespeare's?"
C. P. Snow, "The Two Cultures" (citação retirada da Wikipedia, mas a mim parece-me fiável, por acaso)

Eu acho que as pessoas, às vezes, não gostam mesmo nada de mim.
Disse, há horas atrás, a uma amiga minha que em geral não costumo apreciar grandemente filmes sobre histórias de amor (excepção feita a Woody Allen). Ficou a olhar para mim, horrorizada. Também fica a olhar para mim com expressões de repulsa quando eu lhe repito que gosto muito do Exorcista. Uma vez disse a outra amiga que não tinha gostado nada d'As Horas, nem do filme, e muito menos do livro, e também lhe meti nojo. E outra vez também disse a uns amigos que não ia nada, mas é que mesmo nada, à bola com Sigur Rós e aí, bem, caiu literalmente o Carmo e a Trindade, e deixaram de me falar e ostracizaram-me e "baterem-me" (quer dizer, isto sou eu a exagerar, mas ficaram a olhar para mim como se eu fosse uma má pessoa).

A verdade é que as pessoas, todos nós, e eu também, temos ideias pré-concebidas e muito formatadas daquilo que se deve gostar e do que não se deve gostar. É algo semelhante às "duas culturas" que C.P. Snow distinguia - a científica e a humanista, sendo que os que pertencem a uma nada sabem da outra, e depois é um problema e uma vergonha. A nossa vida social também se divide em duas, ou talvez mais, culturas, a cultura caviar das coisas de que se deve gostar, e a cultura parola daquilo de que não se deve gostar (ou então, de que só se deve gostar de forma muito secreta, porque senão é uma vergonha. Os chamados "guilty pleasures"- o inglês dá tanto jeito, não consigo evitar) - como todos sabemos, esta cultura parola rege-se por estereótipos como ir a centros comerciais ao fim de semana, música pimba, Paulo Coelho, ao passo que os esterótipos que me ocorrem para a cultura caviar é dizer que se vai ao King três vezes por semana, ou, de forma mais extrema, descrever o "Branca de Neve" de João César Monteiro como um filme belíssimo (aqui, não posso mesmo concordar. Gosto de muitos filmes de João César Monteiro, mas ouvir as pessoas a dizer, ao sair de "Branca de Neve", que o filme era "extraordinário"... bem). Episodicamente, há elementos que passam de uma cultura para a outra, e, por exemplo, quando o filme português "Aquele querido mês de Agosto" saiu, de forma óbvia apelando à cultura caviar, havia muita gente da mesma cultura a dizer, condescendentemente, que achavam muita gracinha à música pimba.

Há coisas genuinamente más, lixo absoluto e fétido de que é impossível gostar, e não é paternalismo nenhum dizer que não se gosta de lixo (televisivo, literário, musical, etc.). Há coisas que, pelo contrário, são magnificentes e de que toda a gente gosta. Se há alguém que não goste, é porque ainda não perdeu tempo suficiente a apreciar. E depois há as coisas que estão no meio, entre o fétido e o magnificente. Normalmente, é sobre as coisas que estão no meio que as opiniões se dividem, dando origem ao grupo das pessoas cool e ao grupo das pessoas menos cool. A gente pensa que isto dos grupos acaba quando se ultrapassa a adolescência, mas infelizmente não, fica para sempre. As pessoas são assim.
Irrita-me um bocadinho. Infelizmente, não tenho uma conclusão mais inteligente do que esta a retirar desta história toda.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

8 constantes da vida para 2009

A princípio pensei que não fosse capaz de responder ao desafio simpático da S.M., mas acho que afinal até consigo. Tenho de revelar oito sonhos para 2009, embora seja uma tarefa mais complicada do que parece. Mas vou tentar.
Assim, à partida, diria que os meus sonhos para este ano, sem nenhuma ordem em particular, são:


1) ser a melhor amiga de Woody Allen, aquele tipo de amiga que ele até menciona nas entrevistas; por exemplo, perguntam-lhe "Sr Allen, como é que se lembrou de fazer um filme tão profundamente brilhante, que disseca toda a problemática existencial da vida humana até ao seu mais escondido âmago e responde a todas as questões que atormentam a humanidade há séculos, e que mesmo assim tem imensa piada, aliás, é até hilariante, ainda mais hilariante do que o Bananas, e ainda mais mimoso e querido do que Annie Hall?", e ele responde, "Olhe, foi tudo ideia da minha amiga Rita. A minha amiga Rita é linda. Gosto mais de falar com ela do que com qualquer outra pessoa. Ela admira muitíssimo o meu intelecto pessimista e o meu humor impecável, e adora em absoluto os meus filmes, e eu acho que ela é a pessoa mais espectacular de sempre, a fonte de toda a minha inspiração, de modo que nos damos muito bem. Queria deixar aqui bem claro que a minha amiga Rita é imprescindível à minha vida, até mais do que a minha própria mulher e filhos. Aliás, a minha mulher também foi minha filha... aaaaaah... se não fosse a minha amiga Rita, eu já tinha perdido a sanidade mental". (o que posso eu fazer, o Woody precisa de mim, só que ainda não sabe)


2) comer chocolate belga e charlotte de chocolate belga (e com natas frescas, não com arraçados de chantilly, atenção!) e em geral tudo o que contenha chocolate belga à vontade sem ficar com dor de barriga e sem engordar


3) "peace to my black and empty heart", como canta a grande PJ Harvey, e já agora, peace não só para o meu coração, mas assim para o coração do mundo em geral, que precisa ainda mais do que eu (qualquer semelhança entre isto e os discursos muitíssimo inteligentes das misses é pura coincidência)


4) tentar ler o Ulysses (e conseguir acabar o livro e gostar, porque não)


5) ler tudo o que há para ler de F. Scott Fitzgerald


6) conseguir ver o Exorcista à noite, na cama, com a luz apagada e ficar sobressaltada, mas não ter medo (o máximo que consegui até hoje foi ver o Exorcista às seis da tarde e acabar mais ou menos às oito, e já com a luz bem acesa. Este filme é grande filme de terror, sem dúvida nenhuma)


7) apaixonar-me por Portugal, mas não aquela paixão idiota que nos faz ver tudo cor-de-rosa e elimina o sentido crítico; antes, quero o afecto que nos faz gostar tanto que queremos sempre mais e melhor para o objecto da nossa afeição. A ver se este ano a coisa se dá.


8) que todos estes sonhos se cumpram, e mais alguns (acabar a tese e tal também calhava bem, mas este não pode ser sonho, tem de ser mesmo facto consumado, de modo que só o incluo nesta lista a 50%, não na sua totalidade)


Acho que é mais ou menos isto.

Dias de cão

Este é um filme de que gosto muitíssimo.
Lembro-me sempre dele assim que toca a porcaria do despertador.

Sell out

Neste blog, cometi pecados graves de que não vejo maneira de me redimir. Neste blog, fiz concessões linguísticas que tinha jurado nunca fazer. Mormente pontos de exclamação e frases bilingues, com expressões em inglês. Que nojo! Ou melhor: que nojo.
Sou uma vendida. Daí o título ilustrativo deste post. Sou uma pessoa cujos padrões de exigência face ao esplendor da língua portuguesa caíram em derrocada. Sinto-me muito mal. Ou será melhor : sinto-me muito mal! Perdido por cem, perdido por mil, right?
Mas que posso eu fazer, quando as influências anglófonas são uma bi-atch e inescapáveis? Eu admito a minha anglofilia. Mas nunca pensei que se tornasse numa shit tão grande que me levasse ao horror das frases bilingues, like uma que figura ali em baixo no texto da biblioteca. Fuckin'hell, pá.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Demonstração de como todos os livros nos fazem pensar, até mesmo aqueles que não são assim muito bons

Quando era mais pequena, li um livro daqueles típicos de literatura para mulherzinhas, um clássico francês que se chamava "O Romance de Isabel", de Berthe Bernage, penso. Deveria, aliás, ter dito "livros", pois este "Romance" era uma coisa estóica de não sei quantos volumes, que eu li avidamente, porque gostei muito. (na hipótese, que me aventuro a classificar de improvável, de alguém querer ler esta obra, devo avisar que daqui para a frente há spoilers). Não me lembro bem da história toda, que ainda dava umas voltas, mas lembro-me de que, quando Isabel adormecia, a cena era descrita de forma muito poética ("e, quando os olhos se fechavam sobre a claridade azul..." - a tenra idade fez-me achar isto lindo); lembro-me também de que Isabel tinha um noivo que foi para a II Grande Guerra; que tinha uma madrasta má que, tendo fatalmente escolhido a Normandia para ir de férias no Verão de 1944, acabou por ser severamente castigada. Que justiça poética tão cruel.
De qualquer forma, lembro-me de forma vívida que esta madrasta, antes do azar do Dia D, fazia da vida do pai da Isabelinha uma verdadeira miséria, tratava-o por "manga de alpaca" e dizia que ele era pouco homem, e portanto o pai de Isabel, qual recatado Kafka na repartição, escrevia poemas angustiados nas horas livres. Depois publicou os poemas e ficou famoso, e aí já a madrasta gostava dele, mas o pobre pai da Isabel pagou caro esta felicidade conjugal, porque a sua veia artística começou a declinar e passou a escrever maus poemas, levando os críticos a interrogarem-se:"Será que um artista, para ser bom, precisa de ser infeliz?".
Nunca me esqueci deste pormenor do "Romance de Isabel", e sempre pensei nisto. Alguém me dizia, há uns anos atrás, que tinha deixado de gostar de Paul Auster agora que ele estava bem casado, com filhos e feliz, porque só escrevia superficialidades. A felicidade impedia-lhe a boa escrita.
Acreditando na capacidade criativa do pessimismo, e desconfiando sempre da displiciência do optimismo, tenho tendência para pensar que isto será verdade.
Haverá exemplos de grandes poetas e escritores abertamente felizes, que não têm nenhuma ferida aberta, nenhum problema mais marcante que os torne interessantes? Não me consigo lembrar de nenhum. Como já escrevi antes, se até o Almeida Garrett, que me vem sempre à cabeça por se saber que foi vaidosão e exuberante, tinha os seus sofrimentos e torturas, e que escrevia, precisamente, sobre isso, talvez a felicidade impeça, de facto, a boa escrita.
É em momentos como este que o meu pessimismo até sorri e fica contente por não ser artista.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Saudades dessa minha biblioteca

Que saudades de lá ir e tudo funcionar exemplarmente em redor dos livros, e por causa dos livros. A certeza de encontrar, sempre, em cinco minutos, o livro de que precisava. O conforto, sofás, cadeiras, mesas para PCs, cafetaria, pátio interior, sempre lugares disponíveis, estantes e cotas de livros exemplarmente bem indicadas, nada de preencher papelada, entregar e ficar à espera (a não ser que o livro fosse raro). Eficiência e informalidade, o que interessa é o livro. Gosto mais do que da própria British Library, onde também ia muitas vezes, e que é absolutamente profissional, mas também muitíssimo mais impessoal e onde, para além disso, se pede um preço imoral por fotocópias e ainda ralham connosco (pus-me a tirar fotocópias a duas páginas de seguida, encaixando-as numa folha A4 para poupar dinheirinho, e veio logo uma British empertigada ter comigo, arrancando-me literalmente o livro das mãos e informando-me, de sobrancelha erguida e voz bem colocada, que ali, naquele estabelecimento, só se tira fotocópia a uma página de cada vez. E depois ficou ali especada, a vigiar a forma como eu tirava fotocópias, desconfiada da minha má índole). Mas enfim, beggars can't be choosers.
Esta querida biblioteca, apesar de ter este ar lúgubre e sóbrio, desenhada pelo mesmo arquitecto da Tate Modern (é daí que vem a torre), é mimosa e confortável por dentro, tem estantes bonitas nos corredores principais, e encerra em si todo (ou quase todo) o conhecimento de que precisamos, o que é um alívio e uma alegria. Sempre me deu tudo o que eu queria. A princípio meteu-me medo - " Mas como é que eu alguma vez me vou entender nesta coisa que mais parece um asilo para malucos", pensei eu. Era mesmo estúpida. Porém, devo admitir que o medo nunca desapareceu totalmente - para o fim da tarde, a biblioteca começava a ficar vazia e eu saía dali também, disparada, com medo que um qualquer psicopata escondido entre as sombras das estantes, maleficamente à espera, me tentasse matar, e depois eu gritava mas quem é que me ouvia naqueles corredores imensos e vazios, só os livros ali para me defender, e depois como é que era!).

Tenho tantas saudades da minha querida biblioteca.
Ó tempo, volta para trás. Volta lá. Volta lá.

Não estou a começar o ano lá muito bem.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Relativizar

Com a minha idade,
Emily Brontë tinha escrito O Monte dos Vendavais e já tinha morrido
Orson Wells já tinha escrito e realizado Citizen Kane
John Keats já tinha produzido toda a sua poesia e morrido
o Marquês de Sade já tinha blasfemado e sido preso um ror de vezes.

Penso nisto a olhar, convenientemente, para a minha muito inacabada tese, que aliás está a chamar por mim, ou melhor, a clamar por mim, enquanto eu venho para aqui, inutilmente, escrever isto, sem Monte dos Vendavais ou Citizen Kane que me safe.

a pátria, os camões, os aviões, os gagos coutinhos, etc.

Estou a esforçar-me como nunca antes me esforcei para gostar mesmo a sério de Portugal. Que me lembre, nunca na vida tive saudades de Portugal, por mais longe que estivesse. E estive muito longe, muitas vezes. Agora, tenho tantas saudades destes sítios longínquos, saudades como nunca tive de Portugal, que me sinto uma má cidadã.

Mas este sentimento está errado e eu quero modificá-lo. Quero gostar muito de Portugal. Quero sentir muitas saudades de Portugal. Releio as poesias do Trovador e do Novo Trovador do século XIX, escritas, muitas delas, por miguelistas exilados depois do advento do Liberalismo, e aqueles poemas, alguns tão pirosos, estão cheios de imagens douradas da pátria, de recordações mimosas e perfeitas, de saudades a rebentar a escala. Aquela gente, exilada, a viver no estrangeiro, só queria poder voltar para aqui, para este país, e eu, apesar de saber que é estúpido, tenho tanta inveja deles, tanta inveja desse amor que eles revelam por Portugal, porque eu também queria esse carinho lamechas pela terra, eu também queria ter a capacidade de sentir as saudades que eles sentiam - "E quero descantar na lira d'oiro/O meu berço natal; quero imprimir-lhe/Num ósculo d'amor minha saudade", de J. Freire de Serpa, um dos poetas da revista Trovador, que não deixou grande memória, mas que eu invejo, porque queria que o meu coração sentisse o mesmo entusiasmo amoroso e nostálgico para escrever uma coisa assim.

A verdade é que há algo encantador quando sabemos que somos os "estrangeiros" num país estranho. Contamos apenas connosco, vivemos apenas connosco, confrontamo-nos verdadeiramente com quem somos. Em Portugal, não dá para se ser estrangeira. Quer queiramos quer não, a nacionalidade impõe-nos uma vida em comunidade, um acervo inescapável de memórias e valores que não são apenas nossos, são comuns. E, se por um lado estas memórias e valores são enternecedores e nos ajudam a construir uma certa identidade e vivência social, por outro lado são também amarras, coisas exteriores ao Eu que acabam por o sufocar. Ou talvez isto se passe apenas comigo, que não tenho grande apetência para a "comunidade", para os direitos e deveres a que temos de aderir em conjunto, para as afinidades culturais que nos foram impostas quando nascemos. Gosto mais da individualidade irredutível, que é o que nos resta quando saímos daqui, quando ninguém fala a nossa língua, quando não há família para nos ajudar, e quando os amigos, se existem, nem sempre estão disponíveis. É um grande desafio, um desafio impossível de vencer quando vivemos no nosso pequeno país, em que, com mais ou menos percalços, conhecemos os cantos à casa, sabemos aquilo com que podemos contar.

Quanto a mim, o meu desafio para 2009 será, de facto, fortalecer os laços com este país. Sou como uma pessoa à beira do divórcio, mas que quer fazer um último esforço para ver se as coisas resultam, e todos os dias diz de si para si, "vai resultar, vai resultar, vou voltar a gostar dele, vou voltar a gostar dele, vai ser tudo como dantes". Não me quero divorciar do meu país. Quero apaixonar-me por ele (pelos camões, pelos aviões e pelos gago coutinhos, coitadinhos), com muita convicção.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Prémio para Melhor Blogger Hipotético vai para: Marquês de Sade

infortúnios da virtude

a vida, as aventuras e as tropelias
de um Marquês com muito para contar...
um pouco de mim, dos meus pensamentos,
dos meus amores e desamores,
para todos aqueles
de coração aberto e mente arejada...

17 Agosto 1768, 13h00
A rapariga de hoje teve piada. Era a Alphonsine, de lá debaixo, da aldeia. Girinha, saudavelzinha, rosadinha, porreirinha, correu tudo lindamente.


17 Agosto 1768, 13h30m
A rapariga de hoje teve piada. Era a Madame de Laclos, do castelo aqui ao lado. Girinha, cheia de rendas e laçarotes, perfumadinha, porreirinha, correu tudo lindamente.

17 Agosto 1768, 14h00m
A rapariga de hoje teve piada. Era uma criadinha aqui da minha casa. Girinha, gordinha, a cheirar a bolinhos, porreirinha, correu tudo lindamente.

17 Agosto 1768, 14h30m
A rapariga de hoje teve piada. Era a minha mulher, que vive aqui comigo e que descobriu da criada. Girinha, caladinha, acabou por ficar porreirinha, correu tudo lindamente.

17 Agosto 1768, 15h00
A minha mulher não me deixa em paz. Voltou a abrir a matraca para resmungar por causa da criada. Não sabe ela da missa a metade, e mesmo assim só sabe chatear um gajo. Eu já me fartei de lhe dizer, "Ó senhora, mas não vê que eu sou um libertino! Matai-me ou aceitai-me tal como sou, porque nunca mudarei!", e ela mesmo assim sempre a chatear. Anda por aí a falar, qualquer dia ainda vou mas é parar à Bastilha.

19 Agosto 1768, 10h00
Pronto, vim mesmo parar à Bastilha, estou aqui no PC da biblioteca deles a actualizar o blog, para ver se escrevo qualquer coisa. E agora, pá? Já tinha uma data de coisas acertadas com o Conde de Lacoste para a gente ir fazer uma ronda a uma aldeia que ele conhece, que era para depois levar o pessoal todo para aquele chateau que eu já aluguei, grande festarola já toda preparada, e é que ainda por cima tenho o aluguer pago e tudo, e à conta da festarola eu queria ver se escrevia um livo a contar tudo, pelo menos os primeiros 120 dias da festarola (dá jeito serem 120 dias, é o título do livro). Até já tinha uma editora em vista. Bem, isso também se resolve, se não escrever o livro pode ser que consiga publicar o que escrevi aqui no blog, os primeiros 120 posts.
Raio da minha mulher, eu bem sabia que ela me ia complicar a vida. E agora, pá... queridos leitores, se lerem isto falem com o Lacoste para ver se ele consegue o dinheiro do depósito de volta, que eu estou mesmo a ver que tão cedo não saio daqui!

20 Agosto 1768, 10h00
Bem, a minha sogra é uma bruxa do pior. Quer dizer, quando foi para casar com a filha dela, tudo bem, para isso eu era só Marquês e não era libertino (e eu sempre a avisá-la, "ó senhora, olhe que eu sou libertino", e ela a insistir, que fazia gosto que a filha se casasse com um marquês), e agora, que estou aqui na prisão, ela ainda a fazer pior, quer ver-me em tribunal, enxovalhado, quer que eu morra aqui. Queridos leitores, vocês que gostam do meu blog, apoiem-me se fazem favor, arranjem-me uma petição online que é para ver se eu ainda vou a tempo da tal festa no chateau, tanto trabalho a organizar aquilo...
Hei-de escrever cada livro que há-de pôr as orelhas da minha sogra a ferver. Cá se fazem, cá se pagam, minha linda, portanto se estiveres a ler isto ficas a saber.
Agora tenho de me ir embora, o guarda aqui da prisão diz que eu tenho de ir fazer a minha cama (enxerga, quer ele dizer) e limpar a minha cela. LOL! Ele ainda não percebeu bem quem eu sou. Ai se eu te apanho lá fora, filho...

14 Julho 1789, 19h37m
Bem, ó leitores, lá consegui sair da prisa, mas quer dizer, graças a vocês é que não foi! Mas agora também já não é preciso fazerem nada, porque estes revolucionários são do melhor e ficaram todos contentes com o meu apoio. Já não posso ser Marquês, tenho de ser só cidadão, mas tudo bem. Agora é que vai ser o deboche a valer! Para este pessoal da revolução, não há regras nenhumas. Nem a Maria Antonieta pouparam, e isso eu por acaso tive pena (tive pena, vocês acreditem que sim! Tive pena pela primeiríssima e única vez na vida), porque sempre achei que aquela Maria Antonieta tinha um je ne sais quoi que eu gostaria de levar para o meu chateau e tal, mas pronto, agora não vai dar. Estes tipos da revolução, também, são um bocado exagerados, até eu acho que são.

10 Outubro 1803, 14h47m
Haja pachorra, pá, haja pachorra! Agora é este Napoleão, este Bonapartezeco, que me vem chatear! Era o que mais me faltava. Agora mandou-me prender. Diz que não gosta da Justine. Pois não gosta, se ele gostasse é que eu me surpreendia, aliás, se ele gostasse nem eu tinha escrito a Justine. Eu tentei falar com este Bonapartezeco, eu disse-lhe: "Senhor, em duas palavras dir-lhe-ei o que sou: orgulhosa ira, tudo levando ao extremo, de um desajustamento do pensamento face aos costumes que não tem igual, ah, e ateu até ao fanatismo. OK?". Mas ele é lá capaz de respeitar as opiniões dos outros. Agora estou para aqui num asilo de porcaria, estou outra vez preso, pá! Mas vocês acreditam nisto? Leitores, toca a mexer, olhem que eu desta vez quero sair daqui... tenho umas festarolas organizadas no chateau, vocês podem ir. Vá. Toca a mexer. Tirar o Marquês daqui.

Mudam-se os tempos?

Espero não estar a infringir nenhum direito de autor ao transcrever parte da entrevista a Herman José incluída no DVD do Tal Canal:

Entretanto, estava longe a perspectiva de poder vir a fazer um programa, e a administração que estava na altura na RTP não morria de amores comigo […] aquela zona política do PSD para a direita viu-me sempre com algum desconforto. Eu representava uma certa indisciplina que não era cordial. Democracia sim, mas com um certo músculo. Foi de resto essa lógica, muito arrumada e muito social-democrata, que fez com que o Humor de Perdição fosse tirado do ar, uma vez que estava a incomodar a Igreja e alguns sectores que achavam que, apesar de tudo, a democracia tem de ter os seus limites – que continua a ter, em Portugal, limites extraordinários, noutros poderes onde Abril ainda não chegou, portanto as coisas são feitas de uma certa maneira. A liberdade tem de ser decente. E é um advento de um certo PS, linha José Niza, que ganha as eleições na altura, que faz com que, até com uma certa loucura, me seja proposta a feitura do programa. O José Niza era um fã, um soixante-huitard romântico, faz parte daquela geração, do alegre Abril, meu cravo, minha liberdade… abençoada geração. E então ele, à maluca, encomendou-me o programa.

Esta entrevista é muito elucidativa, como se vê por este excerto, e, de facto, não posso senão olhar para o Herman com uma admiração renovada. Já gostava dele antes, agora ainda gosto mais. Este homem, além de ser um inovador, o rosto do grande humor em Portugal, tem esta inteligência, esta lucidez extrema, que não se coíbe de desmascarar a pequenez deste país. Pensar no Portugal dos anos 80 é, infelizmente, um susto. Pensar em Portugal em 2009 também é, mas temos de acreditar que nos anos 80 era pior. Mas o que me faz reflectir, ao ouvir o Herman dizer coisas semelhantes às que aqui transcrevi, é saber que, infelizmente, as coisas não parecem ter mudado assim tanto. O “certo PS” de que Herman fala já não existe, e não há nada que se assemelhe a uma alternativa válida. A “abençoada geração” do cravo e da liberdade também já se parece ter esgotado. O que é que restou? As mesmas peias, os mesmos entraves, as mesmas terríveis ideologias de “democracia sim, mas com músculo”, “a liberdade tem de ser decente”, a mesma alergia à crítica, a mesma demagogia de que o bom governo é aquele que se faz com mão pesada, com autoridade, para pôr o povo na ordem, num país onde a indisciplina, curiosamente, cresce como cogumelos, como fungos mal cheirosos por todo o lado, onde todos aqueles bafejados pelo chico-espertismo se conseguem escapulir com pouco mais do que um ralhete bem disposto. Ao pensar nisto tudo, até me surpreende que um programa tão visionário com o Tal Canal tenha sido feito. Pelos vistos, não fosse um soixante-huitard de visão, e nunca teria acontecido. Tal como não acontece hoje, no Portugal de hoje, ainda o mesmo que, infelizmente, proibiu o Herman de ir para o ar porque apresentar a Florbela Espanca como uma flausina com tendência para o deboche, de facto, não se faz. Liberdade sim, mas decente.
É ao ouvir coisas como estas, que o Herman vai dizendo, e ainda bem que o faz, que me apercebo que, de facto, a nossa democracia está ainda em botão. Ainda nos falta comer muita sopa, como se diz, e isso entristece-me, principalmente porque é a minha geração, aqueles que nasceram já depois do 25 de Abril, que mais é atingida por este desnorte do país. Alguma coisa falhou nisto tudo. Foram eles, os velhos, que deixaram que, afinal, ganhasse o reaccionarismo, que as muralhas das velhas instituições, nunca renovadas, ainda nos emparedassem, como dizia Cesário Verde no grande Sentimento de Um Ocidental? Ou fomos nós, a grande esperança portuguesa, a primeira geração nascida em plena democracia, que deixámos o país ficar mal?
Não sei responder, e, aliás, nem sei porque é que escrevi isto, quando a minha intenção era voltar a escrever sobre o Herman.
Não gosto de escrever sobre isto.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

E uma vez que hoje é o último dia de 2008

Apesar de todo o pessimismo e tal, e como não quero que as minhas últimas palavras para 2008 sejam "sou má pessoa", queria desejar a todos que lerem isto, certamente muito boas pessoas, eu pelo menos acredito nisso, um bom 2009.
É um desejo altruísta, mas ao mesmo tempo não é. Se toda a gente em Portugal tiver um bom 2009, as hipóteses de eu também ter um bom 2009 aumentam exponencialmente. E eu não me importava nada de ter um bom 2009, embora não possa pedir muito mais se, pelo menos, não for ainda pior do que 2008.
Portanto, para resumir: bom 2009.

Self improvement is masturbation

Aquilo que eu tenho a dizer às pessoas que passam a vida a suar no ginásio, convencidas que estão a praticar uma boa acção, é:

"Self improvement is masturbation", in Fight Club (Tyler Durden)

Portanto, uns precisam disso mais do que outros. E nada mais do que isso.

Irritam-me as pessoas que passam a vida a pregar os benefícios do ginásio e depois vão para lá aos pulos, todas contentes, falar de pastéis de bacalhau e do marido que não as ajuda a virar o colchão da cama e que o colchão é pesado, sempre sorridentes, sempre a dizer que o ginásio faz tão bem, e que não se deve ir para ali com "cara de pau", e que se metem com o professor durante a aula e começam aos gritos divertidos quando têm de esticar mais a perna a dizer que vão "morrer". Não sei porquê, mas sempre que as pessoas me tentam convencer do benefício extremo de algo, perco logo a vontade de experimentar. Tudo o que seja "saudável", "benéfico", "edificante", "exemplar", à partida, provoca em mim uma grande desconfiança. Não me parece que as pessoas em geral sejam grande exemplo de como viver uma vida feliz, portanto parece-me um tanto ou quanto inútil que encetem conversas deste estilo com quem que seja.

Tudo isto faz-me chegar à conclusão de que pessoas sorridentes são insuportáveis.

Sou uma má pessoa.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Being Caravaggio

Caravaggio, de Derek Jarman, é um filme lindíssimo por várias razões. Visualmente, é perfeito. É um jogo de reconhecimento constante com as obras de Caravaggio (e não apenas com estas, recriando outras obras de arte como a Morte de Marat, por exemplo, que é a que me lembro melhor). Não é um filme-biografia sobre Caravaggio mas é muito mais do que isso, uma história de amor, um triângulo amoroso, um homem valdevinos, a crueza da vida, um ensaio (ou uma explicação) sobre a criação e a arte, a cisão entre o homem e o artista. Já Woody Allen também pensou sobre isto, mas de forma completamente distinta, no também belíssimo Sweet and Lowdown, em que Sean Penn é um músico divino, mas um homem insuportável.
Gosto muitíssimo de Caravaggio, de modo que este filme me atraiu naturalmente. Mas penso que qualquer pessoa poderá gostar do filme mesmo que não goste particularmente de Caravaggio. Basta gostar de filmes muito bonitos.
Encontrei aqui, num blog qualquer, um texto bastante interessante sobre o dito filme, muito bem acompanhado de fotografias que comparam cenas da película com quadros de Caravaggio, para quem gostar deste último e de Jarman. Muito giro.
Resta dizer que Derek Jarman já morreu, vítima do HIV, em 1994. Mas era um fixe.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Temos pena


Não era tão bom se eu agora, esta noite, acabasse a tese e de seguida acabasse também um grande livro, um romance estrondoso super bom e depois ganhasse o Nobel?

Eu acho que era muito bom.

É por estar ciente desta perfeita impossibilidade que volto a reiterar que o optimismo não vale a pena.

A farsa

Porque estamos no countdown final de 2008, penso que este belíssimo poema de Eugénio de Andrade sobre o belíssimo Pier Paolo Pasolini se adequa, muito e bem, ao infeliz air du temps que estamos a viver. É um poema triste, mas a poesia é uma entidade estranha, porque pode ser triste mas faz-nos sempre felizes, deixa-nos com uma alegria que, ainda que melancólica, nos vai ajudando. Mistérios desta vida.

De Eugénio de Andrade, dito por Mário Viegas, brought to you by esta invenção maravilhosa chamada Internet:


Requiem para Pier Paolo Pasolini - Mario Viegas

Eu pouco sei de ti mas este crime
torna a morte ainda mais insuportável.
Era Novembro,devia fazer frio,mas tu
já nem o ar sentias,o próprio sexo
que sempre fora fonte agora apunhalado.
Um poeta, mesmo solar como tu, na terra
é pouca coisa: uma navalha, o rumor
de Abril podem matá-lo - amanhece,
os primeiros autocarros já passaram
as fábricas abrem os portões, os jornais
anunciam greves, repressão, dois mortos na
primeira página, o sangue apodrece ou brilhará
ao sol, se o sol vier, no meio das ervas.
O assassino, esse seguirá dia após dia
a insultar o amargo coração da vida;
no tribunal insinuará que respondera apenas
a uma agressão (moral) com outra agressão,
como se alguém ignorasse, excepto claro
os meritíssimos juízes, que as putas desta espécie
confundem moral com o próprio cu.
O roubo chega e sobra excelentíssimos senhores
como móbil de um crime que os fascistas,
e não só os de Saló, não se importariam de assinar.
Seja qual for a razão, e muitas há
que o Capital a Igreja e a Polícia
de mãos dadas estão sempre prontos a justificar,
Pier Paolo Pasolini está morto.
A farsa, a nojenta farsa, essa continua.

Melhor de 2008 (lista em crise)

É impressionante, mas se tento fazer uma lista dos melhores livros que li, dos melhores filmes que vi e da melhor música que ouvi em determinado ano, nunca me lembro de nada. Quer dizer, quando faço a minha vida normal lembro-me do que gostei e do que não gostei, mas quando tenho de fazer uma lista, o meu cérebro fica Cerelac.

Posso, no entanto, dizer que me lembro, e bem, de ter lido O Idiota algures no ano de 2008. E que gostei muito deste livro e que aconselho. Também me lembro de ter descoberto a poesia de Johannes Bobrowski, editado pela Cotovia, e de ter gostado. Sei que um aspecto positivo (talvez o único) de 2008 foi ter ido ver muito cinema português, e que o Mal Nascida vale mesmo muito a pena, não desilude nada em relação a Noite Escura, grande Johnny Canijo.

Sinceramente, e para grande vergonha minha, e chegando também à constatação de que ipods e restantes tecnologias e gastar a "mesada" toda no cinema não mudam necessariamente a nossa vida, não me consigo lembrar de mais nada para dizer. Sem mais assunto, sou lamentavelmente obrigada a subscrever-me já aqui, com a certeza porém de ter aprendido uma grande lição.